Avelino de Jesus 28 de Novembro de 2005 às 14:39

Peter Drucker numa lição: a gestão como imperativo moral (I)

No passado dia 22 de Novembro, a General Motors informou que iria fechar 9 fábricas e dispensar 30.000 empregados. Quatro dias antes, fora divulgada uma carta que o presidente da General Motors, Rick Vagoner, enviara aos seus 325.000 empregados, asseguran

No passado dia 22 de Novembro, a General Motors informou que iria fechar 9 fábricas e dispensar 30.000 empregados. Quatro dias antes, fora divulgada uma carta que o presidente da General Motors, Rick Vagoner, enviara aos seus 325.000 empregados, assegurando, contra os rumores que correm em Wall Street, que a empresa não irá abrir falência.

E acrescentou: "Os enormes prejuízos da GM North America são, certamente, insustentáveis e requerem uma estratégia apropriada, de implementação imediata, para os enfrentar e tornar de novo lucrativo o nosso negócio na América".

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Uma semana antes, no dia 11 de Novembro, morria o fundador da ciência da gestão, Peter Drucker(1). Este conhecia muito bem a GM. A carreira de Drucker e a disciplina da gestão estão intimamente ligadas a este gigante da indústria(2). Durante quase dois anos, entre 1943 e 1945, Drucker realizou o seu primeiro grande trabalho de consultoria, estudando por dentro, a convite da respectiva administração, o funcionamento de uma grande empresa industrial. Desta estadia nasceu, em 1946, o primeiro livro de gestão, The Concept of the Corporation, e uma visão fundadora de Drucker que perduraria ao longo de toda a sua obra: a grande empresa como a mais nobre das criações humanas e a gestão como um imperativo moral.

A influência e popularidade de Drucker é insofismável e enorme. Num extenso inquérito, recentemente promovido pelo Financial Times, Drucker ocupa o primeiro lugar entre os mais influentes teóricos e práticos da gestão e dos negócios, à frente de Bill Gates, Jack Welch, Richard Branson ou Warren Buffet .

Muitos quererão lembrar Drucker como o maior dos gurus da gestão - e é assim que a esmagadora maioria dos obituários se lhe referem. Mas, é um erro tremendo avaliar desse modo a vida e a obra de Peter Drucker. Primeiro, porque ele próprio o recusou de forma violenta comparando o guru com o charlatão, termo que usou explicitamente para se colocar de fora da espécie. Segundo, porque o termo remete, geralmente, para os criadores de modas em gestão, que vêm e vão sem deixar rasto, com propostas contraditórias, num posicionamento oposto aquele que caracterizou o trabalho de Drucker, sempre orientado pela coerência, seriedade e continuidade.

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Drucker chegou à necessidade de fundar e desenvolver a gestão por imperativo moral. Este imperativo toma forma no seu espírito entre 1939 e 1942. Abandonou a Áustria em 1932 - depois de vários conflitos com o regime de Hitler, de que muito cedo avaliou os riscos e consequências - e emigrou para a Inglaterra. Desgostoso com as hesitações inglesas face a Hitler, ruma aos EUA, onde no início de 1939, publica o seu primeiro livro: The End of Economic Man. Neste livro, estuda as origens e as consequências dos regimes totalitários - nazismo, fascismo e comunismo - tomando uma posição pessimista, julgando que só uma, então incerta, intervenção americana deixava lugar para alguma esperança. O livro foi objecto de uma recensão elogiosa de Winston Churchill(3), que nota em Drucker um invulgar rigor analítico. Esta recensão contribuiu para o assinalável êxito do livro.

No seu segundo livro, The Future of Industrial Man (1942) - este marcado agora por um claro optimismo, suportado pelos valores do cristianismo e da liberdade individual - avança, pela primeira vez, com a ideia que o orientará para sempre: a nova força, e a solução para os males da sociedade, é a gestão. Esta será a única força revolucionária que destroçará as forças destrutivas da sociedade que identificara na obra anterior.

