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Miguel Pina e Cunha 06 de Abril de 2017 às 20:50

Elogio de uma certa loucura 

Costuma dizer-se que de génio e de louco todos temos um pouco. Uns têm mais de uma característica e outros de outra, mas a ideia é que a genialidade incorpora uma faceta de loucura.

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Os líderes mais sábios sabem como usar essa loucura de forma controlada. É frequente, no contacto com gestores portugueses, compreender que temos uma má relação com os desvios à maneira séria de fazer as coisas. Mas as melhores organizações por vezes afastam-se do trilho da sisudez. Aqui ficam alguns exemplos.

 

Elvis aviador

 

Uma das empresas mais celebradas pela qualidade da sua gestão é a Southwest Airlines. Trata-se de uma companhia altamente competitiva e lucrativa, moldada por Herb Kelleher, um gestor genial que instilou na empresa uma maneira peculiar de fazer as coisas. Kelleher defendia, por exemplo, que o trabalho é demasiado importante para ser estragado pela ausência de humor. Dava ele mesmo o mote: apareceu em anúncios de recrutamento vestido de Elvis. A ideia: venha trabalhar numa empresa onde já viram o Elvis! O que não falta são candidatos.

 

Palhaço rico

 

O Cirque do Soleil é um negócio tremendo. Foi começado por um artista de rua visionário chamado Guy Laliberté. Certo dia, Laliberté confidenciou ao seu braço-direito gestionário, o CEO Daniel Lamarre, que achava que o Cirque estava a ficar demasiado empresarial. Para mitigar o que via como um problema, disse a Lamarre: contratei-te um novo empregado. Tratava-se de Madame Zazou, um palhaço devidamente vestido que se passeia pela sede dispensando pipocas, fazendo os seus números e tendo liberdade para desempenhar o papel de bobo da corte, nomeadamente fazendo troça da equipa de gestão de topo.

 

Momentos "oops"!

 

Sara Blakely, fundadora e CEO da Spanx, instituiu a celebração daquilo a que chama momentos "oops", ou seja, coisas que se revelaram erradas. A ideia é que a assunção do que se faz mal é a melhor maneira de passar a fazer bem. Este colunista do Negócios ouviu outras histórias como a do chefe de equipa que, no Brasil, colocava à sexta-feira na secretária de um dos seus colaboradores um boneco representando o "boi na sombra", uma figura típica que assinalava o empregado que tinha levado a semana mais relaxadamente. A mensagem misturava humor e exigência, uma espécie de cartão amarelo sem sorrisos amarelos. Escutou ainda outras histórias, como a de gestores de topo que se disfarçavam para poderem ver a realidade tal como ela é, fora da bolha, para usar a expressão de Hal Gregersen, de cujo artigo foram retirados alguns dos exemplos aqui referidos.

 

Costuma também dizer-se que trabalho é trabalho, conhaque é conhaque. Certo, mas trabalho sem alguma diversão é uma punição das antigas. Um verdadeiro "tripalium" que transforma a etimologia na radiografia de muitas empresas contemporâneas.

                        

Para continuar a explorar o assunto:

 

Gregersen, H. (2017). Bursting the CEO bubble. Harvard Business Review, March, 76-83.

 

Rego, A. & Cunha, M.P. (2017). Jobs, Musk, Bezos: Génios insanos? Lisboa: Sílabo.

 

Professor na Nova School of Business and Economics

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

(Correcção: O texto inicialmente foi assinado por Joaquim Pina Moura, quando se trata de Miguel Pina e Cunha. Pedimos desculpa aos visados.) 

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