Filipa Pires de Almeida 16 de Maio de 2026 às 15:45

O debate sobre a sustentabilidade entrou numa nova fase

A sustentabilidade deixou de estar confinada a um departamento ou a um relatório. Está a tornar-se transversal a toda a organização, na gestão de risco financeiro, nas operações, nas compras, na contabilidade, na inovação, na governação, no marketing e na estratégia de longo prazo.

Ultimamente, tenho sido abordada por muitos profissionais que trabalham em ESG e sustentabilidade com a mesma preocupação: “Sinto que a sustentabilidade está a perder relevância dentro das organizações, mas sei que este é o caminho certo para o nosso negócio. Como posso demonstrá-lo à liderança?”

A minha resposta costuma ser direta: estamos a viver um período de desinformação!

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O próprio World Economic Forum identificou a desinformação e a disseminação de informação falsa como um dos principais riscos globais no Global Risks Report deste ano. E talvez em nenhum outro tema isso seja tão visível como no debate sobre sustentabilidade. Porque, se olharmos para os factos, as empresas nunca investiram tanto em sustentabilidade como investem hoje. Os mercados financeiros nunca integraram tanto a sustentabilidade na análise de investimento, na alocação de capital e na gestão de risco. As equipas de sustentabilidade estão a crescer, a regulamentação está a expandir-se, os investidores estão atentos e as empresas estão a incorporar a sustentabilidade nas operações, na inovação e na estratégia. Então porque parece, de repente, que a sustentabilidade está a “perder espaço”?

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DR

Parte da resposta é ilusão. Vivemos rodeados de ruído, polarização e narrativas que amplificam muito mais o "backlash" do que o progresso. Mas a segunda razão é, na verdade, positiva: a sustentabilidade deixou de estar confinada a um departamento ou a um relatório. Está a tornar-se transversal a toda a organização, na gestão de risco financeiro, nas operações, nas compras, na contabilidade, na inovação, na governação, no marketing e na estratégia de longo prazo. Por outras palavras, a sustentabilidade está a tornar-se negócio. E é precisamente isso que muitos de nós defendemos há anos. O paradoxo é que, quanto mais integrada a sustentabilidade se torna, menos visível aparece enquanto tema isolado. Contudo, esta integração representa maturidade, não declínio.

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Ao mesmo tempo, muitas empresas estão genuinamente a enfrentar dificuldades para navegar esta transição. Um pouco por toda a Europa, as discussões sobre sustentabilidade estão cada vez mais dominadas pela regulamentação, pelas exigências de "compliance" e pelas pressões de curto prazo. Embora estes elementos sejam importantes, existe também um risco crescente de as organizações perderem de vista a oportunidade estratégica mais ampla associada à sustentabilidade: a possibilidade de repensar modelos de negócio, reforçar a competitividade e construir economias mais resilientes. É precisamente por isso que espaços de diálogo informado e prático entre empresas, setor financeiro, academia e decisores políticos se tornaram tão importantes.

É neste contexto que decorre a Lisbon Sustainability Week, entre os dias 29 de junho e 2 de julho, em Lisboa. Organizado pela Católica-Lisbon, o evento pretende criar uma plataforma de debate, colaboração e ação prática em torno de alguns dos mais urgentes desafios de sustentabilidade enfrentados atualmente pelas organizações. Reunindo especialistas internacionais como John Elkington e Robert F. Engle, com líderes empresariais, investidores, académicos e representantes da sociedade civil, a iniciativa reflete um reconhecimento crescente: a sustentabilidade já não pode ser abordada de forma isolada ou apenas teórica. Tem de ser integrada nas decisões estratégicas que moldam o futuro das empresas e da sociedade. E, para isso, precisamos simultaneamente de discussão e de ação.

Um dos momentos mais aguardados da semana será a manhã de 30 de junho, dedicada à interseção entre sustentabilidade, competitividade e transformação empresarial. O programa contará com a participação de John Elkington, amplamente reconhecido por ter introduzido o conceito de Triple Bottom Line há mais de três décadas. Numa altura em que as empresas são cada vez mais desafiadas a equilibrar desempenho económico com impacto ambiental e social, o pensamento de Elkington revela-se mais atual do que nunca. O seu trabalho ajudou a consolidar a ideia de que o sucesso empresarial não pode ser medido exclusivamente através do desempenho financeiro, mas também pelo valor que as empresas criam para a sociedade e para o planeta. Ao longo do dia, as discussões estarão centradas no investimento sustentável, nos modelos de negócio, na competitividade e na gestão de risco. No fundo, refletirão uma transformação mais ampla que já está em curso nos mercados globais: a sustentabilidade está a passar das margens das organizações para o centro da tomada de decisão estratégica. O dia terminará com uma "keynote" do Nobel da Economia Robert F. Engle, cujo trabalho sobre risco financeiro e volatilidade se tornou particularmente relevante num contexto global marcado pela incerteza.

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A conversa continuará no dia 1 de julho através de várias sessões principais e eventos paralelos focados em algumas das próximas fronteiras do negócio sustentável: a transição da ambição climática para uma abordagem "nature-positive", a Economia Azul e o "business case" do ODS 14, os SDG Meetings promovidos pelo Observatório dos ODS nas Empresas Portuguesas e a 2.ª Conferência de Impact Accounting Portugal. Estas discussões refletem uma evolução importante da agenda da sustentabilidade: passar da sensibilização para a implementação, da ambição para a execução.

Num momento em que a Europa debate o seu futuro competitivo e as empresas enfrentam um contexto de crescente incerteza, talvez as conversas mais importantes sejam precisamente aquelas capazes de reunir diferentes setores, perspetivas e áreas de especialização em torno de soluções práticas. É para isso que a Lisbon Sustainability Week pretende contribuir. Não apresentando a sustentabilidade como uma agenda paralela ao negócio, mas reforçando a ideia de que o futuro da competitividade, da inovação e da resiliência económica de longo prazo dependerá cada vez mais da forma como as organizações responderem às transições ambientais e sociais já em curso.

A verdadeira questão, por isso, já não é o custo da sustentabilidade. É o custo de não a enfrentar.

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