[556.] Super Bock, Sagres

O Infante sonharia com a costa africana, Bento, olhando para poente, sonha com a conquista do Brasil, além-Atlântico. Acreditem, acreditem. E bebam, bebam, juntem-se para beberem mais e não estarem sós na vossa liberdade individual.

 

Quanto mais nos individualizamos, mais precisamos de momentos comunitários. As cervejeiras estimulam esta necessidade de estarmos juntos com outros numa sociedade que nos dá cada vez mais liberdade, quer dizer, que nos deixa sermos cada vez mais sozinhos.

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A Super Bock inventa a ficção de um rapaz e dois amigos que pedem três imperiais num bar e de imediato ficam integrados no seio da comunidade ali presente. O bar está cheio. Um homem que joga xadrez numa mesa começa a trautear ao jeito de "pom pom pom" a melodia do último andamento da suite orquestral "Peer Gynt", de Grieg. Este tema, dos mais famosos da música erudita, serve à perfeição os objectivos do anúncio: é curto, a música avança em crescendo, tem ritmo bem vincado e é fácil de trautear.

 

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Depois do jogador de xadrez, para surpresa inicial dos rapazes, toda a gente se junta na cantoria, novos e velhos, jogadores de bilhar, cozinheiros e um grupo de homens que está a ver a TV (sugerindo-se que é um jogo de futebol). A música passa para a rua (lisboeta), sendo apropriada por uma banda. No bar, todos se juntam a cantar, ritmando com os pés. A música permite o uníssono, quer dizer, todos em comunidade, na mesma acção. No final, o protagonista bebe o primeiro gole da cerveja e a voz off diz "E quando a cerveja sai perfeita, algo extraordinário acontece". Não se explica o "algo", pois presume-se que é a própria ficção mostrada, a capacidade da cerveja de transfigurar a vida comum num evento comunitário.

 

A Sagres, patrocinadora da Selecção Nacional de Futebol, tem o que a Super Bock não tem, o principal denominador comum dos portugueses. O slogan da marca, sintetiza a fusão pátria-povo-bola: "Somos Selecção, somos Portugal". O primeiro tele-anúncio da Sagres relativo ao Mundial do Brasil pode, por isso, puxar dos galões patrióticos, sem necessidade de se centrar na cerveja, que só aparece quando grupos assistem a um jogo da Selecção.

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O anúncio televisivo dá seis ordens aos portugueses, lidas pela voz off, mas também devidamente inscritas no ecrã, com número e tudo. A primeira é "Onde quer que estejam puxem por nós" e mostra, numa hipérbole um pouco ridícula, pescadores no mar alto assistindo a um jogo ao mesmo tempo que puxam as redes. Todo o anúncio, aliás, assume visualmente que os observadores não terão outra hipótese senão ver os jogos pela TV, situação que é mostrada por diversas vezes. A segunda ordem é totalitária, tipo calem-se: "Nunca duvidem do onze inicial". A terceira segue pelo caminho habitual da sociabilidade acervejada, presente no vídeo da Super Bock: "Não vejam os jogos sozinhos". O patriotismo vem nas ordens seguintes: "Cantem com as mãos sobre o peito" e "Orgulhem-se das nossas cores, cubram tudo de vermelho e verde". Estimulando a simbiose dos portugueses com a Selecção, a sexta ordem retoma a primeira: "A perder ou a ganhar, não parem de nos apoiar". Curiosamente, a parte do "a perder ou a ganhar" é apenas dita, não aparece escrita, para omitir a palavra "perder", que, escrita, ganharia um valor de fixação de verdade ausente na oralidade. 

 

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O anúncio termina com uma sétima ordem, não escrita, que traz para o futebol, como é hábito, a fé: "E acreditem, acreditem até ao último segundo". A repetição do "acreditem", além da função poética, tenta inculcar a fé e a esperança nos observadores.

 

Enquanto isto se diz e se escreve, a portugalidade é materializada em várias imagens: o verde e vermelho, o hino, que não se ouve, mas é visível nos jogadores que o cantam num estádio, visto no ecrã dos pescadores, num homem que leva a mão ao peito em alguém que faz no peito uma tatuagem do símbolo da Selecção Nacional, com o escudo e as quinas, nos cachecóis e no grito do narrador do jogo na TV "Golo! Portugáleee!"

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O discurso, quer o dito quer o mostrado, é atribuído à própria Selecção, o que, na montagem da ficção do anúncio, se concretiza noutra hipérbole ridícula: Paulo Bento na Ponta de Sagres, como se fosse o Infante D. Henrique olhando o mar das conquistas. O Infante sonharia com a costa africana, Bento, olhando para poente, sonha com a conquista do Brasil, além-Atlântico. Acreditem, acreditem. E bebam, bebam, juntem-se para beberem mais e não estarem sós na vossa liberdade individual.

 

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eduardocintratorres@gmail.com

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