[187] OK Teleseguro, Omega

A campanha do seguro automóvel para mulheres da OK Teleseguro substitui a atendedora telefónica “Marta” pelo atendedor “Rui” e, a seguir, faz um portfolio de modelos masculinos vestidos ou semivestidos de mecânicos de oficina e salvadores na estrada. Eles

Enquanto eles mostram os corpinhos, uma voz off feminina diz que o novo seguro OK Mulher “é como este anúncio: foi feito para agradar às mulheres”. O reclame televisivo é completado pelos “outdoors” com a foto de um dos mecânicos, de fato macaco aberto e olhar directo para a câmara.

Esta campanha fez-me lembrar o debate que houve há poucos anos em França em torno de uma nova vaga imigração de Leste. A figura central do debate foi francamente conservadora, nacionalista e sexista: era a de um canalizador polaco, metáfora para o imigrante que não só vem roubar o lugar dos honestos trabalhadores franceses como também vai entrar nas “nossas” casas (”nossas” dos homens) e fazer sexo com as “nossas” mulheres enquanto “nós” estamos nos nossos outros empregos, ou no centro de emprego.

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Lugar-comum do imaginário popular e pornográfico, esta metáfora da imaginação, que logo o Turismo da Polónia se encarregou de tornar bem visual e concreta na fotografia de um autêntico modelo polaco de fato macaco à canalizador, reunia todo o “mal” que pode representar a “conquista” do “nosso país”, dos “nossos empregos” e das “nossas mulheres” pela imigração estrangeira. A metáfora permitiu pôr à luz do dia, pela sugestão de “violação” simbólica da mulher francesa na sua cozinha por um canalizador polaco, os verdadeiros temores que sempre ocorrem perante uma vaga de imigração estrangeira. Este debate coincidia com uma outra realidade do nosso tempo: a fragilização do homem num mundo em que a mulher ganha crescente autonomia.

A campanha da OK Teleseguro ocorre pouco depois de aparecer o remake de Casino Royal, filme da série James Bond, com Daniel Craig. Em 1962, Ursula Andress saía do mar de bikini branco e de arma na mão, como nunca nenhuma sereia sensual saíra antes ou sairia depois. Em 2006, em vez de uma Bond girl, é o próprio Bond, James Bond, que sai da água em fato de banho justinho para satisfação de metade do mundo. Noutras épocas, a pintura e depois os media de massas eram feitos para o seu público preferencial, os homens; e eram eles que tinham o poder. Os tempos mudaram.

Mas a publicidade não é revolucionária. Não faz as leis sociais, segue-as, ou quanto muito acelera-as. É preciso que se mantenha nos carris da sociedade, que apenas vá depressa, sem descarrilar. No filme, Craig exibe o físico para o público feminino, mas no anúncio dos relógios Omega aparece de smoking e de pistola (ou arma, ou instrumento, ou sexo metaforizado) na mão. E no anúncio televisivo da OK Teleseguro para “agradar às mulheres” as antigas leis sociais também não são totalmente abaladas: no final, aparece a “Marta” de todas as campanhas anteriores para repor a ordem no mundo e como que a dizer aos homens que esta companhia de seguros também continua a ser para eles – e não deixarão de beneficiar de imagens da ingénua “Marta” Andress.

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