“Fala-se muito em restauro ecológico. Gosto muito de pensar no restauro do tecido social. Se as florestas de produção forem pensadas como florestas bem geridas, precisam de pessoas com conhecimento para ocuparem posições de emprego bem remuneradas, como valorização desse conhecimento”, defendeu Joana Amaral Paulo, investigadora do Centro de Estudos Florestais do Instituto Superior de Agronomia, na mesa-redonda “A Floresta e as alterações climáticas - Desafios e Oportunidades”, moderada por Magali Pinto, jornalista da CMTV, e integrada na cerimónia de entrega de prémios da 5.ª edição do Prémio Floresta é Sustentabilidade.
Este restauro social é também um contributo das florestas de produção para a mitigação climática e a redução do risco de incêndio, porque “trazer as pessoas para estas zonas tem um impacto forte nas empresas associadas à gestão destas florestas de produção”. Considerou serem precisas políticas públicas que as apoiem neste sentido, porque para os modelos de negócio que atualmente há, existem desafios associados.
Sobre o papel da ciência florestal neste processo, Joana Amaral Paulo esclareceu que os modelos climáticos e florestais já existem e permitem fazer planeamento setorial de longo prazo, definir que espécies privilegiar nas ações de reflorestação e antecipar quais as que, por via das alterações climáticas, estão a migrar para outras latitudes. A discussão sobre espécies como o pinheiro, o eucalipto, as nativas, as exóticas, deve ser sempre ancorada no conhecimento científico disponível e não em preferências ideológicas.
Os pareceres e a execução
“O tema das alterações climáticas é um tema que produz por dia pelo menos 100 artigos, nas melhores revistas científicas, mas é um problema dificílimo de resolver, de mitigar, através da redução das emissões provenientes dos combustíveis fósseis, porque há países que elegeram os combustíveis fósseis como a sua riqueza, o fundamento da sua hegemonia à escala global”, afirmou Filipe Duarte Santos, presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável. O geofísico e professor catedrático jubilado da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa lembrou a distância que existe entre o diagnóstico e as decisões e execução de políticas públicas. “No CNADES, fazemos pareceres e mais pareceres, vamos agora fazer um grande parecer, que levou mais de um ano a fazer, sobre as zonas costeiras. Portugal está a perder área nas zonas costeiras, perdeu 14 quilómetros quadrados nos últimos 30 anos, mas depois, quando se fazem audições, vêm presidentes de instituições, a conversa é sempre muito simpática, cordial, mas depois a ação é extremamente difícil”, referiu Filipe Duarte Santos.
“O clima mediterrânico e, em particular, o clima português, é caracterizado por uma variabilidade de anos com muita precipitação a alternar com anos de seca”, afirmou Carlos Câmara, investigador do Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Salientou que “o ciclo da água vai tornar-se mais intenso exatamente porque uma atmosfera com gases com efeito de estufa é mais energética e vai potenciar anos chuvosos com episódios extremos de chuva, anos secos com episódios extremos de seca”. Carlos Câmara apontou que o problema não se vai resolver a curto prazo, por isso, a alternativa é agir “por meio de ações de mitigação e adaptação.