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Poupar em tempo de juros zero? É possível, mas é preciso correr riscos

Quando os depósitos a prazo deixam de render, os aforradores portugueses, tradicionalmente conservadores, têm dificuldades para encontrar alternativas de rentabilização das poupanças. Mas a tarefa não é impossível. Investidores e analistas recomendam que as famílias assumam um pouco mais de risco para obterem maior compensação.

Rafaela Burd Relvas rafaelarelvas@negocios.pt 01 de Novembro de 2019 às 15:00
Bloomberg
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O problema não é de hoje e está cada vez mais acentuado. Os depósitos a prazo continuam entre os instrumentos de poupança preferidos dos portugueses, mas há vários anos que rendem pouco mais do que nada. O arrefecimento da economia mundial apenas agrava este cenário, que, para já, não tem fim à vista. Em tempo de juros zero, há alternativas para potenciar a poupança? Há. Mas é preciso deixar de lado algum conservadorismo.

Os dados do Banco de Portugal ilustram bem a tendência. Desde que, em 2015, a taxa de juro média das novas operações de depósitos a prazo feitas por particulares caiu abaixo de 1%, nunca mais voltou a este patamar. Em agosto deste ano, já estava em 0,1%, o valor mais baixo de sempre, longe do máximo de 4,66% atingido em 2008.

Neste cenário, "os depósitos a prazo têm sido incapazes de preservar o capital", depois de considerados os custos, os impostos e a inflação, diz Octávio Viana, presidente da Associação de Investidores (ATM). E exemplifica: "Se investisse 10 mil euros num depósito a prazo em janeiro de 2003, no final de 2018 teria 13.798 euros. Com uma taxa anual de IRC de 28% sobre os juros dos depósitos, há lugar ao pagamento de 1.064 euros de imposto. O depositante tem 12.734 euros líquidos, o que, após correção monetária (com coeficiente de 1,27%) seria equivalente a 10.027 euros, a preços de 2003".

E não há perspetivas de melhorias. "A economia global encontra-se em arrefecimento económico" e, na Zona Euro, aumentam os receios em torno de uma recessão da Alemanha. "O BCE tomou, mais uma vez, uma política expansionista para estimular o crédito, para aumentar o consumo e o investimento", aponta Pedro Amorim, analista da Infinox. Os rendimentos com ativos de baixo ou nenhum risco são tão poucos que, neste momento, "só justificam o investimento por parte dos bancos por motivos de regulação e rácios contabilísticos".

Analistas e investidores concordam: é preciso assumir risco. "Os aforradores têm de escalar um pouco na escada de risco para poderem obter maior rentabilidade nas poupanças", considera Mário Carvalho Fernandes, diretor de investimentos do Carregosa.

"Devem ter uma mente menos conservadora e ser seletivos", defende, por seu lado, Pedro Amorim. "A história tem mostrado que os investidores que escolhem uma boa alocação dos recursos de mais longo prazo têm tido bons resultados", reforça Octávio Viana.

Os produtos estruturados poderão ser uma primeira opção para quem não é adepto do risco, desde logo porque alguns deles têm garantia de capital total ou parcial, ao mesmo tempo que oferecem rentabilidades mais atrativas, dependendo da evolução dos ativos a que estão associados.

Mário Carvalho Fernandes destaca os depósitos estruturados, que estão cobertos pelo Fundo de Garantia de Depósitos até aos 100 mil euros. A taxa de rentabilidade é variável e será maior ou menor "consoante a concretização do cenário estabelecido". Contudo, estes depósitos não permitem, habitualmente, a mobilização antecipada. Há também obrigações estruturadas, nas quais o capital investido é garantido pela entidade emitente. Também aqui, a taxa de rentabilidade é variável, mas, neste caso, a mobilização antecipada costuma ser permitida.

Se a opção for por produtos de maior risco, como as ações ou obrigações de empresas cotadas, há várias opções. Pedro Amorim propõe os ativos financeiros de empresas relacionadas com os setores do consumo e da energia. O primeiro porque resiste a crises, o segundo pelo momento atual. "Os momentos de final de ciclo costumam ser mais instáveis e provocam uma valorização dos bens energéticos".

Na mesma linha, o investimento em índices acionistas de retorno total (em que todos os ganhos são reinvestidos), através de fundos de investimento negociados em bolsa (os chamados ETF) ou de certificados, pode ser uma aposta, já que permitem "uma gestão passiva e de longo prazo", indica Octávio Viana. A título de exemplo, aponta para o S&P 500 Total Return. "O S&P 500 é constituído por ações representativas do capital de 500 empresas de diversos setores. Alguém que esteja a investir num ETF do S&P 500 está apenas exposto ao risco do mercado como um todo, que a história tem mostrado ser capaz de bater largamente a inflação", resume.
Para quem possa assumir maior risco, há opções como o imobiliário – mais seguro através de fundos – ou ativos de países emergentes.

No fim, importa diversificar. "Os investidores podem procurar soluções baseadas em carteiras diversificadas por uma ampla gama de ativos, de forma a constituírem uma carteira de investimento equilibrada", sublinha o responsável do Carregosa. 

TOME NOTA
As alternativas aos depósitos a prazo para rentabilizar
as poupanças

Do imobiliário aos produtos estruturados, passando por ações das empresas cotadas e por obrigações de países emergentes, há vários produtos alternativos e com vários graus de risco.

PRODUTOS ESTRUTURADOS
São aplicações financeiras com remuneração que, regra geral, é variável, dependente da evolução dos ativos a que estão associadas. São uma opção para minimizar o risco, já que alguns têm capital garantido, total ou parcial. Analistas sugerem depósitos ou obrigações.

IMOBILIÁRIO
O investimento direto num imóvel tem maior risco, por implicar que haja um elevado montante concentrado num único ativo, para além de elevados custos de manutenção e reduzida liquidez. Os fundos de investimento imobiliário são uma alternativa, já que permitem investir montantes mínimos mais reduzidos e oferecem uma maior diversificação.

SETOR DO CONSUMO
As ações ou obrigações de empresas do setor do consumo são uma boa aposta em tempos de crise. O historial prova que, nesses momentos, este setor consegue renovar o negócio e crescer.

SETOR DA ENERGIA
Estas são boas opções para fins de ciclos económicos, quando há uma valorização dos bens energéticos e as empresas deste setor costumam obter mais receitas.

PAÍSES EMERGENTES
As obrigações de países emergentes, com potencial de crescimento elevado, são uma opção para investidores com perfil de risco mais agressivo. Brasil, África do Sul ou Índia estão neste leque, apresentando margens de crescimento muito superiores às de países mais desenvolvidos.

ÍNDICES ACIONISTAS
Quem investe em ações assume maior risco, tendo em conta que não há garantia de juros ou de capital investido e que o desempenho dos mercados é volátil. Mas, a longo prazo, são investimentos que já provaram ser mais rentáveis do que ativos mais tradicionais.

O S&P 500, através de um ETF, ou o índice alemão DAX, através de certificados, são dois exemplos de apostas que têm apresentado rentabilidades atrativas.

CARTEIRAS DIVERSIFICADAS
Quanto maior a diversidade, menos provável é perder parte significativa do investimento. O ideal é construir uma carteira composta por uma classe de ativos ampla, para que seja equilibrada e alinhada com o perfil de risco do investidor, bem como com o objetivo do seu investimento. Também é essencial que o investidor se sinta confortável com o prazo definido no momento do investimento.

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