Afinal, a troika também se engana!...
Se queremos endireitar o que está torto há mais de 20 anos, temos que continuar o caminho que leve à situação de consumirmos menos do que produzimos e vendemos, ou simplesmente, pagarmos menos do que recebemos.
Os excessivos défices públicos e os erros de política económica foram cíclicos. Emendar agora essa situação é um processo muito mais doloroso. O País chegou a um ponto em que os défices público e externo face ao PIB chegaram quase aos 10% do PIB (2010), situação insustentável para qualquer economia. Em apenas meia dúzia de anos (2005/2011), a dívida pública face ao PIB passou de 50% para mais de 110%, o que em valor absoluto significa um aumento de quase 100 mil milhões de euros.
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Com um plano megalómano de investimentos em Obras Públicas (vias de comunicação em especial), o resultado é que hoje o País, sem ter necessidade, é referenciado como um dos melhores do mundo em estradas e auto-estradas. O problema é a herança da dívida desses investimentos que em alguns casos não são rendíveis, pois o tráfego diário de automóveis fica bastante abaixo do valor mínimo de equilíbrio.
Estruturalmente, o modelo económico tem de continuar a ser corrigido. Os progressos ao nível da balança comercial (subida das exportações e forte queda das importações) e das contas externas são cruciais para que o modelo seja finalmente equilibrado e funcione.
Temos de descer à realidade do que podemos gastar: Estado, empresas e famílias. Em menos de dez anos, passamos de um endividamento de menos de 200% do PIB para 350% do PIB. Ou seja, precisamos de 3,5 anos a gerar riqueza para pagar a dívida total, mas sem gerar mais despesas, o que é uma tarefa árdua.
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Com o PIB a crescer abaixo de 2% nos anos antes da crise financeira, mas com o endividamento a aumentar rapidamente, a situação negativa potenciou-se, apesar dos avisos de vários economistas ao longo dos anos. Agora, tem de ser corrigida: não há outra via. Porém, uma "overdose" quase sempre mata!
A descida da TSU para as empresas dificilmente irá criar emprego. A criação de emprego depende de outros factores. Para se criar emprego é necessário investir, mas as empresas só devem investir se tiverem necessidade de aumentar a produção e essa necessidade só é gerada se o consumo interno ou as encomendas do exterior o determinarem.
Uma empresa que está no limite de utilização da sua capacidade de produção vai investir agora? Provavelmente não: os spreads de crédito estão elevados, o crédito é escasso e as garantias de escoamento de produto não são boas, dada a contracção económica em Portugal e a desaceleração económica mundial.
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E uma empresa que tenha excesso de capacidade instalada, das duas uma, ou procura novos mercados ou terá que desalavancar, o que pressionará o mercado de trabalho.
Gostava de ver o estudo da Troika que refere os ganhos de empregabilidade com a descida de 7% na TSU paga pelas empresas! É que a Troika também se engana: para Portugal, o que estimava no final do ano passado para 2012 e 2013 quanto à evolução do PIB e do emprego, falhou redondamente. Em Novembro de 2011, a Troika reiterou a estimativa de queda do PIB constante no OE/12 de 2,8% e de uma taxa de desemprego abaixo dos 15%. Provavelmente o PIB vai cair 3,5% ou mais e o desemprego ficará perto dos 16%. A Troika também estimava que a economia deveria crescer em 2013, mas agora refere que vai continuar a contrair.
O problema é que no final de 2011, as estimativas apontavam para um crescimento mundial de 3,2%, mas ao longo do tempo, foram revistas sucessivamente em baixa até aos 1,7% a 2% actuais. O batalhão de economistas do FMI, CE e BCE não conseguiu quantificar devidamente os efeitos de uma desaceleração económica mundial numa economia pequena e aberta como a portuguesa, talvez porque não chega vir cá de 3 em 3 meses para conhecer a fundo as bases e os pontos fracos do modelo económico.
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Será que agora nesta questão da TSU não está novamente enganada? O aumento da TSU para os trabalhadores terá como consequência a diminuição imediata do rendimento disponível, logo, implicações negativas no consumo, na produção, no investimento e na criação de emprego. É o efeito da "pescadinha de rabo na boca"!
Economista Autor do livro Gestão de Activos Financeiros – Back to Basis
Autor do livro Gestão de Activos Financeiros – Back to Basis
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