Mário Negreiros 05 de Abril de 2005 às 13:59

Novo Papa, novo tempo

O tempo mudou. E não me refiro ao sol ou à chuva,mas ao tempo histórico. É um tempo hoje; era outro até à noite de sábado para domingo, quando João Paulo II deixou de estar nele - no tempo que já não é, porque se foi com o Papa.

Há pessoas que fazem o seu tempo, e João Paulo II foi uma delas. Mesmo no fim da sua vida, já severamente limitado pela velhice e pela doença, o Papa, pelo simples facto de existir, era parte - e parte marcante - do tempo histórico que compartilhávamos. Os católicos - e não só (e é entre estes que me incluo) - nunca deixaram de ter em João Paulo II uma referência. Positiva ou negativa, era uma referência perfeitamente clara, tanto na defesa da liberdade (em oposição ao autoritarismo comunista) quanto na condenação do consumismo egoísta (em oposição à selvajaria capitalista) ou na intransigência obstinada à camisinha como instrumento de prevenção à SIDA ou no misticismo genuíno de quem fez muito mais santos e beatos do que, todos somados, os santos e beatos feitos pelos 263 que o antecederam no trono de Pedro.

Agíssemos como agíssemos, sabíamos o que o Papa achava do nosso comportamento, ou, pelo menos, se o aprovava ou não. É o que se espera de um líder moral.

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Agora não há mais João Paulo II. Mesmo quem acredite na eternidade da alma e que à alma corresponda uma identidade - também ela eterna - há-de concordar que a alma eterna é a de Karol Wojtyla, não a de João Paulo II. João Paulo II era o Papa, e o Papa eterniza-se (ou, pelo menos, perdura) na sucessão de homens (mortais) que assumem o lugar. Não há mais João Paulo II e, para o bem do seu sucessor (e, arrisco-me a dizer que também para o bem da Igreja e do mundo), convinha que os católicos se apercebessem disso. Porque o tempo é outro.

Wojtyla (um polaco em tempos de guerra fria) era, talvez mais do que qualquer outro dos que o antecederam, um produto do seu tempo, e terá sido, entre os seus contemporâneos, o homem que mais contribuiu para que os tempos mudassem. E os tempos mudaram. E o fim do comunismo tem muito a ver com o 11 de Setembro, que, por sua vez, inaugurou os tempos que correm.

Sem nenhuma autoridade para isso (nem católico sou!) faço aqui a minha declaração de voto (que, por razões óbvias, não exercerei): Cardeal Francis Arinze. Filho de um líder tribal da Nigéria, é apontado como um orador carismático, e foi - segundo se diz, com sucesso - o intermediário do Papa nas conversas entre o Vaticano e líderes hindus, muçulmanos e budistas. Porque nos tempos que correm o Papa de que se precisa não é um líder religioso que, sob a inspiração religiosa, trate de problemas temporais. Porque os problemas temporais, esses sim, são de inspiração religiosa. Porque, tal como foi preciso um Papa polaco para acabar com a guerra-fria, é preciso um Papa nigeriano para enfrentar o fundamentalismo muçulmano sem, para isso, recorrer a fundamentalismos cristãos.

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PS: A Câmara de Oeiras assinou um contrato com a Associação Portuguesa de Planeadores de Território (APPLA) para que esta identifique os obstáculos à mobilidade de todos (leia-se cadeiras de rodas, carrinhos de bebés, cegos, etc). Compromete-se, a Câmara, a solucionar 70 por cento dos obstáculos que lhe forem apresentados pela APPLA. Desde já indico a causa de mais de 70 por cento dos obstáculos a quem se queira mover de outra maneira que não de carro em Oeiras: a transformação quotidiana dos passeios públicos em estacionamentos privados.

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