Análises Deco Estratégia: O que fazer em caso de "crash" das bolsas?

Estratégia: O que fazer em caso de "crash" das bolsas?

Os "crashs" bolsistas sempre existiram. Como reagiria perante esse cenário? Entraria em pânico ou manteria a calma? Neste artigo, damos-lhe conselhos práticos, consoante o seu perfil de investidor. É possível minimizar as perdas.
Estratégia: O que fazer em caso de "crash" das bolsas?
Deco Proteste 05 de abril de 2016 às 10:55
Um "crash" bolsista é uma forte queda do valor de um ativo(s)/mercado(s) num curto espaço de tempo. Está quase sempre associado ao estouro de uma bolha, levando a maioria dos investidores a sair do mercado em simultâneo e a todo o custo. Este dossiê analisa o que fazer nesses casos. Os "crashs" são previsíveis? Deve tentar-se evitá-los? Como é que um investidor se pode proteger? Os conselhos que lhe propomos foram divididos em três níveis: básico, intermédio e avançado.

Desde a especulação sobre bulbos de tulipas em 1637 até à chamada "Black Monday" dos mercados asiáticos em agosto último, as quedas súbitas e acentuadas de títulos cotados em bolsa (ações, matérias-primas, obrigações…) existem há perto de 400 anos, como pode constatar nos vários exemplos descritos na infografia da página seguinte. Porém, estas descidas são exemplos raros, que representam exceções à regra. Podem ser brutais e desaparecer tão rapidamente como apareceram ou perdurar muito tempo. Muitas vezes ocorrem após um longo período de subidas e as suas consequências são cada vez mais acentuadas porque, na era atual, é raro afetarem só um mercado.

Os "crashs" são previsíveis?
Comecemos com uma má notícia: prever o momento exato de um "crash" é impossível, tal como também não é possível saber ao certo quando será o momento de viragem (subida das cotações). Mesmo que as ações já registem subidas elevadas, quem nos garante que não continuarão a subir? Do mesmo modo, baixas avaliações não significam que as ações começarão a subir de imediato. É óbvio que as probabilidades de haver subidas são maiores mas é impossível saber com precisão quando é que irão ocorrer.



Nível básico

1 Evitar as ações
A única forma de ter certeza que sai incólume dos períodos de descida das bolsas é… não investir em ações. É claro que, em contrapartida, não beneficiará do seu elevado potencial de valorização quando comparado com outros tipos de investimento. Embora haja muitos períodos na história, mais curtos ou mais longos, em que o rendimento das obrigações superou o das ações, no longo prazo (no mínimo cinco anos), estas são o investimento ideal para poupar para a reforma, pois têm um rendimento esperado superior. Logo, quando mais cedo começar, melhor.

AVISO: No contexto atual de baixas taxas de juro e, numa perspetiva de longo prazo, não investir em ações tem um custo de oportunidade elevado. Logo, reservamos o conselho de não investir em ações apenas para quem não quer de todo correr riscos ou possa precisar do dinheiro a curto prazo.

2 Não fazer nada
Quando as bolsas descem, deverá manter calmamente os seus investimentos. Neste caso, o tempo é o seu melhor aliado. O gráfico da evolução das bolsas mundiais é elucidativo. A longo prazo, um investimento em ações diversificado tende a subir. Mais cedo ou mais tarde, os mercados de ações acabam por fixar novos máximos. Claro que existem períodos de queda. Contudo, se, por exemplo, tivesse vendido tudo aquando da bolha de Internet em 2000 ou aquando da crise financeira em 2008, teria perdido os períodos de subida subsequentes, que renderam 220 e 214%, respetivamente.

AVISO: Só não deve fazer nada se ainda acreditar no potencial das ações ou fundos em que investiu e, mais importante ainda, se for possível abdicar desse dinheiro durante muito tempo. A história mostra que não se deve vender nos piores momentos.

3 Diversificar
Nenhuma carteira de ações está imune a um "crash". Mas, ao comprar diferentes tipos de empresas, evitará colocar todos os ovos no mesmo cesto e, assim, repartirá o risco (se a diversificação for bem feita). Logo, deve adquirir ações de diferentes regiões e setores de atividade, em euros e noutras divisas, empresas de crescimento e de valor, etc. Como pode ver no quadro ao lado, todos os países e setores foram afetados pela crise de 2008 mas no setor farmacêutico, por exemplo, as quedas foram bem menores.

