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Vender ouro vale cada vez mais a pena. Mas não ceda à primeira oferta

Para quem esteja com dificuldades financeiras ou queira simplesmente dinheiro extra, a venda de peças em ouro é uma oportunidade cada vez mais atrativa, dada a subida dos preços do metal. Mas desengane-se se pensa que todos pagam o mesmo. Fomos fazer uma experiência e, pela mesma peça, chegou a haver uma diferença de 500 euros.

Venda de ouro
Venda de ouro João Cortesão / Medialivre
26 de Fevereiro de 2025 às 09:30

Vão-se os anéis, ficam os dedos. O ditado aplica-se hoje, mais do que nunca, já que o ouro tem atingido sucessivos máximos históricos – e não deverá parar por aqui. Por isso, quem tem ouro em casa dispõe agora de uma oportunidade de receber "um bom dinheiro" por ele. Tudo depende da qualidade e do peso das peças, claro, mas será sempre uma fonte de rendimento extra que pode ajudar nas despesas familiares – ou até compor o mealheiro do dinheiro guardado para as férias ou para comprar algo que se deseje muito.

Há quem queira vender peças danificadas ou incompletas – e tudo isso é aceite, atendendo a que a maioria do ouro comprado segue para fundição – e há também quem acabe por vender as suas joias ou moedas de ouro por necessidade ou simplesmente pela oportunidade de transformar o metal precioso em dinheiro. Seja qual for o caso, o que deve fazer?

O Negócios foi ver como tudo se processa. Na qualidade de cliente-mistério, percorreu algumas lojas da especialidade e de penhores, bem como ourivesarias, sempre com as mesmas duas peças: um medalhão e um fio. E a conclusão é tão evidente que pode ser vista como o mandamento mais importante: não venda logo na primeira avaliação.

Antes de mais, deve fazer uma prospeção, pesquisando por estabelecimentos desta natureza numa mesma zona, para assim conseguir ir a mais portas no mesmo dia. O Negócios percorreu a Baixa lisboeta, bem como as zonas do Chiado e do Bairro Alto, onde pode encontrar inúmeras lojas deste segmento. Se não tiver feito uma pesquisa de antemão, basta ir olhando atentamente, pois quem compra ouro tem isso bem explícito logo à entrada e nas montras. Se não vir esses anúncios é porque não compram.

Lupa, balança e calculadora

O processo é rápido, na maioria dos casos. Uma lupa, uma balança, uma máquina calculadora e já está. Antes de mais, o avaliador verifica se a peça é mesmo de ouro e qual a sua qualidade – no nosso caso, eram ambas de 19 quilates, o chamado "ouro de lei" em Portugal, já que a maioria tem este requisito mínimo de pureza (800 milésimos, ou seja, 80% de ouro puro). Em seguida vê-se o peso e calcula-se o valor a pagar, com base na cotação diária do metal precioso, o que significa que aquilo que oferecem hoje não será necessariamente o que pode embolsar amanhã.

Há situações em que a verificação das peças é mais demorada, com o avaliador a preferir usar uma ardósia para fazer o teste de autenticidade do metal. Se for verdadeiro, passa-se ao teste de toque, que permite ter uma ideia da quilatagem. Raspa um pouco, sem causar dano, depois bastam uns pingos de ácido clorídrico e o resultado sai na hora.

No nosso caso, não houve margem para dúvidas: o fio e o medalhão são de ouro. No entanto, o medalhão, por ter duas fotos no interior, dá azo a avaliações mais díspares. O peso total é de 14,18 gramas, mas só o ouro é que interessa. "Só danificando a peça é que podemos ter a certeza", dizem-nos numa loja no Rossio. "Teríamos de desmanchar tudo para descontar o peso das fotografias e do provável esmalte do interior da peça", afirmam. "Fazendo um cálculo aproximado, diria que podemos apurar cinco gramas desta peça", explica-nos o avaliador de uma casa de penhores ali perto. Numa ourivesaria um pouco mais à frente são mais generosos: "tem metal dentro, teria de se ver melhor, mas diria que pode contar com oito gramas". Acontece que uma peça pode ter também valor como antiguidade e, nesse caso, o preço sobe – se tiver dúvidas quanto a um medalhão que recebeu de herança, por exemplo, pode consultar uma leiloeira para ter uma ideia.

Já o fio tem 25,4 gramas, muito perto do peso de uma onça troy – que é de 31,1 gramas. As avaliações desta peça também foram diferentes, consoante os compradores, apesar de todas elas terem sido feitas no mesmo dia, 18 de fevereiro, quando nos mercados internacionais o ouro rondou os máximos históricos, oscilando entre os 2.912,73 dólares por onça durante a manhã e os 2.927,12 dólares à tarde. Ao longo dos restantes dias da semana, o ouro bateu novos recordes consecutivos.

Tanto o fio como o conjunto chegaram a ter diferenças de 500 euros nos valores que nos foram oferecidos. Numa ourivesaria na Rua da Madalena, a proposta é generosa. Contabilizam 33,4 gramas pelas duas peças. A nível internacional, os lingotes têm como medida de referência o dólar por onça troy, ao passo que em Portugal é em euros por grama. O preço oferecido é de 1.670 euros. "Vou pensar". Aceitam sem insistência, estão habituados a que assim seja.

