Com amigos assim...
O retrato da Europa hoje é o de uma casa a arder ou de um barco em plena e violenta tempestade, enquanto os seus grandes senhores estão mais concentrados na decoração ou em limpar o convés do que em enfrentar o incêndio ou a intempérie.
Os testes de stress à banca são mais um exemplo de esquizofrenia e descrédito. A Europa não está a ajudar a Grécia, Irlanda e Portugal. A Europa está a afundar a Grécia, Irlanda e Portugal.
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Os bancos portugueses tiveram de se sujeitar a um teste de resistência que é muitíssimo mais exigente do que o aplicado, por exemplo, aos bancos alemães. E, mesmo assim, um banco alemão chumbou, tendo-se dado ao luxo de não autorizar a divulgação dos seus resultados. Imagine-se o que não teria acontecido se alguma instituição financeira grega, irlandesa, portuguesa, italiana ou espanhola tivesse também recusado a publicação dos seus números.
A banca portuguesa está obrigada a ter capitais que aguentem um choque equivalente a uma quebra da produção superior a 5,5% entre 2010 e 2012, quando todas as previsões apontam para cerca de 4% e o cenário médio para a União Europeia é de uma recessão marginal de 0,4% em 2011 e de uma estagnação em 2012. Além disso, não foi permitido à banca portuguesa que aplicasse aquilo que é a reacção histórica do sector a uma subida das taxas de juro: o aumento das margens porque as taxas dos empréstimos aumentam mais rapidamente que as dos depósitos. Tal como não se levou em consideração as históricas baixas taxas de incumprimento do crédito à habitação nem o facto de o imobiliário em Portugal ter valorizado muito menos que em Espanha. Soma-se a tudo isto o facto de a EBA ter estado a alterar as variáveis relevantes, para medir a resistência da banca, uma semana antes da sua divulgação.
Ainda bem que a EBA foi tão exigente, dir-se-á. Sem dúvida. Os testes foram este ano aceites como mais credíveis e forçaram os bancos a reforçar os rácios de capital: teriam chumbado 20 instituições das 90 avaliadas, e não nove (incluindo aqui o banco alemão que não divulgou os seus números), se entretanto, durante este ano, não tivessem adoptadas medidas.
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O problema não está no grau de exigência da EBA mas no que o processo revela. Os testes de stress ficaram prisioneiros das convicções e não das informações. E muitas mudanças de última hora, feitas pela EBA, poderão ter tido como principal objectivo chumbar alguns bancos, para satisfação das convicções instaladas, em vez de avaliar, com todo o rigor científico, a resistência da banca a recessões e tempestades financeiras de baixa probabilidade.
Actuar por causa das convicções e não pelo que a informação e a realidade exige é a armadilha em que se deixou apanhar a União Europeia para desgraça dos países mais vulneráveis como Portugal. Porque os investidores financeiros acham que a banca portuguesa é frágil, os bancos portugueses são obrigados a ter uma almofada maior de capital, não utilizável na concessão de crédito, do que os seus pares europeus na Alemanha, na Holanda ou na Áustria. Os bancos portugueses já pagam juros mais altos para se financiarem e agora, com os testes de stress, têm também de estar também bastante mais capitalizados do que boa parte da sua concorrência europeia.
Actuar por causa das convicções e não pelo que a informação e a realidade exige é a armadilha em que se deixou apanhar a União Europeia para desgraça dos países mais vulneráveis como Portugal.
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Toda esta exigência faria sentido se os resultados dos testes de stress produzissem consequências favoráveis. Mas eis que exactamente no mesmo dia em que os bancos portugueses recebem o carimbo de aprovado da EBA, a agência de 'rating' Moody's diz que boa parte desses bancos estão mais arriscados. Nem de propósito, a Moody´s expôs a irrelevância da Europa e dos seus testes. De boa vontade se trocaria a nota europeia por uma melhor nota da Moody's.
Para que servem então os testes de stress se não conquistam a confiança dos investidores financeiros e das agências de 'rating' que falam para eles? No caso português servem para tornar a expansão de crédito ainda mais difícil e para tornar o combate à crise em que o país vive ainda mais complicada.
Os testes de stress somam-se às alterações das regras de contabilização das contas públicas ou às declarações autenticamente assassinas de alguns líderes europeus sobre os países em dificuldades, como a Grécia, Irlanda e Portugal. Com amigos assim, antes os ditos inimigos da teoria da conspiração. Afinal, Obama já diz que não é Portugal.
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