Baptista Bastos b.bastos@netcabo.pt 24 de Novembro de 2006 às 13:59

O Governo contra os jornalistas

O empreendimento "reformista" do Governo ameaça tornar-se num cego dispositivo de destruição. Ainda por cima, o Executivo Sócrates actua com a tirania do poder absoluto, ...

Ainda por cima, o Executivo Sócrates actua com a tirania do poder absoluto, ignorando que os mecanismos tradicionais da democracia exigem a participação efectiva dos cidadãos. O poder é algo que pertence ao povo. E não será necessário folhear os livros de política para se chegar a este entendimento.

Esta razia atinge as classes intermédias. As beliscaduras que a propaganda governamental insiste em travestir de amolgadelas no corpo dos poderosos, dos fortíssimos interesses económicos e da Banca, não passam de isso mesmo: marquetingue.

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José Sócrates criou um novo tipo de dirigente político: não é carne, nem peixe, nem arenque vermelho. Não é socialista, não é social-democrata, não é democrata-cristão, não é marxista, não é keynesiano, não é de Esquerda, não é de Direita, não é do "centro" porque esta categoria inexiste. Conhecidos estes elementos, será injusto julgá-lo através de critérios normais.

Note-se, aliás, que a sua expressão fisionómica varia de ameaçadora (sobretudo para com os jornalistas) ao impassível contraído, sem um pingo de humor a iluminá-la e com uma marcada pressuposição de superioridade. Se as decisões políticas deste homem configuram um comportamento de Esquerda, conforme ele e seus acólitos afirmam, então, meus Dilectos, começo a acreditar que os elefantes voam. Os socialistas estremecem de contentamento. Talvez não conheçam o provérbio chinês: quem monta um tigre acaba no bucho do animal.

As "reformas" do Governo são alusivas no estilo, mas grosseiramente violentas no conteúdo. Estas maneiras de totalitarismo registam-se em todos os níveis. Não possuem a componente policial das ditaduras, mas parte da população consome o que lhe é rudemente imposto, porque os maneirismos publicitários deformaram-lhe a cabeça, e orientaram-na para a mais fiel das resignações.

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Note-se que a ofensiva (porque de ofensiva se trata) contra o funcionalismo público foi empacotada em clichés habilidosamente construídos. O desprezo pelos sindicatos atingiu, neste caso, dimensões inusitadas. Nem nos piores momentos dos Governos do dr. Cavaco as coisas se demonstraram tão implacáveis. E, ao que julgo saber, o actual Chefe do Estado já exprimiu preocupação, relativamente à avassaladora onda de alterações no tecido social português.

O Executivo corta, substancialmente, nos orçamentos daquelas actividades que, mais fácil e irracionalmente, obtêm o aplauso popular. Os sectores da Cultura, da Ciência e da Educação são os mais atingidos. Em nome do défice e do equilíbrio das contas, um ruidoso grupo de indivíduos, que os acasos da fortuna colocaram no poder, simplificam e pasteurizam o que, na verdade, deve ser estudado e analisado nas suas complexas vertentes. Não se ouve um protesto de Mariano Gago, de Isabel Pires de Lima, de Mário Vieira de Carvalho. Que se passa com eles?

Uma das últimas agressões deste Governo põe em perigo uma volumosa quantidade de pessoas. A extinção da Caixa dos Jornalistas, indicada por um tal secretário de Estado, cuja arrogância só pode ser entendida como estultícia, reduz a nada a discussão proposta. De um momento para o outro, quando se esperava a marcação de reuniões, a fim de se estatuir uma plataforma de entendimento, que preservasse um património dos profissionais de Imprensa, emerge das brumas neoliberais um "socialista" das novas dinastias, que coloca um ponto final numa instituição criada desde 1947.

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Os jornalistas não ganham bem. Têm de ser bons todos os dias, e não se lhes perdoa a mínima falta, postergando-se as suas pequenas glórias. "Uma cacha em troca de um reino!" Fugaz e precário reino de papel, leito e sudário de uma porção de gente cujo único propósito é dar notícias dos outros e termina em dez linhas necrológicas. É um ofício de tensões, compulsões, pressões, ameaças e perigos. Vai ali e vem já, escreve rápido, claro e sucinto. Se começa aos 20 anos, aos 40 foi tão sovado, tão molestado, que se encontra à beira de ser substituído, através desse sinistro instrumento de desemprego, eufemisticamente chamado de "rescisão amigável de contrato". Ninguém, no mundo, perde "amigavelmente" o trabalho. Podem crer que sei muito bem do que falo.

A Caixa tem sido uma das nossas escassas defesas. A regressão dos salários é proporcional ao avanço das tecnologias. A incidência de doenças prolongadas, crónicas ou letais atinge, na classe, números vultosos. Muito superiores aos de outras profissões. As intervenções cirúrgicas, as quimioterapias, as radioterapias, a assistência especializada, a oftalmologia, a cardiologia, as análises, indispensáveis a quem pratica um ofício considerado um dos três mais perigosos do mundo, têm sido apoiadas por aquele subsistema de saúde, sem o qual centenas e centenas de jornalistas teriam morrido - com as tais dez linhas de discreto adeus.

Não se trata da manutenção de um privilégio, da sustentação de uma regalia. É um direito, asperamente conquistado pelos nossos antigos pares, agora ameaçado por um Governo, passageiro como todos os Governos, porém mais criticável porque embrulhado no manto do "socialismo". Emerge, deste assunto, algo de indigno.

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O ataque às corporações não tem aqui cabimento. O que está em causa é o aniquilamento de um valor patrimonial que também tem a ver com aspectos culturais. Mas este Governo tripudia sobre os valores cuja natureza devia defender e acautelar. Entre os quais os da solidariedade, da fraternidade e do mutualismo. A ofensiva tem como objectivo o encaminhamento das economias para o sector privado. Alguém tem de emprestar um exemplar da Constituição a esta gente.

O mito, segundo o qual os jornalistas "estão bem na vida", tem sido afrontosamente alimentado por uma canalhada que nada tem feito pelo País, e que passa pelos sucessivos Governos a fim de tratar de si e dos seus. Posso fornecer uma lista de jornalistas que auferem, mensalmente, 120 e 150 contos (moeda antiga); e de reformados, com muitíssimo menos, porque os patrões não entregaram à Previdência os descontos feitos durante anos a fio. Vi muitos jornalistas a subsistir na faixa da miséria; outros, feridos pelo mais doloroso desespero; outros, ainda, obrigados a vender pertences: bibliotecas, móveis, utensílios domésticos. Nunca conheci, naquelas condições, nenhum patrão de jornais, nenhum ex-governante, nenhum ex-parlamentar.

Estes "socialistas" não têm nada em conta. Apenas dispõem de um estilo pomposo e cego; frases enroladas e confusas. Só de os ver na televisão dá azar.

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Com eles, estamos todos em perigo. Todos. Conhecem o poema do Brecht?

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