Negócios negocios@negocios.pt 02 de Janeiro de 2002 às 14:42

Paulo Fidalgo: «Para que servem os media»

A fase de menor prosperidade dos media propicia reflexões mais realistas sobre os termos da actividade e obriga os proprietários dos mesmos a encontrar formas de produzir o mesmo valor de informação com menores custos.<p><b>Paulo Fidalgo</b></p>

A circunstância de vivermos uma fase de menor prosperidade no negócio dos media propicia reflexões mais realistas sobre os termos da actividade e obriga os proprietários de jornais, revistas e televisões a encontrar modos correctos de produzir o mesmo valor de informação e entretenimento com menores custos.

As medidas de correcção que estão a ser concretizadas nos vários grupos empresariais do sector, pela sua profundidade e alcance, dão a medida do dislate a que se tinha chegado, em boa parte por culpa dos próprios donos do negócio, incapazes de resistir à vertigem da abundância do final dos anos noventa.

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Mas tudo o que se tem feito e continuará a fazer-se por medo dos prejuízos em 2001 e 2002 pouco contributo dará para redesenhar o «modus operandi» da indústria numa base de crescimento progressivo de proveitos e níveis de rendibilidade.

Na verdade, as limpezas de conta de exploração são indispensáveis, mas não são suficientes para que os media portugueses possam afirmar que existem como indústria consistente, capaz de alimentar a sua própria renovação e de acompanhar o dinamismo da economia global reflectido no mercado português.

Mas se for verdade que o apetite aguça o engenho, pode ser que a actual crise de rendibilidade dos media afine a inteligência dos investidores no sentido de resolver alguns bloqueios fundamentais à afirmação do sector como indústria madura, capaz de fornecer ao país a utilidade que a justifique.

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São dois, a meu ver, os obstáculos estruturais mais importantes ao desenvolvimento de uma indústria mediática moderna, dinâmica e economicamente viável no longo prazo: a inutilidade real de boa parte do produto oferecido aos clientes e a visível incompetência da sua distribuição.

Inutilidade dos conteúdos

O primeiro obstáculo é de natureza cultural e materializa-se no padrão editorial seguido pela generalidade das publicações, rádios e televisões. Se quisermos ser verdadeiros, temos de aceitar que alguns media não se preocupam em ser úteis aos seus consumidores, fugindo constantemente à responsabilidade de tentarem em cada dia merecer o dinheiro que custam.

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De um modo geral, os jornalistas não são estimulados a considerar o leitor como um cliente concreto, que pode e deve ser conhecido na sua realidade social, económica e cultural e, portanto, servido e satisfeito com o produto que vai ser publicado.

Neste enquadramento, as práticas jornalísticas tornam-se um jogo cifrado, à margem do entendimento geral e incapazes de trazer para o espaço público as preocupações e os interesses concretos dos cidadãos e agentes económicos sem expressão de poder formal.

Nesta base, o exercício jornalístico deixa de ser percepcionado pelos próprios jornalistas como um serviço com valor económico e passa a ser considerado como forma de prosseguir uma espécie de ofício público semelhante ao das autoridades em geral, com a vantagem sensível de não ir a votos, permitindo assim uma continuidade de carreira que aos eleitos se recusa. Algum paralelo se pode fazer com a situação a que chegaram os magistrados, tão políticos como os políticos, mas sem a desvantagem do escrutínio eleitoral.

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Incompetência na distribuição

Quando comecei no jornalismo ainda havia ardinas na rua. Para muitos, os ardinas eram uma relíquia da organização medieval do trabalho, uma prova pública da miséria urbana que obrigava jovens e velhos a vender jornais aos transeuntes. Hoje os ardinas são lojistas de quiosque, com horário das nove às cinco e uma imobilidade do tamanho do seu desinteresse e da sua antipatia.

Prisioneira de um sistema de distribuição que fez destes anti-profissionais da venda a chave do sucesso ou insucesso das publicações, não admira que a imprensa sofra as consequências e pague as favas.

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Não se entende que, num país tão curto, não seja possível comprar qualquer jornal português em qualquer localidade de província às sete horas da manhã. Também não se aceita que os media justifiquem a presente situação com o argumento de que não vale a pena colocar os jornais onde não se vendem ou onde se vendem pouco. Com esta lógica nenhum hipermercado teria sido construído no interior, nenhuma TelePizza teria saído de Lisboa ou Porto.

A integração de Portugal num espaço cultural e mediático cada vez mais global e a evolução das tecnologias de suporte à comunicação profissional vai acabar por dar ao cliente português respostas (em português) vindas do outro lado da fronteira.

Tal como aconteceu noutras indústrias que não cresceram e não evoluíram, também os media nacionais serão comprados e vendidos no livre jogo do mercado europeu e mundial, condenando à irrelevância empresarial e social os velhos capitães lusitanos dos jornais (de referência ou sem referência).

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Terá isto importância para os jornalistas? Certamente que sim, sobretudo para aqueles que, como eu, tenham do jornalismo uma noção de empenhamento feliz e entusiasmado no serviço ao leitor e ao mercado, porque saber e entender o que se passa no mundo requer jornalistas lúcidos e de bem com os outros.

Paulo Fidalgo, jornalista

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