AVISO: Quer se trate de ações ou de outros ativos (ações, obrigações, imobiliário), uma boa diversificação permitirá sempre à sua carteira resistir melhor a um possível "crash". Se optar por um fundo de investimento misto, já disporá de uma boa diversificação.



Nível intermédio

4 Comprar e vender
Um crash bolsista também pode ser uma boa oportunidade para reavaliar a carteira e fazer alterações. Ainda acredita no potencial dos seus investimentos? Por que não aproveita a queda das cotações para… comprar. Apesar de tudo, talvez não tenha oportunidade de comprar determinada empresa, que é bem gerida, a um preço tão baixo. Compre e o tempo trabalhará para si. Mas, para comprar precisa de dinheiro. E se está totalmente investido, ficará "bloqueado". Daí a necessidade de com regularidade (e parcialmente) realizar mais-valias, sobretudo se uma ação já está cara e tem muito peso na carteira. Ao gerar liquidez de forma gradual, proteger-se-á contra eventuais quedas bolsistas e poderá utilizá-la mais tarde para comprar a um preço menor.

AVISO: Fazer transações durante um "crash" bolsista não é para todos. Ir contra o clima negativo do mercado e manter a cabeça fria não é fácil. Logo, é importante que saiba bem o que está a fazer e que tenha feito o trabalho de casa. Qual o preço que está disposto a pagar por determinada ação e quanto é que quer receber por outra? Sobretudo em períodos de maior volatilidade, é fundamental acompanhar atentamente o mercado e usar ordens com limite de preço para evitar surpresas desagradáveis.

5 Ordens "stop loss"
Com ordens "stop loss" podemos proteger-nos contra a descida das cotações. Como o próprio nome indica, pretendem "parar as perdas". Ao colocar uma ordem deste tipo junto do seu intermediário financeiro está a ordenar a venda de um título a um preço inferior ao do mercado, o que pode parecer estranho. Porém, mesmo que ainda acredite no potencial da ação e não a queira vender, a ordem "stop loss" permite-lhe evitar males maiores caso a cotação desça muito. Vejamos um exemplo: imagine que a ação negoceia a 50 euros e coloca uma ordem "stop loss" a 40 euros. Se a ação X subir, nada acontecerá e beneficiará da subida do preço. Se cair abaixo dos 40 euros (limite estabelecido por si), será acionada uma ordem de venda. Neste caso, se a cotação continuasse a descer, já teria limitado as suas perdas porque já vendeu o título.

O termo "stop loss" pode ter ainda outro significado. Imagine que tinha comprado a ação a 30 euros. Neste caso, uma ordem "stop loss" não servirá para limitar as perdas mas para assegurar um ganho mínimo.

Há dois tipos de ordens "stop loss": "stop limit" ou "stop market". Em ambos os casos, terá de fixar um nível "stop loss" (40 euros no exemplo), mas a execução da ordem é diferente. "Stop limit": quando a cotação atingir os 40 euros será automaticamente colocada uma ordem de venda a 40 euros. Se não for feita mais nenhuma transação a esse preço e a cotação continuar a cair, os títulos não serão vendidos e manter-se-ão em carteira. "Stop market": neste caso, quando a cotação atingir os 40 euros ou menos será acionada de imediato uma ordem ao melhor (sem limite de preço), pelo que terá a certeza que a venda é executada. Contudo, neste caso, poderá vender os títulos a um preço bem inferior ao limite por si estabelecido, sobretudo quando se trata de empresas com pouca liquidez bolsista (pouco negociadas). Se, de repente, a cotação descer para 32 euros, por exemplo, os seus títulos serão vendidos a esse preço, muito inferior aos 40 euros pretendidos.

AVISO: Apesar das ordens "stop loss" poderem ajudar a proteger a sua carteira, esta técnica nem sempre funciona. Primeiro, é difícil definir o nível de "stop loss". Segundo, uma ordem deste tipo é eficaz quando a cotação desce de forma gradual mas quando isso acontece de forma repentina e acentuada, pode ter de vender a um preço muito inferior ao que queria. Por fim, se a cotação recuperar rapidamente (e prevê-lo é impossível), não aproveitará essa subida se não tiver comprado novamente o título.


