Sustentabilidade: passado ou futuro?
Se a Europa não acelerar o investimento em indústria sustentável e não transformar os seus valores sociais num verdadeiro motor de competitividade (e diferenciação), corremos o risco de ficar apenas com normas e nos encargos, enquanto outros nos ultrapassam com ação
Quem trabalha nos temas da Estratégia e Sustentabilidade empresarial sabe que passamos um momento desafiante: chama-se desinformação.
A “desinformação” foi considerada um dos maiores riscos para fazer negócios pelo Global Risk Report de 2026, publicado em janeiro pelo World Economic Forum. Na verdade, este risco contamina o pensamento público, alimenta o debate mediático e, muitas vezes, conduz decisões de negócio para o lado mais negro da criação de lucro no curto prazo.
Neste artigo, gostava de vos lançar alguns pontos concretos que nos ajudem a pensar de forma mais crítica e informada sobre os temas da sustentabilidade. Temas que serão aprofundados no evento Agenda 2030: Passado ou Futuro, que organizaremos no dia 20 de março na Católica-Lisbon.
1. A ideia de que a Europa está “à frente na sustentabilidade” é errada e só nos atrasa ainda mais no caminho da verdadeira competitividade.
A Europa continua a liderar naquilo em que sempre foi forte: regulação e burocracia. Mas quem verdadeiramente lidera a transição são os que investem na tecnologia verde do futuro. A China percebeu isso cedo e construiu uma estratégia industrial robusta para dominar setores-chave da transição energética: baterias, veículos elétricos, painéis solares e minerais críticos. Posiciona-se hoje no centro das cadeias de valor da economia verde e é dela que dependemos em grande parte para a transição sustentável em termos ambientais.
Quando nas aulas oiço argumentos de que a Europa não conseguirá competir devido às exigências de sustentabilidade, peço sempre que olhem para os dados com espírito crítico: o problema não é a sustentabilidade em si, mas o risco de ficarmos presos à regulação enquanto outros avançam com estratégia e investimento. Se a Europa não acelerar o investimento em indústria sustentável e não transformar os seus valores sociais num verdadeiro motor de competitividade (e diferenciação), corremos o risco de ficar apenas com normas e nos encargos, enquanto outros nos ultrapassam com ação. Achamos que somos os melhores, mas não somos. Estamos só com a estratégia errada!
2. O tempo para acelerar a sustentabilidade é agora! Quem não avançar agora vai apenas ficar para trás e perder competitividade.
Se o que argumentei acima é verdade, é também verdade que o contexto de fraturação global, crise económica, política, ambiental e social é real. Há cerca de dois dias a diretora do FMI, Kristalina Georgieva alertou-nos: “Pensem no impensável e preparem-se para isso.” As crises só vão aumentar. E neste contexto há duas hipóteses – a malthusiana, ou seja, vamo-nos render à espuma dos dias e deixar-nos consumir pela incerteza, pelo caos, pela perda de lucro e pelas calamidades sociais crescentes; ou a perspetiva da verdadeira prosperidade: a sustentabilidade económica, social e ambiental.
O contexto não é inevitável e pode mesmo ser mudado. Apesar de os grandes Estados globais estarem interessados em gerar caos, a Europa ainda tem algo a dizer (se quiser), e muitos são os Estados interessados na paz, e na prosperidade global. Mais do que isto, os negócios são a verdadeira força motriz da transformação que o mundo precisa. São estes que representam 75% do PIB mundial e são as empresas (não os países) que ocupam os primeiros lugares entre as maiores economias do mundo (nas maiores 100 economias do mundo, 74 são empresas e não países).
As empresas desenvolvem tecnologia, as empresas têm recursos humanos, as empresas são o motor do investimento e circulação de capital e as empresas estão a apostar mais em sustentabilidade, apesar dos desinformadores nos tentarem enganar com o contrário. O Financial Times, a Morgan Stanley, a Bain & Company, a Accenture e o UN Global Compact, a Universidade Católica, e tantas outras organizações mostram nos seus estudos, que as empresas investem cada vez mais em sustentabilidade (e não menos), apesar de mais silenciosas.
Quanto a nós podemos sempre optar: por acreditarmos nos ventos corroídos pela poeira dos dias, ou procurar informação fidedigna e perguntar-nos: “A sustentabilidade para mim é custo ou vantagem competitiva?” Se responder a primeira opção, desacelere…, mas provavelmente perderá o combustível para liderar o mercado. O futuro é sustentável e quem se posicionar hoje estará (certamente) a apostar na vantagem do amanhã.
É aqui que queremos a Europa, não a regular, mas a liderar a competitividade do futuro. Através de empresas fortes, competitivas e capazes de enfrentar as adversidades atuais com resiliência e inteligência de mercado. Isto implica diplomacia económica, escolhas de investimento claras, implica gerir o curto e o médio/longo prazo. Até porque nem tudo o que é sustentável é bom para os países, as empresas e para os mercados. Para discutir estas matérias e criar "roadmaps" práticos e sólidos, a Católica-Lisbon continua a trabalhar, de forma próxima, com muitas empresas em Portugal. Estamos de portas abertas para estas discussões e para criar soluções de negócio responsáveis, sólidas e lucrativas. É por este motivo que estaremos juntos dia 20 de março e assim continuaremos no futuro, com variadíssimos projetos, para que da discussão surjam clarificações e destas surjam ações.
Como dizia Peter Drucker: “A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo.” Nós teremos o futuro que quisermos, mas é melhor partir (já) para a ação.
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