Os bancos centrais têm sido os principais motores dos mercados de capitais nos últimos anos. E as próximas decisões do BCE e da Reserva Federal dos EUA são aguardadas com ansiedade pelos investidores.
Apesar do peso das decisões das autoridades monetárias, o foco do mercado está também a virar-se para os desenvolvimentos políticos nos dois lados do Atlântico. Por um lado a eficácia do poder de fogo dos bancos centrais começa a ser questionada, caso não seja acompanhado por políticas de expansão orçamental. Por outro, o calendário de eventos políticos nos próximos meses vai aquecer.
John Hardy, que será um dos oradores da conferência "Análise de Mercados Financeiros" que o banco BiG organiza no dia 24 em parceria com o Negócios, observa que os bancos centrais não estão a ser capazes de, sozinhos, incentivar o consumo e o investimento de forma a espicaçar o investimento e a inflação. O responsável pela estratégia de mercados cambiais do Saxo Bank considera que, "para ser efectiva, a resposta precisa de mudar para a política orçamental, em que o dinheiro que for imprimido se destine a ser injectado na economia, seja através de descida de impostos, de estímulos, ou ambos, para forçar a subida da procura". Até porque, defende, "o jogo está quase acabado para bancos centrais como o BCE e o Banco do Japão, que estão a correr contra os limites técnicos dos seus programas. O jogo pode prolongar-se por um tempo, mas a sua eficácia já acabou".
O calendário político
Mas o peso dos eventos políticos nos mercados não se fica apenas pela questão sobre se os governos estarão ou não alinhados com as medidas expansionistas dos bancos centrais. Como o Brexit mostrou, por vezes no tabuleiro dos mercados entram de rompante eventos que não estavam previstos, com consequências pesadas para a evolução dos activos.
E nos próximos meses e durante 2017 existirão acontecimentos políticos que poderão causar turbulência no mercado. A começar pelas presidenciais dos EUA, em Novembro, e pelo referendo constitucional em Itália, que poderá ditar o futuro político do actual governo. No próximo ano, a atenção dos investidores estará centrada nas eleições francesas e alemãs.
Mais que os próximos passos dos bancos centrais, John Hardy considera que os grandes factores-chave para os mercados serão "as políticas adoptadas pelos EUA (seja Clinton ou Trump) na resposta a uma recessão que possivelmente poderá chegar no final de 2016 ou no próximo ano. E também os riscos políticos na Europa no próximo ano".
Além disso, considera que apesar da actuação do BCE, "os problemas estruturais da crise de dívida não foram resolvidos e o momento da verdade para a Europa - tanto a nível de integração orçamental ou do abandono do euro por parte da periferia - ainda está por chegar".
O risco e a oportunidade
Apesar de todos aqueles riscos, nos últimos tempos os mercados foram marcados por alguma acalmia. Steven Santos, gestor do BiG, observa que "a volatilidade das acções norte-americanas atingiu mínimos das últimas duas décadas durante o mês de Agosto". E refere que "muitos investidores activos que procuram volatilidade para explorar oportunidades em prazos mais curtos" estão a optar por ganhar exposição aos mercados cambiais.
Também John Hardy refere que um dos principais desafios para quem negoceia é o que "os intervalos de negociação têm estado a encolher o que leva à diminuição de oportunidades" para explorar tendências. No entanto, tendo em conta os riscos que se perspectivam para os próximos meses e para 2017, o estratego do Saxo Bank antecipa que os próximos tempos sejam bem mais voláteis. Risco ou oportunidade, isso dependerá do perfil de cada investidor.