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Do "culto" da pele clara ao cuidado com a saúde

Proteger a pele do sol é uma preocupação que vem de há séculos, embora por motivos distintos dos actuais. Hoje em dia, preocupadas com a saúde, as pessoas usam cada vez mais protector solar, embora nem sempre da melhor forma.

Marlene Carriço marlenecarrico@negocios.pt 28 de Julho de 2014 às 15:49
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Nem todos os portugueses usam protectores solares. E dos que usam, há quem não o faça nas devidas condições.

 

 

Durante muitos anos ter uma pele de tonalidade clara era muito mais do que uma simples questão de beleza. Era uma espécie de carta de apresentação, que permitia perceber qual o estatuto social da pessoa. As classes mais baixas, que trabalhavam no campo, eram mais morenas, já as da nobreza tinham peles claras, o que lhes valeu a distinção de "sangue azul". E para manterem essa tez pálida resguardavam-se do sol e utilizavam produtos naturais para tentar bloquear a acção dos raios solares. Com o passar dos anos, dos séculos aliás, o estereótipo de beleza sofreu alterações e a pele bronzeada passou a tomar a vez da pele clara e a entrar na moda, mas dada a maior consciência dos perigos do sol para a saúde, a preocupação com os raios manteve-se.


E foi já nos anos 30 - quando extractos de farelo de arroz e de magnólia, mamona (rícino), e azeite faziam já parte da antiguidade - que começaram a surgir os primeiros protectores solares modernos. De acordo com os registos, um dos primeiros a conseguir criar um protector bem sucedido foi Eugène Schueller, fundador da L'Oréal, mas a verdade é que numa pesquisa sobre a história deste produto as referências que mais vezes se encontram apontam para que o criador do protector solar tenha sido o químico austríaco Franz Greiter, depois de, em 1938, ter apanhado um escaldão na escalada do pico Piz Buin (entre a Áustria e a Suíça) que viria a dar nome à marca de protectores. O produto foi só lançado em 1946, e teria o equivalente a um factor 2 de protecção contra os raios UVB (ultravioletas).


Mas, dois anos antes já nos Estados Unidos, o farmacêutico Benjamin Green tinha inventado um produto avermelhado, oriundo do petróleo, para proteger do sol os soldados da II Guerra Mundial, mais tarde considerado nocivo. Porém, nos anos 50, a marca Coppertone, já mais "aperfeiçoada", ganhou fama, com a criação da "Coppertone girl", um anúncio onde um cão da raça "cocker spaniel" está a puxar para baixo o biquini de uma menina loira, notando-se a marca do bronzeado. No "slogan" lia-se: "Não seja uma cara pálida!".

 

Foi nos anos 30 que começaram a surgir os primeiros protectores solares. Um dos primeiros a criar um protector eficaz foi Eugène Schuelle (da L'Óreal). Mas também são referidos o austríaco Franz Greiter (Piz Buin) e o norte-americano Benjamin Green.


A partir daí o protector solar foi-se tornando cada vez mais eficaz. Foi aliás novamente Franz Greiter que, em 1962, introduziu o conceito Factor de Protecção Solar (FPS) que pretende medir a efectividade do filtro solar, como a protecção contra raios UVB (que provocam escaldões). Mais tarde viriam ainda a ser criados protectores contra raios UVA (responsáveis pelo envelhecimento da pele e pelo aparecimento de cancro da pele), que os especialistas aconselham a ter em consideração.


Cerca de um terço não compra protector solar
Mas se é verdade que a preocupação dos portugueses tem crescido em matéria de cuidados com a pele, - com o mercado total de protectores solares a crescer, tendo em 2013 facturado mais de 50 milhões, segundo Rodrigo Pizarro, director-geral da L'Oréal Portugal (detentora da Garnier Ambre Solaire) -, também é um facto que há muita gente a não usar protector. Segundo Rodrigo Pizarro, "a penetração de [protectores] solares em Portugal é das mais baixas da Europa, com 67%, sendo que atrás de nós só está a Alemanha".


Somam-se ainda os que usam, "mas não sabem usar", atestou ao Negócios Américo Figueiredo, presidente da Sociedade Portuguesa de Dermatologia. "Quanto aos que usam, nem todos o fazem da melhor forma", diz este responsável, acrescentando que "ninguém aplica o necessário para ter o factor de protecção prometido. Aplicamos, genericamente, metade", referiu o médico, lembrando que o cancro da pele já está em 10º lugar entre os que mais matam. 

 

 

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Conselhos a seguir


Há quem só aplique protector solar quando já está na praia, mas os especialistas aconselham a fazê-lo 20 a 30 minutos antes. Além disso deve-se ir reaplicando o protector a cada duas horas e depois de ir a banhos, mesmo no caso em que os protectores dizem ser à prova de água. O ideal, quando comprar um protector, é verificar se tem também protecção contra UVA, os raios responsáveis pelo envelhecimento da pele e aparecimento de cancro. Creme, loção ou "spray" não faz diferença. Quanto ao factor ideal, o presidente da Sociedade Portuguesa de Dermatologia, Américo Figueiredo, aconselha o factor 30, que protege 96,3% dos raios UVB e lembra que para as crianças é melhor um protector "físico" (que reflecte a luz solar e fica uma camada branca) do que "químico" (que absorve).

 

 

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Curiosidades do produto


 

 

Antiguidade
Os cuidados com a pele sempre existiram. Há registos que já os egípcios, amantes da pele clara, procuravam proteger-se usando produtos à base de extractos de farelo de arroz, jasmim, tremoço, mamona, extracto de magnólia. Também os gregos antigos e os romanos utilizavam o azeite como protector solar.

 

 


 

 

Origem
Há quem diga que foi o austríaco Greiter que, em 1946, criou o protector, depois de ter apanhado um escaldão na montanha Piz Buin. Benjamin Green entra nesta corrida por ter criado, em 44, nos EUA, uma substância oriunda do petróleo, mais tarde considerada nociva. Schueller, da L'Oréal, é também referido como pioneiro.

 

 

 

 

 

Bacalhau
Há quem deite as espinhas fora quando come o bacalhau. E há quem as aproveite. Uma equipa de investigadores da Escola Superior de Biotecnologia da Católica Porto criou recentemente um protector solar com base em espinhas de bacalhau com um tratamento numa solução de ferro. A descoberta já foi patenteada.

 

 

 

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Consumo a subir


Em 2013, o mercado nacional de protectores solares ultrapassou os 50 milhões de euros. Segundo a Garnier, a facturação total chegou aos 59 milhões. Já outra empresa do sector fala em 53 milhões e num crescimento anual de 25% em valor. Os factores de protecção que mais vendem são o 30 e o 50 e as marcas de eleição variam consoante se esteja a falar de grandes superfícies ou de farmácias e parafarmácias. No primeiro caso lideram a Nivea Sun, a Garnier Ambre Solaire e a Solar Expertise (ambas da L'Oreal Paris). No segundo, a Avène, a Piz Buin e a Roche Posay, segundo dados da Deco, relativos a 2012, enviados ao Negócios pelo coordenador da área da Saúde, João Oliveira. Há mais de 100 empresas a comercializarem o produto em Portugal.

 

 

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