Mário Negreiros 05 de Setembro de 2006 às 13:59

O fetiche da crise

Três lindas hospedeiras despedidas da Varig (a ex-companhia-referência da aviação comercial brasileira) fazem a capa da mais recente edição brasileira da revista Playboy.

Nas fotografias de divulgação as meninas aparecem em plena pista de aeroporto, com aviões ao fundo, de cuecas, soutiens, sapatos de saltos altos e finos, lenços ao pescoço, chapéus na cabeça e a carregar cada uma a sua mala. Cumpre-se, assim, um dos mais diligentemente alimentados fetiches do erotismo masculino – tão velho quanto a própria aviação comercial: hospedeiras semi-nuas, vestidas com tudo o que as identifica como tais, menos a farda propriamente dita. E aviões ao fundo.

Não é a primeira e (espero) não será a última vez que se faz um ensaio fotográfico com hospedeiras nuas, mas o que (além de todas as outras coisas) chama a atenção na capa da última Playboy brasileira é a ocasião. É evidente que a revista pretende aproveitar a notoriedade da Varig neste momento específico para vender a nudez das suas ex-hospedeiras. Mas de que se faz a notoriedade da Varig neste momento específico? De crise, de desemprego, apreensão, insegurança, medo, falta de perspectivas ou de esperanças, fracasso... tudo o que possa – ou julgava eu que podia – inibir o fervor erótico de um homem. Mas – soube-o a partir do interesse despertado pela história das ex-hospedeiras da Varig – a crise no sector de energia precedeu a da aviação como estímulo de ânimo erótico: a versão norte-americana da Playboy apresentou, numa das suas edições, um grupo de beldades cujo apelo específico (porque o da beleza não basta) era o facto de terem sido despedidas da finada Enron: «fazemos uma auditoria à vida sexual destas beldades do mundo empresarial», promete uma sinopse do DVD vendido na internet sobre os bastidores da sessão de fotografias das «Woman of Enron».

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Estranho. Também nunca pensei que algum dia viesse a ouvir a palavra «auditoria» num contexto sexy.

Nada disto diz coisa alguma sobre a Varig e as suas hospedeiras ou sobre a Enron e as suas funcionárias, mas dirá muito de nós, homens contemporâneos. Por que raios a Playboy – que há-de reunir os maiores especialistas do mundo em fetichismo masculino – pensa – e, se calhar, com razão – que venderá mais revistas se apresentar a carne (no bom sentido) do mês como colhida de gente despedida duma ou doutra empresa? Em que é que isso nos excita? Que caminhos fazemos entre a falência da Varig ou da Enron e a nossa libido? Francamente, não imagino. Constato. E só.

PS: «Fetiche» é uma palavra com história engraçada. Segundo me contaram, os franceses adoravam, no séc. XVI o que quer que fosse exótico. Palavras também. E os portugueses, fascinados com as suas Áfricas, falavam muito nos seus «feitiços». «Fetiche» foi como os franceses – notoriamente limitados em fonética – conseguiram dizer «feitiço».

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PPS: Que feitiço fazer para desintegrar a lataria móvel estacionada por todos os passeios desta minha Oeiras e arredores (muitos, largos, nacionais arredores)?

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