“A resiliência tem uma longa viagem de 13,7 mil milhões de anos. Começou pelo Big Bang. A física, o momento da fundação, da criação, das leis. A resiliência aqui é, essencialmente, a estabilidade das leis. O segundo momento é o tempo da química, da estrutura, das relações, das ligações, da resiliência como consistência estrutural. O terceiro momento, o tempo da biologia, da orientação, dos sistemas de informação, a ideia da resiliência como adaptação. O quarto tempo, o tempo dos ecossistemas terrestres, da interdependência, da resiliência como capacidade coletiva. Finalmente, a economia, a coordenação e a decisão, o tempo das transformações conscientes”, explicou Miguel Freitas, professor na Universidade do Algarve e antigo secretário de Estado das Florestas, que foi o keynote speaker da cerimónia dos prémios Floresta é Sustentabilidade.
Este conceito de resiliência foi o fio condutor para diagnosticar os bloqueios do setor e apontar as escolhas que, na sua visão, podem transformar a floresta portuguesa num ativo estratégico de futuro. Miguel Freitas juntou a bússola para evocar a necessidade de orientação num percurso marcado pela tentativa e erro. A resiliência não é um conceito fixo, transforma-se consoante a escala temporal e o sistema em causa, ressaltou Miguel Freitas.
Eficiência e resiliência
“Quando falamos do modelo de eficiência, estamos a falar de otimização em cenários normais. Quando falamos de resiliência, estamos a falar de adaptação, de adaptabilidade dinâmica, isto é, da capacidade de responder àquilo que são choques, perturbações, e responder mantendo as funções. É trabalhando estas duas dimensões em conjunto que julgo que podemos encarar as respostas que procuramos”, considerou Miguel Freitas.
Esta recusa em opor eficiência a resiliência, propondo antes a sua conjugação permanente, levou-o a defender a passagem de uma gestão centrada na árvore para uma gestão do território, com criação de mosaicos e o uso da cobertura florestal contínua. Sobre o eucalipto, frequentemente acusado de inviabilizar consociações, Miguel Freitas foi taxativo. “A ideia de que não é possível fazer consociações com o eucalipto é uma ideia que não corresponde verdadeiramente à prática. Há experiências. Vale a pena conhecermos as experiências.” Citou como exemplo a Herdade do Picotino, com 650 hectares onde eucalipto, pinheiro, castanheiro e sobreiro coexistem em função da exposição e da produtividade de cada encosta, um modelo concreto de resiliência aplicada.
“Na floresta há mais arquitetura do que engenharia, e mais engenharia do que economia, mas precisamos das três. Precisamos da arquitetura, de planos e de planear a médio e longo prazo. Mas precisamos de decidir no curto prazo. Precisamos da engenharia de processos e de saber fazer. Mas, mais do que tudo, precisamos de economia, de modelos de negócio. Precisamos de mais conhecimento, de saber fazer, mas, mais do que tudo, precisamos de fazer fazer”, afirmou Miguel Freitas. Concluiu que o desafio não é planear mais, mas decidir melhor e executar com convicção.