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De fábrica de auto-rádios a gigante exportador

Em 28 anos, a Bosch passou dos auto-rádios para as pistas da condução autónoma. Hoje, há produtos criados em Braga que não existem em mais nenhuma parte do mundo.

Rute Barbedo 27 de Junho de 2018 às 15:09
Paulo Duarte
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Em cada posto estão penduradas as intenções gerais de trabalho. A precisão é alemã, as mãos portuguesas. No pavilhão central da Bosch, em Braga, sete pessoas estão "a fazer um Audi Q7". Não é que a multinacional fabrique automóveis, mas é por modelos que os trabalhadores se entendem quando falam dos painéis electrónicos ("displays") que contam quilómetros e orientam o condutor. Alguns integram o Optical Bonding, uma tecnologia exclusiva da fábrica de Braga que evita a perda de informação devido à incidência de luz.

Carlos Costa, chefe da linha de produção, tem de garantir a ausência de falhas e o cumprimento das normas. "Mais do que rapidez, o importante é a qualidade. Se não houver isso, pára tudo." Num complexo que, em breve, será de 110 mil metros quadrados, de onde saem dezenas de milhares de sensores por dia e onde trabalham 3.500 funcionários (de operacionais a engenheiros), "acontecem muitos problemas", reconhece Carlos Ribas, o administrador. Uma linha pára, resolve-se, retoma-se o processo. Mas há muito que a Bosch Car Multimedia, a maior unidade da marca no país, deixou de ser só produção.

Previsões erradas

Quando, em 2015, o engenheiro electrónico formado em liderança na escola japonesa assentou bases em Braga, as prioridades estratégicas eram a inovação e o crescimento orgânico. Previa contratar 1.000 pessoas até 2018 para as três unidades de produção - Braga, Aveiro e Ovar - e dizia: "A formação dos nossos colaboradores, a aquisição de competências e a criação de conhecimento serão as prioridades." Se lhe soa familiar, é porque o disco ainda é o mesmo.


As previsões saíram ao lado. Só a fábrica de Braga cresceu 16%, 32% e 49% em cada um dos últimos três anos. "Quase triplicámos a facturação", resume o gestor. No final de 2016, empregava 2.297 pessoas, segundo os dados da Informa D&B; agora tem perto de 3.500. É a maior exportadora e a maior empresa do concelho em volume de negócios - o ano de 2016 terminou acima dos 681 milhões de euros de facturação. E em 2017, fecharam o maior contrato de sempre, de 2.000 milhões de euros (repartidos com a China e a Malásia, mas 65% da produção cabe ao Minho), com a Renault/Nissan. A 30 de Maio, inauguraram um centro de tecnologia e desenvolvimento, "baptizado" pela chanceler alemã Angela Merkel, que destacou o contributo de Braga para o "futuro da Europa".


681
Volume
O volume de negócios em 2016 (dados da Informa D&B) foi de 681 milhões de euros.

49
Por cento
A Bosch Braga cresceu 49% em 2017, depois de ter crescido 32% no ano anterior.

47
Investimento
A expansão da unidade nos próximos anos representa um investimento de 47 milhões.


Pois bem. O futuro, na Europa e no mundo, são os carros autónomos, a conectividade e a mobilidade eléctrica, garante Carlos Ribas, sentado no seu gabinete, com um pequeno império a ser construído à sua volta: há um novo pavilhão a erguer-se sob um investimento de 38 milhões de euros (até 2020, o investimento totaliza 47 milhões de euros), o maior da companhia germânica em solo europeu. São 21 mil metros quadrados novos. Obras feitas e, em breve, 4.500 pessoas deverão estar a trabalhar na unidade de Braga, "o número máximo para a cidade". Mais de 600 serão investigadores (da Bosch e da Universidade do Minho), os responsáveis por fazer cumprir a profecia de Ribas: apresentar as primeiras inovações do novo centro em 2022.

Braga no limite

O que Carlos Ribas diz sobre Braga ter atingido o limite da capacidade e os próximos anos da Bosch serem de estabilização bate certo com o que se vê no complexo de Ferreiros. É difícil estacionar (estão a construir um parque para 2.000 lugares), a proximidade da empresa Aptiv anula hipóteses de expansão e a mão-de-obra já entrou na divisão da escassez. Preocupante? "Há mais Bosch em Portugal", afirma o administrador. "Em vez de ter 10.000 pessoas em Braga, se pudermos dividir esse número por duas ou três cidades, óptimo."
A unidade de Braga é a maior a nível nacional da Bosch e está a ser expandida, num investimento de 47 milhões de euros. Até a chanceler Angela Merkel já visitou as instalações da empresa alemã na cidade minhota.
A unidade de Braga é a maior a nível nacional da Bosch e está a ser expandida, num investimento de 47 milhões de euros. Até a chanceler Angela Merkel já visitou as instalações da empresa alemã na cidade minhota. Paulo Duarte
O plano é contribuir para que a marca seja a primeira a "meter carros 100% autónomos no mercado", entre 2025 e 2030, altura em que os veículos serão "forrados a 'displays touchscreen' e uma pessoa vai a trabalhar nos emails, outra vê um filme e outra tem um Skype-meeting", imagina Ribas. Quanto aos países onde já se vendem mais bicicletas do que automóveis, como a Dinamarca, parece não haver problema: "Os sistemas do maior produtor de e-bikes são da Bosch. Eu fiz o primeiro, quando estava em França", conta o engenheiro. E em Braga até já existe uma ciclovia praticamente à porta da maior fábrica do concelho.


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