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Symington semeia milhões no Douro e Gaia

Oito milhões é o investimento da Symington na nova adega na Quinta do Ataíde, no Douro, para estar operacional em 2021. Em Gaia, está na calha um segundo restaurante de luxo.

Teresa Silveira | Paulo Duarte - fotografia 27 de Novembro de 2019 às 17:00
Paulo Duarte
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Orgulha-se de estar há mais de 137 anos em Portugal (desde 1882) e espera "continuar por mais 100 anos". A Symington Family Estates, dona de marcas como a Graham’s, Dow’s, Cockburn’s e Warre’s (vinho do Porto) ou Altano e Quinta do Vesúvio (Douro DOC), é a maior proprietária de vinhas na Região Demarcada do Douro (26 quintas, 2.255 hectares, dos quais 1.070 plantados com vinha).

Em 2017, alargou horizontes a Sul, adquiriu 207 hectares da Quinta da Fonte Souto, na Serra de São Mamede, parte da sub-região de Portalegre (Alto Alentejo), onde fez este ano a terceira vindima. E Rupert Symington sabe bem a importância da "diversificação", pelo que não exclui a entrada noutras regiões vitivinícolas. "Faz sentido ponderarmos sempre outras regiões, mas só entraremos com projetos de muita qualidade. Tem de ser um projeto que mereça. Não queremos coisas de baixa/média gama", garante o CEO. Afinal, "o Douro é difícil de igualar".

É, pois, para já, na Região Demarcada do Douro (produção e vinificação) e em Gaia (engarrafamento, comercialização e enoturismo) que está o cérebro do negócio da família. E é onde são pensados os principais investimentos. Como o da construção da nova adega, por exemplo, na Quinta do Ataíde, anunciada em 2018 para estar pronta em 2020, mas que ainda não arrancou. A cifra do investimento "ainda não está fechada". E "muda todos os dias", porque "o custo de construção por metro quadrado subiu brutalmente nos últimos anos", mas não deverá ser inferior a "oito milhões".
A Symington exporta 90% da produção diretamente para 85 países (120 mercados, de forma indireta). Em Gaia concentra as caves, engarrafamento, serviços administrativos e enoturismo.
A Symington exporta 90% da produção diretamente para 85 países (120 mercados, de forma indireta). Em Gaia concentra as caves, engarrafamento, serviços administrativos e enoturismo. Paulo Duarte
"Estamos ainda a analisar as primeiras propostas dos empreiteiros. Estará pronta na vindima de 2021, se Deus quiser", revela Rupert Symington, sublinhando que "não temos pressas" e que "queremos fazer as coisas bem feitas". Adianta até que fizeram "algumas alterações ao projeto inicial", mormente para acomodar "algumas especificações", pois há um ponto de honra na hora de investir: "vai ser um projeto sustentável, com uma certificação internacional de sustentabilidade, para garantir que respeita o ambiente".

Segundo restaurante de luxo em Gaia

A megalomania não cabe aqui. "Não vai ser uma adega muito grande", diz o CEO, apontando para uma capacidade de "75 mil caixas de vinhos Douro DOC reserva, mais possivelmente umas 25 ou 30 mil caixas para vinhos de entrada, mais correntes". Isto, "numa fase inicial, porque haverá espaço para expandir". Será, contudo, "uma adega de vinificação para fazer vinhos de qualidade", com espaço para armazenamento de néctares "a granel e em casco".

Certo é que, nem só da produção, engarrafamento e comercialização de vinho vive a atividade da Symington, que sobre o negócio do vinho do Porto apenas diz ter "esperança de poder vir a vender muito mais em valor".

Na região duriense, e, sobretudo, nas suas caves em Gaia, o enoturismo ganha cada vez mais escala. Depois de uma primeira parceria com o grupo Sagardi, de origem basca, com quem exploram o restaurante Vinum, nas caves Graham’s, a família quer replicar a experiência.