Nível avançado

6 ETF curtos
Sabia que há instrumentos financeiros cotados em bolsa que lhe permitem ganhar quando as bolsas descem? Um deles são os ETF (Exchange Traded Funds), que são fundos de investimento negociados em bolsa como as ações e que, quando são curtos (em contraponto com os longos) evoluem em sentido contrário ao do índice de referência (saiba mais na edição mensal da PROTESTE INVESTE de outubro de 2015). Um exemplo de um ETF curto é o Lyxor ETF Euro Stoxx 50 Daily Short que segue , de forma inversa, a evolução do índice Euro Stoxx 50. Assim, em cada dia, este ETF obtém o rendimento percentual inverso ao do Euro Stoxx 50. A título de exemplo, o Euro Stoxx 50 perdeu 44% em 2008 ao passo que este ETF ganhou 47%. Um ótimo rendimento para quem o detinha nessa altura e o vendeu posteriormente, já que em 2009 passou-se o inverso: o Euro Stoxx 50 subiu 21% e o ETF desceu 28% (ver gráfico).

AVISO: Os ETF curtos não são um investimento de longo prazo e, pelas suas características, podem ser ineficazes na cobertura do risco por um longo período de tempo. Além disso, são um investimento reservado a especuladores que negoceiam ativamente em bolsa e que seguem de muito perto os mercados. Os instrumentos financeiros curtos são perigosos para os pequenos investidores e não os aconselhamos de todo.



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"Warrants" de venda
Um "warrant" autónomo é um título cotado que dá o direito de comprar ou vender um ativo subjacente numa data determinada a um preço conhecido a priori e mediante o pagamento de um prémio. É um produto financeiro muito idêntico a uma opção. Num "warrant" de venda, o seu valor sobe quando o do ativo subjacente (ação, índice bolsista…), desce. Logo, pode proteger-se contra a queda de determinada ação comprando um "warrant" de venda sobre essa ação ou cobrir (parcialmente) o risco de uma carteira de ações através da compra de um "warrant" de venda sobre um índice bolsista (Euro Stoxx 50, PSI-20, Dax 30...). Um dos perigos dos "warrants" é que parte do seu preço é determinado pelo fator tempo. E, à medida que se aproxima a data de maturidade, com tudo o resto constante, o valor do "warrant" vai diminuindo, pois este deixará de existir na data de vencimento.

AVISO: Os "warrants" autónomos oferecem muitas possibilidades para proteger uma carteira e já provaram a sua utilidade, mas, na prática, é complicado fazer uma cobertura perfeita do investimento. Além disso, o "timing" de compra de um "warrant" de venda tem de ser preciso (o valor do ativo subjacente deverá começar a descer rapidamente). Ora, se há uma coisa muito difícil de prever nos mercados financeiros é o "timing". Se estiver errado e a cotação do ativo subjacente subir, o "warrant" de venda pode perder todo o valor. Logo, esta é uma forma de proteção do risco muito arriscada, cara e complexa para pequenos investidores. 

Bolsa de Lisboa A bolsa nacional também já viveu vários momentos difíceis. Um dos primeiros foi em 1973 aquando do primeiro choque petrolífero mundial. Mas, o mais mediático foi o "crash" de 20 de outubro de 1987, que manteve a bolsa deprimida durante um ano. Na sua origem esteve um período de fortes subidas iniciado em 1983 e que atinge o seu clímax em 1987, com ganhos acumulados de 280% de janeiro a outubro. Ficou então celebre a frase de Cavaco Silva "comprar gato por lebre". Desde a criação do PSI-20 em 1993, a bolsa nacional já viveu 16 dias com quedas superiores a 5%. Quatro ocorreram em 1998, depois de um período de fortes subidas iniciado em 1993. Porém, a queda mais estrondosa foi a de outubro de 2008, em plena crise financeira. Só nesse mês, a bolsa de Lisboa teve quatro dias de descidas acima de 5%. A maior de todas foi a 6 de outubro (-9,9%). Recentemente, realce ainda para a queda de 5,8% a 24 de agosto de 2015 (segunda-feira negra das bolsas chinesas).
Este artigo foi redigido ao abrigo do novo acordo ortográfico.




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