“IA é a primeira revolução tecnológica em que os envolvidos têm medo”

Adolfo Mesquita Nunes, autor do livro “Algoritmocracia”, explica no 50.º episódio do podcast Partida de Xadrez, que vai para o ar esta segunda-feira, os perigosos caminhos da inteligência artificial.
Adolfo Mesquita Nunes é o convidado do 50.º episódio.
João Cortesão / Jornal de Negócios
Negócios 22 de Março de 2026 às 12:00

“Esta é a primeira revolução tecnológica na história da Humanidade em que pessoas que estão profundamente envolvidas nela têm medo do que se está a passar”, alerta Adolfo Mesquita Nunes, advogado, ex-político e autor do livro “Algoritocracia - Como a inteligência artificial está a transformar as nossas democracias”, no 50.º episódio do podcast Partida de Xadrez, que vai para o ar esta segunda-feira no site do Negócios e nas principais plataformas. “Nunca se ouviu isto com a eletricidade ou com a internet. As pessoas têm medo porque não se sabe onde é que isto vai parar”, avisa.

Para Adolfo Mesquita Nunes, “se fosse o Estado que todos os dias escolhesse as notícias que cada um vê no telemóvel ninguém aceitaria. Mas nós estamos a aceitar isso agora, não do Estado, mas dos algoritmos”.

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Em sua opinião, não é possível travar esta revolução tecnológica com as mãos, mas ela “carece de algum tipo de regulação que nos permita ganhar poder sobre os algoritmos”. “Eu devo ter poder dizer ao algoritmo que não quero que o meu ‘feed’ de notícias seja influenciado pelas minhas pesquisas, mas eu não tenho esse poder”, lamenta.

Para Gonçalo Moura Martins, “o modo como a inteligência artificial (IA) está a ser usada pelas grandes plataformas está a condicionar o pensamento dos seus utilizadores, agravando divisões e retirando o contraditório, criando verdades ditas alternativas aos mesmos factos”. Para o gestor, que vê inúmeras vantagens nesta ferramenta, designadamente no mundo das empresas, a IA é ao mesmo tempo “um perigoso caminho para percorrer que poderá pôr em causa equilíbrios sociais e até ao nosso modelo de governar e viver em democracia”. A ética, questiona, "está do lado de quem cria a ferramenta ou de quem a utiliza?” 

António Ramalho frisa, por seu lado, que se “a internet democratizou o acesso à informação, a IA parece tender a restringi-la e a focá-la sob a aparência da personalização” e “tudo isto em nome da economia da atenção”. “O facto de passarmos a ter uma sociedade quase de reação direta põe-nos perante poderes que de facto nunca foram legitimados”, salienta, apontando um conjunto de "riscos agravados que estamos ainda a descurar na IA”.

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Para Adolfo Mesquita Nunes, “não se pode dizer ao mesmo tempo que vamos encontrar a cura para o cancro com a inteligência artificial e que não vai ser possível dar poder às pessoas para escolherem a forma como os algoritmos interagem”. “Temos, como sociedade, de discutir como é que queremos lidar com isto, até onde queremos ir, que cautelas devemos ter. Como não vamos poder proibir, então vamos criar regras sobre como é que estes sistemas funcionam, como os monitorizamos e quem os fiscaliza”, defende. “Esta é uma época fascinante para se estar vivo, mas não sei qual é o resultado”, reconhece.

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