Venda de ouro
Miguel Baltazar / Medialivre

Algumas centenas de metros mais à frente, subimos a um primeiro andar e entramos numa loja de penhores. Aqui, oferecem as duas possibilidades: podemos vender ou "meter no prego". Os valores são aproximados, mas pelo penhor oferecem menos, já que a ideia é que o cliente recupere as peças quando conseguir pagá-las. Enquanto isso não acontece, há um juro mensal.

Se quisermos vender apenas o fio, a oferta é de 1.000 euros pelo penhor e de 1.350 euros pela venda. Já o conjunto vale 1.200 euros no penhor e 1.550 na venda. E como funciona? Mais uns cálculos rápidos e saem os números: "fica a pagar pouco mais de 18 euros por mês". E durante quanto tempo? "Indefinidamente, desde que vá pagando os juros. Mas também pode ir abatendo, quando tiver mais dinheiro, e assim os juros diminuem", explica. "Só fica sem as peças se não conseguir restituir o dinheiro do penhor e deixar de pagar os juros", acrescenta. E nem nesse caso está tudo perdido, já que este negócio tem muitos patamares: existem empresas que compram cautelas de penhor. Ou seja, compram a peça ou peças que tivermos penhorado e passa a ser a elas que "ficamos a dever", quase como acontece numa consolidação de crédito.

A uns passos dali, na Rua do Ouro, uma ourivesaria que também compra o metal precioso avalia as duas peças. Dizemos ter dúvidas quanto ao medalhão. "Tem valor sentimental". Dão-nos 1.400 euros pelo fio. Mais à frente, numa chamada "loja de ouro", o escrutínio é o mais rápido de todos: "pagamos 1.500 pelo conjunto ou 900 só pelo fio". Neste caso, o valor do fio foi o mais baixo de todos – mas, atendendo à diferença face ao preço do conjunto, é também onde oferecem mais pelo medalhão.

Pode vender nas lojas da especialidade, ourivesarias, casas de penhores e "sites" de leilões.

Chegados ao Rossio, a avaliação é mais demorada. Somos convidados a entrar num espaço fechado e longe de quaisquer olhares. A avaliadora tem dúvidas quanto à autenticidade do medalhão. Recorre à ardósia e ao ácido e o veredicto é veloz: é mesmo ouro. O medalhão não chama a atenção e o preço é feito ao fio: 1.356,56 euros. "E se vier cá amanhã? Pagam o mesmo?" "Provavelmente não. O preço vai mudando, mas em princípio não será uma diferença de mais de 300 euros", responde.

Na Praça da Figueira e redondezas há todo um mundo à espera de quem queira vender o seu ouro. Numa das casas, com vários funcionários, a simpatia é o mote e a boa disposição de todos salta à vista. Para quem vende por carência financeira, este pode ser um processo penoso – por vezes, é com sofrimento que se vende aquela peça que estava na família há muitos anos ou que pode até ser mais recente, mas ter um grande valor sentimental. Há até uma certa vergonha. E os compradores sabem isso. Por isso mesmo, todos eles normalizam ao máximo o processo para que o cliente não se sinta desconfortável nem constrangido. Uma atitude muito diferente de quem não está nesse negócio: em algumas das ourivesarias onde entrámos – na Baixa, no Largo do Carmo e em pleno Bairro Alto – houve um certo ar reprovador perante a pergunta: "compram ouro?".

Nessa mesma loja da Praça da Figueira, o avaliador afirma que vai ver a qualidade e fazer um preço que pode ser negociável. Foi o único a dizer isto. O peso total, descontando o provável esmalte do interior do medalhão, é calculado em 43,56 gramas – o que, multiplicado por 40 euros, dá 1.742,4 euros. O melhor valor do dia. "Vou pensar melhor". Não desiste logo. Seja para reciclagem ou para revenda, as peças luzem. "Espere, podemos tentar subir um pouco o valor se vender hoje". Fala com quem dá estas autorizações e regressa com um papel e um novo valor: 2.000 euros. É tentador para quem esteja aflito.

Um negócio sobre rodas O "negócio do ouro" está novamente a crescer. A quantidade de lojas especializadas na compra deste metal está ainda longe do "boom" entre 2010 e 2013, quando cresciam como cogumelos, dada a crise que se vivia no país, mas o volume de negócios voltou aos tempos áureos. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) enviados ao Negócios, o número de estabelecimentos especializados no comércio a retalho de relógios e de artigos de ourivesaria e joalharia era de 2.405 no final de 2023, contra 3.570 em 2011. No entanto, o número de empregados nestas lojas tem vindo de novo a aumentar desde 2021, ano em que foram contabilizados 6.391 profissionais a operar no segmento – contra 6.827 em 2023. Estão ainda longe dos 8.504 de 2012, mas estão a subir. Mas o maior crescimento é mesmo o do valor total da compra e venda: em 2023, este tipo de estabelecimentos registou um volume de negócios de 909,55 milhões de euros, contra 877,27 milhões no ano precedente. Olhando para os dados entre 2011 e 2023, os valores aproximam-se assim de 2012, ano em que as transações renderam 969,36 milhões de euros.
31,1Gramas
Nos mercados internacionais, o ouro é denominado em dólares por onça troy, que equivale a 31,1 gramas.
2Máximo
O fio e medalhão que o Negócios levou para avaliação teve um valor mínimo de 1.500 euros e máximo de 2.000 euros.
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