O privilégio de fazer uma fundação

Nascida em 2005 a Fundação Champalimaud tem sido sempre liderada por Leonor Beleza, que foi escolhida por António Champalimaud, e que se dedica à investigação científica na saúde por vontade do seu instituidor.
O privilégio de fazer uma fundação
José Manuel Bernardo, presidente da PwC, André Veríssimo, director do Jornal de Negócios, e António Lobo Xavier, membro do júri, entregam o prémio a Leonor Beleza.
TOZE Canaveira
Filipe S. Fernandes 20 de junho de 2018 às 11:15
Em 2000, António Champalimaud telefonou a Leonor Beleza dizendo-lhe: 'vou escrever o testamento e criar uma fundação, que tem a ver com a saúde, e queria saber se a senhora aceita ser presidente'. Aceitou logo. Quatro anos depois, a 8 de Maio de 2004, António Champalimaud morreu e, no testamento, deixou escrito que a fundação se destinava a apoiar a pesquisa científica na área da medicina.

Em 2005 nasceu a Fundação Champalimaud. Dois anos depois, foi concedido, pela primeira vez, o prémio anual no campo da prevenção da cegueira, o Prémio António Champalimaud de Visão no valor de milhão de euros.

António Champalimaud via muitíssimo mal quando morreu e, por isso, o prémio de visão tem o seu nome, ao contrário da Fundação, que tem os nomes dos pais. Leonor Beleza
Presidente da Fundaçao Champalimaud

Ainda em 2007, foi lançado o actual International Doctoral Programme in Neurosciences (INDP), e criado o Champalimaud Research com o Champalimaud Neuroscience Programme. Em 2014 estabeleceu o Cancer Research Programme. Hoje, abrange 17 laboratórios, com cerca de 250 cientistas.

Em 2010, o Centro Champalimaud foi oficialmente inaugurado. O Centro Clínico Champalimaud presta cuidados clínicos especializados de oncologia, e desenvolve programas avançados de investigação médica. Conta com cerca de 400 profissionais, dos quais 98 são médicos e 120 enfermeiros.

Os direitos das mulheres

Nasceu no Porto e é a mais velha de cinco irmãos. Licenciou-se em Direito, em 1972 na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Nessa época não poderia, por ser mulher, entrar na magistratura, por isso começou como assistente em Direito da Família.

Em 1975 esteve no gabinete do ministro dos Assuntos Sociais, Jorge Sá Borges, e, depois, na Comissão da Condição Feminina. Em 1977, participou na Comissão que fez a reforma do Código Civil , que modernizou o direito da família, e que era liderada por Isabel Magalhães Colaço, então a única mulher catedrática na Faculdade de Direito de Lisboa, e que Leonor Beleza considera a sua "grande mestra".

Entrou para a SEDES antes do 25 de Abril de 1974 e, depois aderiu ao PPD, actual PSD. Numa entrevista à Notícias Magazine. Sublinhou: "sou feminista, sou. Sempre disse que sou. Nem percebo a dificuldade que as mulheres na política têm em dizer que são feministas".

Ascensão e queda

Em 1982, quando Leonor Beleza foi convidada para a secretaria de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, pediu para ser nomeada secretária de Estado. Três anos depois, foi nomeada para a pasta da Saúde, por Cavaco Silva, e repetiu o pedido para ser ministra. Foi o primeiro membro do Governo em Portugal designado no feminino.

Depois de cinco anos como ministra, em 1990, Leonor Beleza foi substituída na pasta da Saúde por Arlindo de Carvalho. Na sua autobiografia política, Cavaco Silva, então primeiro-ministro, reconheceu a coragem de Leonor Beleza, "demonstrada na luta contra os grupos de interesses na área da saúde".

Regressou à Assembleia da República, de que foi vice-presidente por duas vezes, tendo sido deputada entre 1983 e 2005. Em 1990 fez o estágio de advocacia com o patrono, Luís Queiró, e foi consultora jurídica na Presidência do Conselho de Ministros e dirigiu o serviço jurídico da TVI. Foi ainda presidente do conselho fiscal do Banco Totta & Açores e membro do Conselho Geral e de Supervisão do BCP.

Leonor Beleza viveu a via crucis dos tribunais quando, em 1986, foi feita arguida pelo crime de negligência com dolo, no caso dos 137 hemofílicos contaminados com o vírus do VIH/sida em transfusões feitas em hospitais públicos. O processo foi definitivamente arquivado pelo Supremo em 2003.

Da política ficou a presença no Conselho de Estado desde 2008. "Foi e é um enorme privilégio ser presidente da Fundação Champalimaud", confessa Leonor Beleza, quase a fazer 70 anos em 23 de Novembro.






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