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Alteração da política monetária europeia pode ser um problema

Portugal teve menos inflação enquanto os países mais intervencionistas têm tido taxas de inflação mais altas. O problema pode surgir quando a política monetária reagir à inflação, defende Pedro Brinca.

Filipe S. Fernandes 21 de Fevereiro de 2022 às 16:30
Pedro Brinca, Professor assistente (tenure-track) da Nova SBE Duarte Roriz
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"As promessas dos bancos centrais são como o amor, é eterno enquanto dura. E isso aplica-se às promessas de não aumento das taxas de juro em 2022", afirmou Pedro Brinca, professor assistente (tenure-track) da Nova SBE. Na sua intervenção no painel "A opinião dos economistas", o docente recordou que em março de 2020 Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu disse , numa intervenção sobre o papel do BCE na pandemia, que esta não era uma crise comparável à de 2011 e que nesta crise o BCE não teria um papel tão assertivo.

Tal declaração, recordou, fez os juros de Portugal, Espanha, França e Itália dispararem. E, seis dias depois, Christine Lagarde fez uma conferência de imprensa para lançar um programa de ajudas, o Pandemic Emergency Purchase Programme. Este "era um programa cinco ou seis vezes maior do que o que estava planeado seis dias antes", concluiu Pedro Brinca. O economista acrescentou que o BCE terá uma posição sempre em função das circunstâncias e que "não deixa de ser sintomático, e até irónico, que sejam os próprios funcionários do BCE a fazer reivindicações salariais por causa da inflação, quando o trabalho deles é controlar a inflação".

Inflação veio para ficar?

"Se a inflação disparar por motivos que não sejam apenas inerentes a fatores da oferta, como a crise energética, não deixará de ser claro que, quanto mais tempo estes fatores temporários demorarem a desaparecer, mais as expectativas de crescimento de preços se irão incorporar nas expectativas dos agentes", salientou Pedro Brinca. Na sua intervenção, Mário Centeno referiu que as expectativas estão ancoradas ligeiramente acima dos 2%, mas , para Pedro Brinca, se deixarem de estar ancoradas nesse valor "vamos ter uma espiral de apreciação de salários e de custos do trabalho, que vai implicar uma correção das taxas de juro do BCE, com todas as suas consequências".

Alemanha e Portugal

Neste contexto, o professor da Nova SBE considera que, ao contrário de 2011, em que "as injeções de liquidez acabaram na capitalização dos bancos e não exerceram pressão sobre preços na economia real, desta vez o dinheiro foi para a economia real". A Alemanha, por exemplo, aproveitou a suspensão das regras que proibiam as ajudas diretas do Estado, na sequência do estado de emergência, para injetar muito dinheiro na economia.

Portugal optou por um modelo radicalmente diferente, mais contido nas ajudas e mais assente em moratórias, "que resolvem o problema da liquidez mas não resolvem o problema da solvabilidade". "Assim tivemos uma enorme destruição de valor no tecido empresarial que não teve um apoio direto", explicou Pedro Brinca.

As promessas dos bancos centrais são como o amor, é eterno enquanto dura. E isso aplica-se às promessas de não aumento das taxas de juro em 2022.

Não deixa de ser sintomático, e até irónico, que sejam os próprios funcionários do BCE a fazer reivindicações salariais por causa da inflação, quando o trabalho deles é controlar a inflação.
Pedro Brinca, Professor assistente (tenure-track) da Nova SBE
Em consequência, Portugal tem tido menos inflação enquanto os países intervencionistas registam taxas de inflação mais altas. "O problema pode surgir quando a política monetária europeia reagir à inflação. Como Portugal não entra nestas contas porque é muito pequenino, a política monetária contracionista pode surgir para resolver um problema para o qual Portugal não contribuiu, o que pode ser negativo para o nosso país", sublinha.

Pedro Brinca recorda que, segundo um estudo do "think tank" Bruegel, se 25% do total de crédito em moratória que existia em meados do ano passado entrasse em malparado, o total do volume de crédito em incumprimento equivaleria à capitalização total dos bancos do sistema financeiro português, incluindo provisões.
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