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Fábrica têxtil da Europa tem falta de engenheiros

A indústria têxtil nacional conseguiu dar a volta à crise de uma forma extraordinária, mas ainda não se livrou da má fama. Resultado: continua com “fome” de engenheiros.

Rui Neves ruineves@negocios.pt 30 de Junho de 2016 às 00:01
Paulo Duarte
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Todas as semanas chegam pedidos de CV [curriculum vitae] de recém-mestres e licenciados em Engenharia Têxtil aos serviços da Universidade do Minho. A indústria precisa de sangue novo, e a oferta não chega para a procura. Num esforço de divulgação destes pedidos de emprego, a direcção do DET [Departamento de Engenharia Têxtil] decidiu publicar estas mensagens", lê-se na página de entrada da secção "Empregos" do seu site.

cotacao Temos um cenário completamente negro a médio e longo prazo. Não há novos engenheiros.  paula coelho lima Administrador da Lameirinho

São várias dezenas de mensagens de empresas à procura de engenheiros têxteis, mas que acabam por ficar sem resposta. "São seguramente cento e muitas ofertas. Todos os meus colegas de faculdade, que têm a minha idade e estão na indústria têxtil, telefonaram-me, desesperados, a dizer que querem engenheiros para começar a ‘passar a pasta’ mas não têm", confidenciou, ao Negócios, Joana Cunha, directora da licenciatura em Design e Marketing de Moda, curso que, tal como de Engenharia Têxtil, também funciona no campus de Guimarães da UMinho.

A falta de engenheiros têxteis é resultado da má fama granjeada pelo sector têxtil português ao longo de muitos anos. "Como houve, em tempos, um declínio desta indústria, os filhos olhavam para os pais e diziam: ‘Não quero seguir esta carreira!’", ilustra Domingos Bragança, presidente da Câmara Municipal de Guimarães, cidade que ganhou o epíteto de "fábrica têxtil da Europa" e que tem sete têxteis no top-10 das suas maiores exportadoras.

Ainda hoje, apesar de a indústria têxtil estar a passar por um período de grande pujança, conta-se pelos dedos de duas ou três mãos os jovens interessados em seguir Engenharia Têxtil. "Não é um problema de vagas, mas  de candidatos", sintetiza António Cunha, reitor da UMinho. "A inversão do ciclo que esta indústria fez demora a chegar à opinião pública",  sublinha. Daí que a universidade, "juntamente com os industriais do sector e as autoridades locais", esteja a trabalhar num plano de acções para atrair jovens para "este sector com futuro".

Ainda no final do ano passado, durante a quinta reunião do Conselho Consultivo para o Investimento e Emprego, promovida pelo presidente da autarquia vimaranense, dedicado à "importância dos cursos têxteis na economia nacional", os donos das têxteis Riopele, Somelos e Petratex queixaram-se de que não encontram engenheiros para contratar.

Cenário ‘negro’ à vista

"Temos 18 engenheiros e 36 licenciados noutras áreas, aos quais acrescem cinco outros em estágio profissional, três dos quais engenheiros, e estamos abertos a contratar mais engenheiros", revela Paulo Coelho Lima, administrador da têxtil Lameirinho, segunda maior exportadora de Guimarães.

O empresário assume que a Lameirinho, como muitas outras grandes têxteis, "tem um problema grave: há uns 15 anos, a média de idades dos nossos colaboradores rondava os 30 anos - hoje anda pelos 45, sendo que poucos são os engenheiros que estão abaixo dessa média. Não há engenheiros novos", lamenta.

Paulo Coelho Lima não usa tecidos quentes nesta problemática: "Temos um cenário completamente negro a médio e longo prazo. Dentro de uns 10 anos, o cenário pode ser muito, muito, muito, muito complicado", denuncia.

Porquê? "A quantidade enorme de engenheiros formados nos anos 80 já estarão, nessa altura, quase todos reformados. Acontece que nós precisamos de ter engenheiros para formar", explica o gestor da Lameirinho. Isto porque, conclui, "não é em dois anos que se forma um engenheiro para cargos de chefia, mas sim em 10 anos – cinco de curso mais cinco de alguma experiência profissional".

perguntas a antónio cunha "Não é um problema de vagas, mas de candidatos"

O pólo de Azurém (Guimarães) da Universidade do Minho (UMinho) vai formar uma média anual de apenas 15 engenheiros têxteis  nos próximos anos, o que significa, "no máximo, metade do que seria necessário", reconhece António Cunha, reitor da UMinho. 

A falta de engenheiros têxteis é um problema de insuficiência de vagas na universidade?
Não temos um problema de vagas, mas de candidatos. O que aconteceu foi que, durante muitos anos, lia-se nos jornais títulos de falências de indústrias têxteis e, portanto, todo o sector tinha uma imagem pouco atractiva. Ora, a inversão de ciclo que a indústria têxtil fez demora a chegar à opinião pública. O grande problema que aqui temos é que os engenheiros são precisos hoje, sendo que as pessoas que entrarem no curso em Setembro próximo só vão ser engenheiros daqui a cinco anos.

Quantos engenheiros da área têxtil irão sair este ano da UMinho?
Cerca de 20, mas trata-se de pessoas que já estavam na indústria, portanto, não se encaixam no perfil do estudante de 18, 19, 20 anos, que vem à procura de uma formação inicial, sendo que o que nós precisamos é de gente nova. Há cinco anos tínhamos zero candidatos. Este ano tivemos cerca de 15. Esta é a recuperação que queremos fazer.

Tem ideia do nível de procura de engenheiros têxteis por parte das empresas?
Os pedidos são intensos. No mínimo, temos uma relação de cerca de cinco [ofertas de emprego] para um [engenheiro em formação]. Se tivéssemos 50, 75 ou mesmo 100 engenheiros, provavelmente todos teriam lugar no mercado. Poderíamos formar 30 a 50 engenheiros por ano. Há procura para isso.

Do pólo de Azurém da UMinho deverão sair apenas uns 15 engenheiros têxteis por ano nos próximos anos, certo?
Sim, o que é nitidamente pouco. Estamos a falar de, no máximo, metade do que seria necessário.

O que é que a universidade tem feito para dar a volta a esta situação?
Estamos a ter contactos directos com os industriais do sector e com as autoridades locais, incluindo autarquias da região, no sentido de, todos juntos, transmitirmos uma imagem de robustez e atractividade do sector, levando os jovens a perceberem que este é um sector com futuro. Mas isto é um processo de médio prazo, no mínimo, porque é sobretudo nas escolas secundárias que este trabalho se faz.

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