Questões fracturantes
As chamadas "questões fracturantes" têm estado na ordem do dia. São vistas por uns como oportunidades para sacudir uma sociedade tida como adormecida; por outros, como agitações perigosas sobre temas que melhor ficariam em repouso. Nesta página proponho quatro graus de fractura.
Questões fracturantes puramente intelectuais
PUB
Encontram-se sobretudo em revistas académicas. Referem-se a discussões com elevado lastro intelectual e assumem a forma de debates técnicos dirigidos a um público especializado e minúsculo do ponto de vista do mercado das ideias. Podem por vezes ser "accionáveis" mas esse não é necessariamente o seu objectivo principal. Um exemplo deste tipo de fractura pode ser encontrado num artigo de Moshe Farjoun (U. York, Toronto) a publicar na revista "Academy of Management Review" sobre a diferença entre dualismo e dualidade. A questão pode parecer, como é hábito dizer-se, meramente académica, mas tem implicações. Por exemplo: são a estabilidade e a mudança compatíveis, parte de uma mesma realidade (dualidade), ou processos mutuamente exclusivos (dualismo)? Pode parecer irrelevante mas quantas organizações não gostariam de trocar o dualismo pela dualidade?
Questões fracturantes com amplo interesse e fraco impacto
A revista "Visão", pelo Natal, fazia uma pergunta: à luz dos critérios de hoje, seria Jesus Cristo um homem de direita ou de esquerda? Naturalmente, a maior parte das respostas vai no sentido do dualismo: de direita (para os respondentes de direita) ou de esquerda (para os de esquerda). À luz da dualidade: por que seria Jesus de direita ou de esquerda se podia ser das duas ao mesmo tempo? Donde, aliás, a pergunta da revista.
PUB
Questões fracturantes com potencial impacto
A este nível, as discussões deixam de ser exercícios de saudável debate intelectual e adquirem contornos ideológicos. Dois textos, um de Jeffrey Pfeffer (da U. Stanford, publicado na "BusinessWeek"), outro de Henry Mintzberg (da U. McGill, Montreal, no "Wall Street Journal"), atingem este nível. Pfeffer defende a abolição das avaliações de desempenho; Mintzberg o fim dos bónus dos executivos. Eis dois pequenos textos que, apesar de serem escritos por professores, não são, digamos, "meramente" académicos.
Questões fracturantes perigosas
PUB
Neste caso, a fractura define a vida. O debate dá lugar ao combate. Os oponentes deixam de querer compreender o ponto de vista do outro e cerram fileiras de forma cega. Visto de fora, o seu combate parece atingir o limiar da irracionalidade. Mil razões podem servir para justificar o injustificável. O combate fracturante não é necessariamente um bom caminho, especialmente quando a questão fracturante aumenta a coesão de cada uma das partes e reforça a rivalidade entre elas.
Vem esta escala a propósito da insistência recente na nossa sociedade nas ditas causas fracturantes e da leitura de um livro belo e triste chamado "O violoncelista de Sarajevo", de onde retiro uma passagem: "Sempre sentira uma ligeira vergonha pelo facto de, ao longo de uma geração, de todas as vezes que o mundo pensava em Sarajevo, era como sendo um local de assassínio. Não tem a certeza do que o mundo irá pensar da cidade agora que milhares foram assassinados. Suspeita que aquilo que o mundo mais deseja é não pensar nisso de todo."
Sarajevo continua a ser uma magnífica cidade. Apesar dos estragos provocados por disparos de vários tipos de armas, permanecem visíveis as linhas de demarcação/fractura entre o mundo cristão e o muçulmano. Ao virar uma esquina sentimos ter mudado de mundo. As linhas de fractura, apesar da magia que proporcionam, podem ser perigosas quando são excessivamente enfatizadas e vistas como um valor em si mesmo. O debate franco de ideias é a base da democracia - nas organizações e nas sociedades. Todavia, enquanto valor norteador, a tolerância é superior à fractura. Fracturemos, pois, mas sem deixar de tentar compreender o outro lado. Em busca, se possível, da dualidade. Que talvez não seja, bem vistas as coisas, uma questão tão "meramente" académica como dei a entender no início deste texto.
PUB
Professor catedrático, Faculdade de Economia, Universidade Nova de Lisboa Assina esta coluna quinzenalmente à sexta-feira
Professor catedrático, Faculdade de Economia, Universidade Nova de Lisboa
Mais Artigos do autor
Mais lidas
O Negócios recomenda