Bancos e Economia - (VI)
1. Nos artigos anteriores chamei a atenção para três acontecimentos que ficam a marcar a história da banca portuguesa na última década: a contracção dos fluxos de crédito bancário imposta pela troika; a mobilização de fundos públicos substanciais para estabilizar o mercado bancário; por último, a intervenção no BES e a alienação do banco que lhe sucedeu.
As "ondas de choque" provocadas por estes acontecimentos ainda não se extinguiram, com um impacto de extrema complexidade transversal a todo o sistema económico. Para além dos efeitos negativos mais imediatos - contracção do financiamento do tecido produtivo e deterioração dos níveis de confiança da generalidade dos aforradores, produtores e investidores - as pressões que se abateram sobre o mercado bancário estão a induzir mudanças estruturais, com um alcance ainda difícil de avaliar.
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O modelo tradicional de financiamento da generalidade das nossas empresas - ele próprio indutor de um tecido produtivo atomizado e pouco eficiente - encontra-se fragilizado e sob pressão crescente. Em contrapartida, estão a multiplicar-se os fundos que procuram preencher o vazio deixado pelo recuo do financiamento bancário, no momento em que os bancos aceleram a "limpeza" dos seus balanços. Fundos atraídos pela oportunidade de ganhos substanciais, ao passar a controlar empresas que se debatem com dificuldades financeiras agudas mas economicamente viáveis. Situação que, embora corresponda a uma evolução natural do mercado, coloca dúvidas e interrogações: vai processar-se de forma controlada de modo a preservar o emprego e a capacidade produtiva e a atrair às empresas gestores qualificados? Vai contribuir para um aumento do investimento e da inovação, cruciais para conseguir os aumentos de produtividade necessários ao crescimento da economia? Vai favorecer um movimento de racionalização sectorial e de ganhos de dimensão das empresas? Questões que assumem uma importância crítica, mas que estes Fundos tendem a considerar à luz de uma preocupação principal: maximizar, em tempo útil, o retorno dos capitais que os investidores lhes confiam.
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Neste quadro e tendo presente os bloqueamentos que estão a travar o crescimento económico, compreendemos o interesse em reorganizar e modernizar o sistema financeiro. É crucial diversificar as fontes e os instrumentos de financiamento do tecido produtivo - em particular das PME - de modo a apoiar o financiamento da inovação e os aumentos de capacidade produtiva. Questões para outro dia.
2. Por último, uma breve observação em relação à situação do banco herdeiro do BES. Foi recentemente noticiado que a gestão terá adquirido uma participação indirecta no capital do banco.(*) A ser assim, a questão do controlo das condições em que a garantia pública é activada ganha uma acuidade acrescida. Até os eurocratas que controlaram a venda entenderão que tal controle - para ter um mínimo de eficácia - passa necessariamente por ter na Administração quem represente e defenda os interesses dos 25% de capital que fogem ao controle da Lone Star.
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(*) Expresso de 13.04.19
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Economista
Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico
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