Direitos de saque muito especiais

Num ambiente que vai oscilando entre a euforia e o cepticismo com as resoluções da cimeira do G20, uma decisão de relevo cabe ao reforço dos fundos de instituições financeiras supranacionais, como o FMI ou o Banco...

Num ambiente que vai oscilando entre a euforia e o cepticismo com as resoluções da cimeira do G20, uma decisão de relevo cabe ao reforço dos fundos de instituições financeiras supranacionais, como o FMI ou o Banco Mundial. Esta decisão eleva para um plano supranacional a suavização das políticas monetárias locais.

Os bancos centrais têm recorrido a mecanismos alternativos para cederem liquidez à economia por forma a revigorar o ciclo do crédito. Adicionalmente, dado o aumento significativo do grau de integração financeira ao longo dos últimos anos, a política monetária tem vindo também a globalizar-se, passando a envolver recorrentemente acordos entre bancos centrais, nomeadamente por via de linhas de crédito, que satisfaçam necessidades locais de fundos denominados em moedas diferentes.

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A decisão agora tomada no seio do Grupo dos 20 representa mais uma forma dos bancos centrais cederem liquidez à economia mundial, desta feita por intermédio de instituições supranacionais. O FMI obtém financiamento directo e obtém fundos via linhas de crédito com bancos centrais de outros países, podendo também financiar-se junto do sector privado. Consubstancia-se numa internacionalização da política monetária. Para se ter uma ideia dos montantes envolvidos, os volumes agora anunciados correspondem a cerca do triplo do volume de fundos actualmente ao dispor do FMI.

O acordo prevê um aumento dos empréstimos de alguns países, linhas de crédito dos bancos centrais e reforço dos Direitos de Saque Especiais (DSE). Estes DSE correspondem a um cabaz de moedas, constituído por dólares (45%), euros (35%), libras e ienes (cerca de 10% cada), e, praticamente, apenas se utiliza como unidade de medida. Os DSE são atribuídos a cada país em função das respectivas quotas no FMI. Prevê-se maior liberdade na utilização destes fundos no futuro para além da quota normal disponível para cada membro.

O risco, como o próprio FMI reconhece, é o de pressões inflacionistas futuras, uma situação que a avaliar pelos níveis actuais de inflação e pressões descendentes sobre os preços não deverá ser de preocupação a curto prazo. Este reforço não é matéria pacífica e no passado (1997) uma iniciativa similar mas de dimensão bem menor ainda não viu a luz do dia.

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Relacionado com este tema resultou uma das omissões mais faladas da cimeira: a questão do estatuto do dólar enquanto principal moeda de reserva internacional. Antes da Cimeira, diversos países, com destaque para a China, deram a entender a intenção de se encontrar uma alternativa, como por exemplo os DSE, mas não houve propostas concretas. Qualquer decisão nesta matéria terá de ser tratada com redobrada cautela, por interesse das partes e melindre da situação económica actual.

Da parte da China, as enormes reservas de activos estrangeiros, acumulados ao longo dos últimos anos e maioritariamente denominados em dólares, representam um elemento dissuasor importante. Uma situação partilhada por outros países, uma vez que, de acordo com as estatísticas do FMI, 65% das reservas internacionais estão em dólares, 26% em euros e menos de 5% em ienes e libras - uma demonstração clara das preferências dos gestores de reservas em relação ao tipo de activos detidos (por exemplo, a moeda chinesa ainda não é livremente convertível, ficando em desvantagem comparativa face às demais).

A pretensão para uma redução do estatuto do dólar como instrumento privilegiado de reserva certamente acarretaria uma menor procura por esta moeda, com consequências no seu valor, no valor das reservas oficiais e no valor de moedas terceiras, como o euro. Num estudo recente, patrocinado pela Comissão Europeia, sobre o impacto de uma diversificação das reservas internacionais a favor do euro conclui-se que uma alteração no estatuto do dólar teria implicações nos câmbios, nas taxas de juro e no crescimento, tanto maiores quanto menor o processo de transição.

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Ou seja, no actual momento, sinalizar-se um menor interesse dos grandes investidores institucionais em deter activos norte-americanos seria deitar por terra os esforços para a retoma económica. Minaria a capacidade de financiamento dos EUA e, por conseguinte, contribuiria para o aniquilamento de uma fonte importante de procura dos bens e serviços produzidos no Sudeste Asiático.

A revisão da composição do cabaz dos DSE faz-se por períodos de 5 anos. A próxima deverá ocorrer no final de 2010. Por essa altura, um dos sucessos desta Cimeira do G20 poderá ser a maior diversificação das moedas deste cabaz. Traduzirá a consolidação da relevância das novas áreas económicas e o interesse dos investidores institucionais em deter activos denominados em moedas diferentes. Será mais uma concretização, desejavelmente progressiva, de uma nova ordem económica e financeira mundial.

Chief Economist do Millennium investment banking

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