O Saxo Bank foi considerada a entidade mais certeira nas previsões cambiais em 2015 por uma publicação especializada. Mas para o responsável pela estratégia daquela entidade, neste mercado, mais importante que as previsões é a capacidade de adaptação aos factores que têm impacto no mercado.
O Saxo Bank foi nomeado pela FX Week como a entidade mais certeira nas previsões cambiais em 2015. Quais foram os segredos para se ser tão certeiro?
Há dois aspectos a ter em conta quando se fazem previsões: a direcção e o "timing". E no ano passado tive a sorte suficiente de conseguir acertar em ambas as variáveis. Não finjo ter acesso a qualquer segredo para as estimativas. Mesmo os melhores analistas tanto podem errar como acertas, seja devido à direcção, a eventos que não eram possíveis de prever ou simplesmente por falharem ligeiramente no "timing". E considero que as previsões são menos importantes do que ter vontade de mudar de pensamento à medida que novos dados e temas vão afectando o mercado. Por exemplo, as minhas estimativas de médio prazo apontavam um dólar mais forte do que o que temos assistido. Isto porque a Fed não subiu as taxas de juro, como eu esperava que fosse o caso. E pensei que se não subisse os juros seria porque a economia dos EUA demonstraria fraqueza, o que significaria preocupações sobre o crescimento global, o que ainda assim, apoiaria o dólar, já que tende a ser comprado quando há necessidade de refúgio. Em vez disso o que tivemos foi dados ambíguos nos EUA, a Fed a não ir a lado nenhum e uma forte subida nos activos de risco com os investidores à procura de rendibilidade.
As políticas não-convencionais dos bancos centrais alteraram a forma de negociar nos mercados cambiais?
A necessidade do mercado se focar nos bancos centrais sempre existiu. Mas isso tem-se intensificado nos anos que se seguiram à crise financeira global. Nos meses mais recentes, a parte mais difícil de se negociar em FX é que o mundo aparenta ter desistido da volatilidade já que não são antecipadas novas direcções de políticas pelo mercado, pelo menos no curto e no médio prazo. Isso significa que os intervalos de negociação têm encolhido e começam a faltar oportunidades de negociação. Mas estes períodos de acalmia acabam quase sempre por resultar em movimentos dramáticos, já que os mercados acabam por ser surpreendidos pelo rumo dos acontecimentos. E penso que 2017 terá bem mais volatilidade do que 2016.
Há quem defenda que existe uma repressão financeira causada pelos bancos centrais. A maior influência destas entidades é pouco saudável?
Os bancos centrais estão a destruir o mercado de capitais ao distorcer o preço do dinheiro com taxas de juro zero e negativas e com as compras de activos como obrigações de empresas e mesmo de acções, como o Banco do Japão. Isto permite todas as formas de comportamentos contraproducentes, já que é fácil para empresas ineficientes refinanciarem dívida a taxas muito baixas. E agrava a desigualdade que flagela as nossas sociedades em que os ricos são premiados pela subida dos preços dos activos e os trabalhadores estão a perder em termos relativos. Os bancos centrais estão a fazer isto em nome de evitar a dor de uma recessão no curto prazo. Mas isso garante que no longo prazo teremos uma economia e mercados disfuncionais o que aumenta o risco de uma explosão catastrófica do "sistema", assim que os bancos centrais manipuladores forem finalmente forçados a desistir.