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Biocombustíveis são crime contra grande parte da humanidade

A par da crise do "subprime", tem estado a intensificar-se uma outra crise: a dos alimentos. Com efeito, as elevadas cotações da generalidade das "commodities", que vão no sexto ano de subidas, têm inflacionado fortemente os preços dos alimentos, provocan

Carla Pedro cpedro@negocios.pt 28 de Abril de 2008 às 17:36
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A par da crise do "subprime", tem estado a intensificar-se uma outra crise: a dos alimentos. Com efeito, as elevadas cotações da generalidade das "commodities", que vão no sexto ano de subidas, têm inflacionado fortemente os preços dos alimentos, provocando tensões sociais um pouco por todo o mundo.

Esta crise, que já foi apelidada de "tsunami silencioso da fome", pôs em estado de alerta muitas organizações mundiais, que têm vindo a lançar advertências sobre os perigos deste aumento da factura alimentar a nível mundial.

Em épocas de elevada inflação nos EUA, o ouro era o tradicional valor-refúgio para os investidores. Mas agora o petróleo está no radar dos especuladores e a evolução dos preços deste ouro negro, muito perto dos 120 dólares no mercado norte-americano, tem acompanhado esse entusiasmo. Esta situação acabou por levar a um aumento generalizado dos preços das matérias-primas e, consequentemente, daquilo que compramos para comer.

O arroz é um dos exemplos mais visíveis das últimas semanas. Alguns dos principais países exportadores de arroz, como o Vietname, a China e o Egipto, já começaram a tomar medidas de protecção, reduzindo a oferta para os mercados mundiais de forma a terem alimento suficiente para as suas populações. E apesar de a Tailândia e o Brasil terem anunciado que não pretendem cortar a sua oferta, os EUA e o Reino Unido já começaram a tomar medidas de prevenção.

Na quinta-feira passada, o Sam’s Club, filial da gigante norte-americana da distribuição Wal-Mart, anunciou ter limitado a venda de arroz branco importado aos seus clientes um máximo de quatro pacotes (com cerca de 9 quilos cada um).

No mesmo dia, os proprietários de alguns estabelecimentos britânicos juntaram-se as essas restrições da Wal-Mart, presente no Reino Unido através dos supermercados Asda. De acordo com o "The Times", a principal empresa importadora de arroz basmati do Reino Unido, Tilda, informou que alguns dos seus clientes optaram por restringir o fornecimento aos seus consumidores para dois pacotes por pessoa.

Um representante da Tilda indicou que a medida foi adoptada essencialmente nos estabelecimentos "cash & carry", que servem sobretudo restaurantes chineses e indianos, de forma a travar o açambarcamento de arroz por parte de alguns clientes mais receosos com as notícias sobre a escassez deste cereal, cuja cotação já subiu este mês 26% nos mercados internacionais.

"Na semana passada havia uma promoção na compra de arroz"

Para o consumidor particular, esta restrição ainda não se fazia sentir no final da semana passada em Londres. Cláudia Stela Rodrigues, portuguesa a viver em Londres, disse ao Jornal de Negócios que na sexta-feira comprou arroz basmati Tilda num supermercado Asda e que conseguiu comprar dois pacotes quase pelo preço de um. "Havia uma promoção para os pacotes de arroz pré-cozinhado. Cada pacote costuma custar 1,80 libras e agora estavam a vender dois por duas libras", contou Cláudia Rodrigues.

Mas esta poderá ser uma situação de curta duração, a crer nas notícias que têm sido veiculadas. O diário "Emirates business" indicou que as reservas mundiais de arroz caíram para o nível mais baixo desde 1983-84, especialmente nos EUA, onde os inventários de arroz estão no nível mais reduzido desde 1974.

Biocombustíveis e especulação na origem do problema?

Mas quais são os principais motores desta inflação dos preços dos alimentos? Para Zean Zeigler, relator da ONU para o Direito à Alimentação, que considera esta crise uma "verdadeira tragédia", os "culpados" são evidentes: a transformação de alimentos em biocombustíveis e a especulação financeira.

Em entrevista à "Folha Online", Ziegler disse que os biocombustíveis são "um crime contra grande parte da humanidade", pois a transformação maciça de alimentos em combustível provocou a escalada dos preços dos produtos básicos.

Assim, o relator defende uma moratória imediata durante pelo menos cinco anos na produção de biocombustíveis.

Sobre a especulação, Ziegler disse que esta "é responsável por 30% da explosão dos preços", especialmente na Bolsa de Chicago.

A comissária europeia para a Agricultura e o Desenvolvimento Rural, Mariann Fischer Boel, falou também hoje sobre esta crise, afirmando que o mau tempo e os especuladores estão a contribuir para a subida dos preços dos alimentos.

Citada pela Bloomberg, aquela responsável disse que a União Europeua está a tomar medidas para incrementar a oferta.

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