Vítor Bento 28 de Julho de 2008 às 14:00

Falar verdade (1)

É frequente ser apodado de pessimista, sobretudo quando querem desvalorizar o que digo. Não creio que o qualificativo se ajuste. Prefiro a analogia com a visão do copo meio vazio. Quem tende a ver o copo meio vazio, como é o meu caso, gostaria de o ver sempre cheio e por isso se preocupa com o seu esvaziamento.

"I’m sentimental, if you know what I mean, / I love the country, but I can’t stand the scene."

Democracy, Leonard Cohen

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Democracy, Leonard Cohen

É frequente ser apodado de pessimista, sobretudo quando querem desvalorizar o que digo. Não creio que o qualificativo se ajuste. Prefiro a analogia com a visão do copo meio vazio. Quem tende a ver o copo meio vazio, como é o meu caso, gostaria de o ver sempre cheio e por isso se preocupa com o seu esvaziamento. Quem tende a ver o copo meio cheio torna-se complacente com o seu esvaziamento.

Se quisermos, a primeira visão revela um sindroma de escassez, ou de formiga, e a segunda um sindroma de abundância, ou de cigarra. Acredito que o primeiro é mais propício a encher a dispensa. Assim como acredito – e a experiência mo tem mostrado – que, por muito promissor que seja o Verão, virá sempre o Inverno, para o qual é conveniente estar preparado.

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Por isso, ao olhar para trás e para tudo o que passou, não vejo marcas de pessimismo no que

Vítor Bento analisa crise económica portuguesa

A crise económica portuguesa não se resume à revisão em baixa das projecções do PIB. Há uma década que o País vem acumulando desequilíbrios que se tornam agora mais evidentes, sem que a solução o seja. Vítor Bento escreveu em exclusivo para os leitores do Jornal de Negócios uma análise aprofundada sobre esta crise, que considera estar para além da conjuntura, e que será publicada diariamente ao longo desta semana. Numa série de cinco artigos, o economista traça uma visão completa sobre as causas e as consequências do estado da nossa economia - e que soluções podem ser-lhe aplicadas.

escrevi ou disse. Mas vejo que o irresponsável optimismo de muitos e a complacente postura com o "copo meio cheio" se tem mostrado desajustada da realidade e tem ajudado ao nosso empobrecimento relativo.

Escrevi o primeiro artigo sobre a perigosa deterioração da situação económica, em Maio de 1998. De então para cá, a situação geral do País, em termos económicos, só piorou. O crescimento tem sido medíocre, temo-nos afastado significativamente da média europeia, sendo ultrapassados por novos entrantes na UE, e acumulámos défices externos que, mais cedo ou mais tarde, nos vão fazer perder o controlo das principais empresas e, consequentemente, o controlo estratégico da nossa economia, remetendo-nos à situação de mero "apêndice" político-económico.

Sobre o défice externo, em particular, escrevi o primeiro artigo de alerta em Abril de 2001, comparando o provável percurso do País com o que aconteceu ao Alentejo (de onde sou) que, "ocupando quase 30% da área e abrangendo 15% dos concelhos do País ... ficou com 5% da população portuguesa, tem 4.5% do rendimento das famílias, a maior taxa de desemprego, um dos menores poderes de compra ..., elege [apenas] 4% dos deputados da Nação" e tem vindo a transferir a propriedade para "não residentes". Desde então, o desequilíbrio externo só piorou e é, na sua extensão e duração, o maior desde que há registos sistemáticos e um dos maiores do mundo comparável. E o pagamento de juros ao exterior já nos deve levar a dar mais atenção ao PNB, que já está 6% abaixo do PIB. Com a actual deterioração dos termos de troca vai piorar, e piorará mais se for avante o ambicioso programa de obras públicas.

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Não está em risco a nossa existência como nação, com identidade própria e independência formal. Mas estão em risco o nosso bem-estar e a nossa relevância económica e política no Mundo. Sei que para muitos esta é uma preocupação ultrapassada e pouco consentânea com o mundo pós-moderno, onde se diz que os estados nacionais são coisa do passado.

Será verdade (embora não veja que os estados com poder partilhem dessa tese), mas os estados nacionais continuam a ser um instrumento fundamental para a defesa e promoção das comunidades que representam e para assegurar a solidariedade e coesão sociais. Quanto mais fracos e impotentes forem, menos conseguirão evitar os estilhaços sociais e políticos de um darwinismo individualista que se lhes substitua, por mais socializante que seja o discurso político.

O declínio em que nos encontramos já tem tempo suficiente para não deixar nenhuma força política isenta de responsabilidades, por acção ou omissão. Não vale, pois, a pena gastar tempo e energia a atirar pedras uns aos outros, porque toda a gente tem telhados de vidro. Importa concentrar a atenção nos problemas e coordenar esforços para a sua solução. O que implica começar por falar verdade ao País. E a verdade é que o copo continua a esvaziar-se, pois vivemos há demasiado tempo acima das nossas possibilidades e essa situação não é sustentável. Que não há "pensos rápidos", que levará anos a restabelecer os equilíbrios perdidos e que temos de mudar de vida.

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