pixel

Negócios: Cotações, Mercados, Economia, Empresas

Notícias em Destaque
Avelino de Jesus - Economista e professor no ISEG
03 de Maio de 2021 às 17:07

Uma zona franca para Sines e Beja

As zonas francas não são um instrumento menor e estão em crescendo em todo o mundo. No caso português, deveriam ocupar um lugar destacado na política económica, ao invés do desprezo de que são objecto.

Adicione como fonte preferencial no Google

Em 2015 escrevi, neste jornal, um artigo sugerindo a criação de zonas francas como instrumentos de crescimento para economia portuguesa. O impacto foi de estranheza e de indiferença, revelando-se geral ignorância sobre as possibilidades e a importância real deste instrumento de política económica. Merece, por isso, referência e saudação um facto, noticiado em 21 de Abril no Público: o presidente de uma associação privada (Jorge Almeida, presidente da Comunidade Portuária e Logística de Sines) atreve-se a propor uma zona franca industrial e comercial nas áreas do aeroporto de Beja e do complexo de Sines.

 

O fracasso das políticas anteriores

 

O fracasso das políticas anteriores de corrida às infraestruturas e à procura de negociação de grandes projectos politicamente negociados (PIN) há muito que exige reflexão e mudança. Mas continuamos a insistir.

As sucessivas promessas goradas não bastaram para arrepiar caminho. O país beneficiou, a vários níveis, com os vastos fundos europeus, mas, tirando pequenos impulsos, bem identificáveis, foi perdendo posição relativa na economia europeia. Agora, com nova vaga de fundos, volta a cair nas mesmas ilusões, como se não tivesse passado já pela mesma vã esperança.

Embora a procura dos poderes públicos pelos PIN e pela construção de infraestruturas seja importante, não chega, como a experiência tem mostrado. Se um acréscimo de novas infraestruturas não deva ser rejeitado, as já existentes são mais que suficientes para que o país não tivesse rastejado no seu caminho para a convergência real com os parceiros da UE.

O caso da AutoEuropa é muitas vezes referido como exemplo a seguir, quando demonstra exactamente o contrário: estes grandes projectos são importantes, mas insuficientes e não multiplicáveis no quadro da política económica há muito em curso. Tal como a AutoEuropa, o centro de dados recentemente anunciado para Sines (€3,5 biliões de investimento e 1.200 postos de trabalho directos) é bem-vindo e pode ser um sucesso em si, mas está destinado a ter igual destino solitário.

 

Um segundo óptimo acessível: as vantagens das zonas francas

 

Dada a dificuldade política de criação de condições para o investimento - a liberalização geral - devido ao atavismo das principais forças políticas, as zonas francas industriais e comerciais são o instrumento a privilegiar enquanto segundo óptimo da política económica.

Em geral, este segundo óptimo confere credibilidade e aceitabilidade para atrair investimentos internos e externos e, face à actual política, é menos arriscado, incorre em menores custos e, finalmente, gera melhores resultados. Em particular, devemos sublinhar cinco vantagens.

Primeiro, alarga as possibilidades, permitindo o aparecimento de projectos que os decisores públicos - por mais capacidade e empenhamento que tenham - não podem conhecer ou mesmo imaginar.

Segundo, quebra as resistências à liberalização geral, reduzindo os riscos políticos tantas vezes invocados para a paralisia.

Terceiro, é de evidente transparência contra opacidade dos PIN.

Quarto, gera o desejo de imitação pelo exemplo que pode constituir para multiplicar noutras zonas do país.

Quinto, sendo uma política gradual, de pequenos passos, permite testar a política de liberdade económica visando uma política idêntica posterior para todo o país.

 

Viabilidade e importância das zonas francas

 

De acordo com a OCDE e a OIT, as zonas francas proliferaram por todo o mundo nos últimos 25 anos. Existem actualmente 3.500 zonas em 130 países contra 176 casos em 47 países em 1986 e 79 casos em 25 países em 1975. O emprego directo gerado nestas zonas deve aproximar-se, actualmente, de 66 milhões de pessoas.

