Patos coxos apaixonados
Os receios com a dívida soberana e as dúvidas sobre o plano de resgate do euro colocaram em primeiro plano a questão das divisas internacionais de reserva. Antes da primavera, a maioria dos observadores assumiu que a percentagem de dólares nas reservas internacionais iria cair gradualmente, enquanto a percentagem de euros iria subir e o mundo faria uma transição gradual e suave para um regime de multi-reservas.
Até agora, a crise financeira global tem sido historicamente notável ao não ter repercussões importantes no mercado de divisas. A percentagem das principais moedas de reserva permaneceu estável, com o dólar a representar 62% das reservas de moeda e o euro 27% em 2009. Qualquer alteração importante não resulta de decisões deliberadas dos bancos centrais para realocar reservas mas sim da simples aritmética da alteração das taxas de câmbio: um dólar mais forte aumenta a percentagem de dólares no total das reservas globais, enquanto um dólar mais fraco reduz esta percentagem.
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De facto, uma espécie de equilíbrio de terror impediu qualquer realocação importante por parte dos grandes detentores de reservas. Um esforço para diversificar através da venda de determinado activo teria um impacto tão significativo nos mercados que produziria enormes prejuízos para o banco central que o tentasse fazer.
A crise do euro colocou em causa a visão de que a transição para um regime de multi-reservas seria suave. Os bancos centrais da Ásia e do Médio Oriente, com elevadas reservas de euro, ficaram nervosos com as vulnerabilidades políticas do euro. Mas o enorme défice orçamental dos Estados Unidos, em conjunto com a incerteza que existe nos mercados financeiros, significa que o dólar também é potencialmente vulnerável.
Existem alguns precedentes históricos para esta situação. Nos anos 60, a libra britânica era a segunda moeda de reserva do mundo. As autoridades norte-americanas fizeram esforços consideráveis para apoiar a libra, porque sabiam que os mesmos factores que tornavam a libra vulnerável também ameaçavam o dólar. Assim, a libra era vista como parte do perímetro de defesa do dólar. Os críticos olhavam para esta situação como um caso de dois patos coxos que se apoiavam um no outro.
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O recente frenesim de diplomacia telefónica de alto nível, no qual o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pressionou os líderes europeus a agirem de forma a salvar o euro, mostrou que esta dinâmica está viva e de boa saúde. Foi uma excelente demonstração não apenas da dificuldade dos líderes europeus em encontrarem uma resposta coordenada à crise, mas também da importância estratégica que a segunda moeda de reserva tem para a maior. Em caso de colapso do euro, a economia norte-americana ficaria altamente vulnerável. Por isso os patos coxos de hoje precisam de se abraçar.
A analogia com a década de 60 levanta a questão se, e quando, poderá surgir uma nova moeda internacional importante. Ao fim de poucos anos, o reinado da libra como moeda internacional de confiança terminou. O iene e o marco alemão surgiram como novas moedas de reserva, apesar dos governos e dos bancos centrais do Japão e da Alemanha estarem profundamente preocupados com o novo papel das suas divisas e da volatilidade que poderia criar.
Em retrospectiva, muitas pessoas consideram esta alteração como inevitável mas na altura pareceu altamente improvável. A ascensão do iene e marco alemão ocorreu apenas 20 anos após a catastrófica devastação provocada pela II Guerra Mundial, que foi inevitavelmente acompanhada por inflação. Durante a ocupação imediata do pós-guerra, os militares norte-americanos impuseram novos regimes de divisa e instituições bancárias centrais.
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O mais extraordinário é que quando estas novas moedas surgiram como novas aspirantes à condição de reserva, só recentemente é que tinham passado a ser convertíveis para transacções de conta corrente e continuavam limitados os fluxos de capital. A Alemanha só passou à convertibilidade de conta corrente em 1958 e o Japão em 1964. Além disso, o Japão não era especialmente rico em comparação com outros países e nenhum dos países tinha mercados de capitais bem desenvolvidos.
Apenas um facto interessa realmente: o impressionante desempenho das exportações. Os dois países mantiveram grandes excedentes comerciais durante vários anos e durante diferentes fases do ciclo económico. Isto fez com que os dois países fossem uma fonte de maior estabilidade das divisas do que os Estados Unidos ou a Grã-Bretanha. A acumulação de activos associada aos excedentes externos, em conjunto com a força das exportações, parecia uma garantia das suas reservas. Ao contrário do dólar e da libra, o iene e o marco alemão não dependiam dos fluxos de capital estrangeiros.
Como é óbvio, o desenvolvimento potencial de uma divisa de reserva criou uma profunda vulnerabilidade. Tanto o Japão como a Alemanha liberalizaram muito lentamente os seus sistemas financeiros nacionais à medida que tentavam limitar a entrada de capitais durante um largo período de tempo para evitar uma rápida apreciação das suas moedas e consequente erosão da sua competitividade exportadora.
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A China passou à convertibilidade de conta corrente em 1996 mas manteve um grande número de controlos aos movimentos de capitais, que servem como escudo contra o contágio financeiro. Será que continuam a ser precisos?
As lições dos anos 60 sugerem que um renminbi totalmente convertível poderia tornar-se rapidamente numa importante divisa de reserva internacional. Seria atractivo não só porque o Banco Popular da China e outras instituições chinesas têm maciços activos no estrangeiro, mas também porque a China produz bens que os consumidores mundiais continuam a querer comprar. A experiência histórica da Alemanha e do Japão, e a recente turbulência financeira nos grandes países industrializados, parecem aconselhar a não realizar esta alteração de política.
Mas, como um grande país, a China não teria as vulnerabilidades das divisas fortes mais pequenas (como por exemplo a coroa norueguesa ou o franco suíço). E, como fornecedor de uma moeda de reserva, a China não teria que continuar a acumular reservas, factor que tem contribuído para a instabilidade financeira global. Adicionar o renminbi como possível opção de reserve libertaria os actuais patos coxos do seu matrimónio forçado.
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Harold James é professor de História e Assuntos Internacionais na Universidade de Princeton University e professor de História no Instituto Universitário Europeu em Florença. O seu mais recente livro é “The Creation and Destruction of Value: The Globalization Cycle”.
Direitos de Autor: Project Syndicate, 2010.www.project-syndicate.org
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