1.070
Vinha plantada
A Symington é dona de 26 quintas no Douro, com 1.070 hectares de vinha.

90
Faturação
A empresa registou um volume de negócios de 90 milhões de euros em 2018.

330
Pessoas
Entre Gaia e o Douro, a Symington emprega 330 pessoas, entre elas cinco tanoeiros.


"Aqui em Gaia temos muitas propriedades, algumas ainda com vinho, mas temos vindo a investir e a transformar a autorização de alguns desses centros de armazenagem. Fizemos o centro de visitas da Graham’s, o centro de visitas da Cockburn’s, fizemos escritórios novos aqui na sede, portanto, andamos constantemente a investir em projetos novos. Depois, em projetos de enoturismo, o restaurante que fizemos com a Sagardi há uns anos vai faturar só este ano mais de três de milhões de euros". Para o CEO da Symington, é "um exemplo onde fazemos as coisas bem feitas". E com "retorno financeiro", que "até foi mais rápido do que nós esperávamos".

Tendo isto por base, "estamos a planear um segundo restaurante". Ainda não está programado nem deram conhecimento à Câmara, mas "será numa das nossas propriedades e terá os mesmos padrões de qualidade". Rupert Symington está confiante: "esta é uma fórmula de sucesso". E "é para manter".


Perguntas a Rupert Symington
CEO da Symington

Brexit gera quebra de 10% no preço de exportação

A indefinição a que o processo de saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit) tem estado sujeito desde que foi conhecido o resultado (52% a favor) do referendo de 23 de junho de 2016, incomoda Rupert Symington. Sobretudo pela desvalorização da libra que lhe está associada e porque esta "incerteza" gera retração no consumo. "O consumidor tendencialmente vai consumir menos", lamenta Rupert Symington.

Sendo o Reino Unido um dos vossos mercados mais importantes, e apesar de o Brexit andar de adiamento em adiamento - a UE a 27 decidiu aceitar a extensão do prazo até 31 de janeiro de 2020 -, que reflexo é que este processo tem nas exportações para lá?
O maior efeito foi a descida bastante forte da libra, com toda a incerteza que colocou, o que levou a uma quebra de cerca de 10% do preço médio de exportação. Esse foi o primeiro efeito. E, desde aí, oscilou. A quebra é sobretudo em valor. Em quantidade não se sentiu tanto. Há outros fatores que também influenciam muito em Inglaterra, que é a concorrência interna entre a distribuição moderna.

A quebra é sobretudo em valor. Em quantidade não se sentiu tanto. RUPERT SYMINGTON
CEO Symington 

Como assim?
A entrada da Aldi e do Lidl no mercado britânico [que tinham, em meados deste ano, uma quota de, respetivamente, 6,2% e 5,9% no Reino Unido, de acordo com a Kantar] provocou uma reação das outras cadeias, como a Sainsbury e a Tesco, para tentar enfrentar o desafio da Aldi e do Lidl. Eles adotaram estratégias diferentes, mas algumas cortaram garrafas, não só do vinho do Porto, como dos vinhos de Bordéus, de Bolonha e de outras origens. E, para darem menos espaço de prateleira, copiaram mais o modelo Aldi e Lidl, que têm menos referências. Mas isso não resultou nada bem. Perderam clientes, por não terem tanta oferta como antes para oferecer ao consumidor.

E quanto ao Brexit, propriamente?
O que incomoda mais é a incerteza. Nós, felizmente, ainda não sentimos, mas enquanto não há clareza sobre o que vai acontecer, o consumidor tendencialmente vai consumir menos. Sobre isto faço um comentário: a Inglaterra já tributa muito o vinho. Há um imposto enorme de importação. O vinho não circula de Portugal para Inglaterra sem taxas. Em Inglaterra há um imposto específico de consumo [sobre o álcool/bebidas alcoólicas] aplicado à entrada. Numa garrafa de vinho, os impostos são quase 2,5 libras. Numa garrafa que custa sete libras, 2,3 libras vão ao charco.
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