(124) Trussardi, Wesley, Diesel, Allianz, Vichy

Nas montras das lojas os manequins parecem pessoas. Num anúncio das lojas Trussardi as pessoas parecem manequins. O que chama a atenção do anúncio – um vulgar anúncio de roupa – é o olhar fixo (parecem olhos de vidro) e a atitude desumanizada dos dois mod

Para isso contribuem ainda os seus penteado, que se podem confundir com cabeleiras postiças, e o cenário, totalmente despido. Só vemos um canto de uma divisão e o chão liso, tudo em cores frias; o banco onde se sentam os dois modelos quase não se vê. Os modelos não comunicam entre si nem com o observador. Só a roupa comunica. Através destes processos simples, o anúncio torna-se enigmático e consegue reter o olhar do observador.

A marca Wesley preferiu mostrar em grande detalhe a zona do bolso e da gola dum fato, bem como pedaços da camisa e da gravata. Mostrar o detalhe pretende conotar qualidade, pois a distinção entre o bom e o mau faz-se precisamente pelos pormenores. Além disso, pelo enquadramento escolhido vê-se o tipo do tecido e os estilos do corte, da gravata e da camisa: mostrando pouco, o anúncio mostra afinal quase tudo o tipo de roupa, o tipo de público-alvo, seu grupo social, o preço da roupa.

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A marca Diesel criou um anúncio de duas páginas que mais parece uma instalação artística. Apenas um sofá, uma mesa com cinco enormes bonecas russas matrioshkas; em cima do sofá, deitado, dorme um apolíneo cowboy, de chapéu na cabeça, com as jeans desapertadas e as botas calçadas. They Died With Their Boots On: era o título dum famoso filme de 1941 sobre a batalha de Little Bighorn. Mas aqui o rapaz não morreu, está apenas cansado. O que ele fez calçado foi diferente, como sugere o anúncio. As matrioshkas não são de madeira e não se guardam umas dentro das outras. São todas bonecas insufláveis e exibem a conhecida boca aberta das bonecas insufláveis que se vendem em lojas especializadas. Talvez o público-alvo seja o mesmo da Wesley – quem sabe? – mas aqui trata-se das suas horas vagas e dos fins-de-semana.

As transformações do corpo são tema de estórias e mitos há milhares de anos. E, portanto, também são tema da publicidade. O anúncio do serviço MedicAll da seguradora Allianz mostra um homem em duas fases da vida: pela metade direita da cara é um jovem, pela metade esquerda é cinquentão. O fundo da imagem mostra dois papéis de parede a condizer com as duas idades representadas, um mais pop, outro com conservadores motivos florais. Tudo é azul, como a cor do logo da seguradora: é a cor associada à razão. Fazer um seguro não é coisa de impulso emocional. O azul faz pensar. O anúncio também. Compensando a racionalidade proposta, o modelo sorri.

No anúncio do «tratamento pro-fibrante anti-rugas e firmeza» Liftactiv Pro dos laboratórios Vichy a transformação do rosto faz-se por uma sugestão já antes usada várias vezes na publicidade: uma foto do modelo com «rugas profundas» que olha o observador, chamando-o para o interior do anúncio, aparece violentamente rasgada e por baixo surge, iluminada e olhando o céu, a mesma cara sem rugas. Como se aplicar um creme anti-rugas fosse como comprar uma cara nova, jovem e sonhadora. Por baixo da velha cara rasgada está a leitora que sonha parecer mais nova.

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