Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 18 de Setembro de 2007 às 14:13

Lucros gordos, vacas magras

É fatal: a crise do "subprime" está a chegar aos balcões bancários. O dinheiro encarece por todos os lados: sobe a euribor e subirão os "spreads". Campanhas 0%? Esqueça. Os próximos empréstimos serão piores. Os lucros bancários também.

É fatal: a crise do "subprime" está a chegar aos balcões bancários. O dinheiro encarece por todos os lados: sobe a euribor e subirão os "spreads". Campanhas 0%? Esqueça. Os próximos empréstimos serão piores. Os lucros bancários também.

O que começou por parecer desvario de um segmento do mercado financeiro era afinal a ponta de um icebergue, cuja parte submersa é ainda desconhecida. Empenhados em impedir quer o alarmismo quer o autismo, governantes e governadores receiam todavia enfiar o escafandro e descobrir coisa pior.

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Bancos, agências de "rating", bancos centrais, analistas, economistas, académicos - todos previram nos últimos anos várias crises, mas nunca esta. Alertou-se para o excesso de endividamento dos particulares, para a subida das cotações em Bolsa, para a bolha no imobiliário; mas nenhuma instituição anteviu uma crise na qualidade do crédito concedido.

Porquê? Porque a imaginação dos financeiros foi deixada à solta, sem regulamentação, escondendo riscos e deixando as economias mundiais prosperar na falácia do excesso de liquidez, crédito fácil e barato. Era mentira. E acabou-se. Agora, o impacto manifesta-se precisamente nas comunidades sobreendividadas (como as nossas empresas, o nosso Estado, as nossas famílias), nas acções das empresas cotadas e nos mercados imobiliários.

Sucede que o mercado imobiliário foi um "pacemaker" das grandes economias, como a americana, a inglesa ou a espanhola. E mesmo da portuguesa: a nossa banca engordou lucros à custa da mesma adição: durante anos, a actividade doméstica carburou à conta de crédito à construção e à habitação.

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Mas outras facturas está a banca a pagar pela proliferação dos produtos derivados, sociedades-veículo e outras engenharias construídas para exportar risco dos balanços e da vista dos investidores. Os empréstimos entre bancos subiram em pouco tempo dos pouco mais de 4% para os 4,8%; os empréstimos obrigacionistas de empresas que há três meses se faziam por "spreads" de 0,15% fazem-se agora por 0,6%; o aumento do custo de "funding" chega aos particulares, que passarão a pagar "spreads" superiores em novos contratos.

Há lições que se aprendem na faculdade que tendem a ser esquecidas. Lição de economia: em mercados de concorrência perfeita, não há empresas com lucros excessivos (o excedente

é repartido entre consumidores e produtores); lição de gestão financeira: todos os produtos financeiros, por mais sofisticados que sejam, valem o que vale o activo subjacente mais um prémio de risco. Corolário: em mercados de concorrência e informação perfeita, ninguém ganha 30% num ano, como ganhou quem tenha investido no ano passado na Bolsa portuguesa.

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Lição de vida: nem há mercados de concorrência perfeita nem os gestores financeiros param de inventar engenharias. A culpa é do sistema financeiro? Não, são as imperfeições do sistema que fazem o capitalismo girar. Neste caso, porém, há mais que imperfeição. Há incompetência e displicência daqueles em que é suposto acreditarmos. O impacto chega agora à economia. Ninguém está a falar de "crash" mas também ninguém arrisca uma unha negra.

As bolsas estão bipolares, sobre-reagindo à notícias pessimistas e optimistas. E, sim, podemos esperar travagem da economia europeia. Sim, o crescimento pode cair e no Orçamento do Estado para 2008 contaremos com mais investimento público para compensar menos consumo, menos receitas fiscais, corda na garganta dos aumentos salariais.

Mas o que mais custa é ouvir os ministros europeus dizerem que o período do "boom" económico acabou. Você sentiu-o?

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