Em Portugal é comum o mito de que a figura de zona franca industrial e comercial não se enquadra nas regras da UE. Não só o instrumento é possível como ele tem sido utilizado com agressividade e sucesso por diversos países. No contexto da crise do euro, a Spiegel noticiou, em 25/12/2012, que o governo alemão elaborara, para acelerar o crescimento dos países do sul, um plano em 6 pontos, um dos quais consistia na criação de zonas francas sob a designação de zonas económicas especiais centradas nos incentivos fiscais e na simplificação e aligeiramento da regulação económica.

Na UE, no fim de 2020, existiam 63 zonas francas. Dos 27 países, apenas 7 não têm qualquer caso e de 13 países têm mais de um caso. São significativos os países com maior número de zonas francas: com 8 a República Checa, com 7 a Espanha e Polónia, e com 6 a Roménia e Bulgária.

O caso notável da Irlanda deve ser mencionado. Embora não tenha agora qualquer zona franca, a Shannon Free Zone, que só em 2019 deixou de conceder incentivos, teve um papel importante no crescimento do país. Criada em 1959, seis anos depois já era responsável por 1/3 das exportações industriais do país.

Como se sabe Portugal tem apenas a zona franca da Madeira, de âmbito muito limitado e sem impacto nas áreas industriais e comerciais.

Lembrar o mito de Sines: o insucesso de 50 anos de dirigismo

 

O estudo da história do mito do complexo de Sines é de um ensinamento fundamental para compreender o fracasso da política económica portuguesa do último meio século.

O último episódio da história de insucessos ocorreu já este ano - nos 50 anos da criação formal complexo em 1971 - com a desertificação do concurso para a concessão do terminal Vasco da Gama.

O complexo industrial de Sines teve origem no III Plano de Fomento (1968-1973) e foi aprovado em 1971 como local ideal para implantar as indústrias de base. Os argumentos apresentados como garantes das estratégias seguidas foram variando à medida da sucessão dos fracassos: o melhor porto de águas profundas, a excelência da localização estratégica (proximidade do mediterrâneo, de África, ligação ao Extremo Oriente, Norte da Europa), a saturação do porto de Roterdão, etc. As desculpas para os fracassos também foram evoluindo, terminando agora, como não podia deixar de ser, com a pandemia.

O traço comum nesta história - que representa muito bem a história da política económica portuguesa - é a atribuição aos poderes públicos da responsabilidade pela escolha dos projectos concretos para o complexo: as indústrias de base, na origem em 1971, evoluíram depois para: a base logística para a Europa, a área da energia - com o hidrogénio agora à cabeça - o agronegócio (porta de entrada na europa dos cerais brasileiros), a área digital (via cabo submarino de fibra óptica, única ligação da Europa à América do Norte).

 

Conclusão

 

A avaliar pelo entusiasmo geral, e em particular dos poderes públicos, em repetir a política do passado, a iniciativa da CPLS pode estar, infelizmente, destinada ao fracasso. No entanto, a concretizar-se, aquela iniciativa seria de grande importância, não só pelo que significaria para o desenvolvimento de uma região do país, mas pelo exemplo que poderia constituir para a multiplicar noutras zonas de Portugal.

As zonas francas não são um instrumento menor e estão em crescendo em todo o mundo. No caso português, deveriam ocupar um lugar destacado na política económica, ao invés do desprezo de que são objecto.

Uma zona franca para Sines e Beja
Ver comentários
Ver mais
Publicidade

C-Studio é a marca que representa a área de Conteúdos Patrocinados do universo Medialivre.
Aqui as marcas podem contar as suas histórias e experiências.

Publicidade

C-Studio é a marca que representa a área de Conteúdos Patrocinados do universo Medialivre.
Aqui as marcas podem contar as suas histórias e experiências.

Publicidade

C-Studio é a marca que representa a área de Conteúdos Patrocinados do universo Medialivre.
Aqui as marcas podem contar as suas histórias e experiências.