Sérgio Figueiredo: «O pentágono europeu»
A Europa está a ganhar uma Constituição própria. É um marco formidável, com um significado impressionante pois, ela aí está!
A tão esperada Europa política, a ganhar impulso para um salto na história, reformando instituições, recompondo equilíbrios de poderes, criando o esqueleto de um sistema federal.
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Mas que salto? E que federalismo? A única coisa federal que a União, ou parte dela, tem até hoje é uma moeda, com um banco central atrás. Agora, na outra ponta, está a erguer-se um novo edifício institucional e normativo.
Entre uma e outro, entre a união monetária e o projecto constitucional, permanece o vazio. Para não dizer o caos...
Países grandes e países pequenos vão entrar na fase decisiva da disputa dos poderes. Falando claro, está aberto o caminho para a consagração do poder dos mais fortes. É natural. Daí a necessidade de ter uma Constituição. Para evitar abusos. Desde sempre que são os mais fracos que precisam do Direito.
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Este é o processo político. Mas a Europa existe sobretudo enquanto grande espaço económico. Que é invulgarmente assimétrico no seu território. E não tem sequer paralelo com os próprios EUA, onde a diferença entre os estados mais ricos e os mais pobres é de 1 para 1,5; enquanto que, na UE a 25, essa diferença é de 1 para 4. Antes da adesão dos dez novos países, a União Europeia já concentra metade da riqueza numa área com apenas um terço da população.
É uma zona restrita, com a forma de pentágono e vértices em Londres, Paris, Milão, Munique e Hamburgo. Com Alargamento, a assimetria vai aumentar. Sem federalismo fiscal nesta geração e com o dinheiro das políticas de coesão a deslocar-se para Leste, é fácil perceber que vivemos numa grande nebulosa, que esta um dia subitamente desaparece e, só aí, iremos aperceber-nos que nos afastámos ainda mais do “pentágono”.
E que este entretanto reservou, acumulou e segregou para si a maior fatia do desenvolvimento que, não tenhamos dúvidas, os novos países vão trazer ao conjunto da União.
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Dentro de um ano, Portugal está numa situação absolutamente nova, porque deixou de ser o último da tabela. O efeito é uma estatística simples, o impacto psicológico é que é complicado. Sempre estivemos no fim, os portugueses habituaram-se a isso na relação com a Europa e viciaram-se num jogo mental muito linear: somos os últimos, portanto paguem-nos.
Por isso é que, quase vinte anos depois, a Europa continua infelizmente a ter uma só tradução em português: subsídios. Como passam a existir mais últimos depois de nós, é razoável, é normal, é até desejável que os fundos estruturais passem a ajudar outros.
O que nos conduz à mesma questão de sempre: como Portugal pode superar rapidamente aquela zona crítica, a partir da qual ganha por si próprio a capacidade de propulsão. Não é um problema de Constituição. É de resistência à força centrifugadora do “pentágono”. Sozinhos não temos massa crítica. Mas a Península Ibérica tem.
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Portugal tem o seu centro quando ligar o Atlântico à Espanha. E é este o dilema nacional: como travar a entrada do vizinho que não podemos deixar fugir?
Por Sérgio Figueiredo,
Director do Jornal de Negócios
Publicado no Jornal de Negócios
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