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Rally épico do S&P 500 impulsionado por ativos que não pode ver nem tocar

A mudança começou após a crise financeira de 2008 e repete-se agora com a pandemia.

Bloomberg 24 de Outubro de 2020 às 20:00
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Junte todos os ativos físicos detidos por todas as empresas no S&P 500, todos os carros, prédios de escritórios, fábricas e mercadorias. Depois venda tudo a preço de custo numa transação gigante. A soma líquida não chegaria a 20% do valor do índice, que é de 28 biliões de dólares. Muito do que resta vem de coisas que não podemos ver ou contar: algoritmos, marcas e listas.

 

No sentido mais amplo, é um fenómeno novo. Em 1985, por exemplo, antes de Silicon Valley dominar os rankings das maiores empresas dos Estados Unidos, a tendência era que ativos tangíveis fossem mais próximos de metade do valor de mercado.

A mudança começou após a crise financeira de 2008 e repete-se agora com as paralisações da pandemia de coronavírus. O valor de empresas com forte peso de ativos intangíveis, como Google e Facebook, dispara, enquanto ações mais industriais definham. O que representa uma fonte de profunda preocupação para os que se preocupam com fatores como emprego e desigualdade.

A ascensão dos intangíveis ajuda a explicar por que muitos trabalhadores nos EUA passam por uma situação tão difícil, com salários estagnados e benefícios a desaparecer, e sinais de que a crise pode continuar, de acordo com Baruch Lev, professor da Universidade de Nova York, cujos artigos geraram um debate sobre o assunto entre académicos.

Em resumo, o fenómeno está por trás das críticas contra as gigantes tecnológicas que chegaram ao Congresso. Simplificando, esses ativos não exigem que hordas de trabalhadores os criem e os mantenham da mesma forma que os da velha economia.

Portanto, apesar de toda a preocupação sobre como o rally de ações de tecnologia na pandemia indica uma bolha que está condenada a explodir, a maior preocupação pode ser que isso não aconteça.

 

"Quando as pessoas pensam sobre essa crescente desigualdade de rendimento, muito disso vem da crescente desigualdade no setor empresarial", diz Lev, diretor de pesquisa contabilística da escola de negócios da NYU. "Os que são bem-sucedidos são extremamente bem-sucedidos. E outros que ainda empregam muitas pessoas realmente não podem sair dessa armadilha."

Mas é tudo perfeitamente racional. Os investidores de ações estão apenas a antecipar e apostar na capacidade dessas empresas de gerar fontes de receita nos próximos anos. A inovação industrial foi considerada anti-humana desde os seus primeiros dias, muitas vezes de forma errada. Mesmo os termos não são claros - atribuir valor de mercado à propriedade tangível e intangível é, em muitos aspectos, uma questão de opinião.

Ainda assim, investigadores como Lev aumentam os alertas, preocupados com a influência da Covid-19 na economia e na igualdade.

Considere uma empresa como a Adobe, cujos programas transformaram a indústria gráfica. As suas fórmulas e algoritmos são tão valiosas que mesmo com um valor de mercado de 237 mil milhões de dólares, a soma dos seus ativos tangíveis é virtualmente zero. A Adobe emprega mais de 22 mil pessoas, mas faz parte de uma onda tecnológica que, sob alguns padrões, reduz o emprego no setor da impressão para metade. Um porta-voz da Adobe não quis comentar.

Se trabalha numa empresa que navega nessa onda ou, melhor ainda, é dono de uma, está a sair-se bem. As ações da Adobe subiram 50% neste ano, parte de uma valorização as ações tecnológicas que acrescentou 2 biliões ao valor de mercado combinado do setor apesar da forte recessão. Para todas as outras, as notícias são menos positivas. Uma maneira de pensar sobre o impacto é que, embora a propriedade intelectual favoreça a criação de um pequeno grupo de trabalhadores abastados, muitas vezes substitui um conjunto maior de funcionários que ganham à hora.

"Como todos nós tivemos que mudar para um mundo digital, faz sentido que muitos dos investimentos sejam no mundo digital, que são intangíveis", disse Megan Greene, investigadora sénior da Harvard Kennedy School. "No entanto, tal acontece às custas do trabalhador. Esta crise acelerou muitas coisas, e essa é uma delas."

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