Finanças internacionais
Há qualquer coisa de especial nas finanças internacionais. Parece que podem ser analisadas como tudo o resto em economia. Mas, depois, não podem. É por isso que tantos economistas se viram para a história para perceber melhor o que se passa.
Sabe-se pouco sobre crescimento económico mas há uma coisa que se sabe ao certo. Ele precisa de investimento e, logo, de poupança. Como os que poupam não são geralmente os que investem, e como os dois actos não são normalmente contemporâneos, são precisas instituições financeiras.
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As finanças de uma economia fechada são bastante simples: cada país só investe o que tem e a mais não é obrigado. Mas há mundo para além das fronteiras. Na história, a prosperidade desse mundo está inversamente relacionada com a importância das fronteiras. Muitos sabem isso, porque desde cedo se aprende a teoria de Ricardo que nos diz que devemos fazer o melhor que sabemos e comprar aos outros o melhor que eles sabem fazer, e que devemos fazer isso a nível internacional.
Quando os governos abrem fronteiras para seguir Ricardo, não as abrem apenas ao comércio de mercadorias ou de serviços. A ideia não é só trocar laranjas por vinho ou transportes por tecidos. Há mais coisas a acontecer. A primeira que aparece logo é a migração de pessoas, e alguém (Stolper e Samuleson) até já mostrou que as duas coisas estão relacionadas. Mas há mais.
Se as fronteiras estão abertas, se os produtores podem exportar e os consumidores (ou produtores) podem importar, se as pessoas podem ir para os sítios onde as suas qualificações são valorizadas, então e os dinheiros e as poupanças, não o podem fazer também?
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Houve um tempo em que quase todos os governos mundiais deixaram que as finanças seguissem o resto das trocas. Grande parte desse tempo viveu-se sob a égide de um padrão monetário único, quer da parte daqueles que oficialmente a ele aderiam, fixando em ouro o valor das respectivas moedas, quer da parte daqueles que a isso ambicionavam. As instituições e os indivíduos eram livres de escolher onde ir buscar poupanças e onde ir aplicá-las. Foi uma óptima experiência que só acabou por causa das guerras do século XX.
Mas as coisas nem sempre correram bem, sobretudo na periferia, em países como a Argentina ou Portugal, onde houve excessos. Não foram esses excessos que acabaram com o sistema, todavia.
Agora vivemos uma experiência semelhante, em que as poupanças chinesas compram títulos de tesouro norte-americanos. E as coisas não correram bem outra vez.
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Quando as coisas correm bem, a teoria económica é boa conselheira, para além de ajudar a compreender o que se passa. Mas, quando as coisas correm mal, a teoria económica já não é tão útil, e tem de deixar o lugar à história económica, ao estudo das experiências passadas, como principal instrumento de análise.
Segundo a teoria económica, quando um credor se comporta mal e não paga o que deve, ele deve ser penalizado. Chama-se a isso combater o "moral hazard", isto é, o perigo de a falta de penalização levar aos mesmos comportamentos. Ora isso serve para os indivíduos e para as empresas (e mesmo aí não para todos), mas não serve para os países.
Por três razões, que a história, precisamente, nos ensina. A primeira é que os países podem proteger--se da imposição de pagamentos nos mercados internacionais que considerem excessivos, simplesmente não pagando as dívidas. Isso parece grave, pois pareceria que cortaria os países do sistema financeiro internacional, mas a verdade é que se contam pelos dedos os casos na História em que isso aconteceu. Há sempre alguém a querer emprestar aos governos, porque esse negócio é bom.
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A segunda é que quando os países são mesmo forçados a pagar, quer por pressão internacional, quer por pressão interna, pode acontecer que as suas economias entrem em colapso. Num mercado internacional aberto, quando uma economia cai, as outras sentem, e por isso a opção de fazer os países pagarem pode não ser - e normalmente não é - a melhor.
A terceira, relacionada com a segunda, é que a queda financeira de um país pode ter efeito dominó e abalar severamente o sistema financeiro internacional.
Se há abertura económica, se há comércio internacional, se há migrações, então o melhor é que haja também movimentos de capitais. Os ganhos são grandes para todos.
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Mas quando as finanças entram na equação, o sistema torna-se mais instável. A opção é clara, ou essa instabilidade é atacada por todos, ou então o sistema mais tarde ou mais cedo entra em reversão. Isto é um facto histórico importante que ainda não entrou de forma satisfatória nos modelos económicos de análise destas coisas.
E se calhar nem tem de entrar, pois temos a história económica (e financeira) para o lembrar.
Economista, Instituto de Ciências Sociais Assina esta coluna mensalmente à quarta-feira
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