O conceito de gestão é construído no seu terceiro livro, Concept of Corporation (1946), o qual fixa, igualmente, a sua metodologia: a reflexão sobre os problemas das organizações e procura de soluções, a partir da observação directa e de dentro da empresa. O livro nasce de um trabalho pioneiro de consultoria - suportado por uma estadia de 18 meses no interior da empresa - realizado a pedido do então presidente da General Motors, Alfred Sloan. Para além de vários conceitos técnicos aqui enunciados pela primeira vez - a descentralização, a gestão por objectivos, etc. - a ideia de integridade, ou de moralidade, como Drucker prefere, é o elemento unificador da nova disciplina. Seguir-se-ão mais 36 livros - dos quais o último, The Effective Executive in Action, só sairá em Janeiro de 2006 - todos fiéis e subordinados a esta ideia central.

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The Practice of Management (1954) é a introdução clássica à gestão.

É indicado o papel do marketing, dos objectivos claros, do equilíbrio entre a estratégia de longo prazo e os resultados de curto prazo. É célebre a sentença: "A empresa - dado que a sua função é criar e manter clientes - tem apenas dois objectivos: Marketing e Inovação. Tudo o resto são despesas".

NOTAS

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(1) A morte de Peter Drucker não podia deixar de me suscitar uma reflexão sobre as origens da disciplina da gestão, dado o papel fundador que o autor teve na sua história. O défice português de gestão - já sublinhado por alguns - é maior do que se imaginaria. O falecimento do fundador da ciência da gestão, Peter Drucker, deveria ser motivo para o aparecimento na imprensa de referência de múltiplos artigos de opinião dos nossos especialistas em gestão, realçando, com abordagens naturalmente diversificadas, a sua contribuição ímpar para a constituição deste ramo do saber. Impus-me, como dever, dadas as responsabilidades que tenho num escola universitária de gestão, dar o meu contributo. É certo que a universidade portuguesa ainda não leva muito a sério a gestão enquanto área autónoma, como se comprova pela ausência, quase generalizada, de cadeiras de História do Pensamento em Gestão e de História das Empresas e das Organizações. Estas disciplinas ainda não existem, na esmagadora maioria das escolas, como elementos formativos básicos, nos planos de estudo das licenciaturas em Gestão.

(2) Factos recentes confirmam que, mais uma vez, o problema da GM é de gestão - e este, à boa rigorosa maneira de Drucker, resume-se a Marketing e Inovação - e não de política pública. A GM tem vindo a perder, vertiginosamente, quota de mercado nos EUA, em benefício das empresas japonesas do ramo, produzindo também no território americano. O sucessor de Alfred Sloan, Rick Wagoner, gosta de citar os 1.500 dólares por veículo que a GM paga de benefícios sociais, função tão cara a Drucker, já no longínquo The Concept of the Corporation de 1946. Mas omite, curiosamente, que os gastos associados às deficiências em marketing e inovação - elemento central do The Practice of Management de 1954 - os incentivos ao comprador, valem 3.500 dólares por veículo na GM, contra apenas 1.000 dólares no caso dos carros japoneses produzidos no mesmo território. Vale dizer que seria altura de trazer Drucker de volta à GM, desta vez para aplicar, na íntegra, as suas recomendações.

(3) Por entre rasgados elogios a esta obra, Churchill discorda da conclusão de Drucker que apontava para o provável entendimento entre a Alemanha e a Rússia. Drucker baseava-se, para chegar aquela conclusão, na natureza dos dois regimes e nas forças económicas que os justificavam. Churchill, elogiando o rigor analítico de Drucker, julgava que o forte nacionalismo russo seria mais forte e contrariaria as forças identificadas por Drucker. Estávamos no início de 1939. Apenas uns meses mais tarde, era assinado o pacto germano-soviético.

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