Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 21 de janeiro de 2020 às 20:25

As matrizes e os matizes (ou a história universal de Rebecca)

O caminho que os partidos estão a percorrer, com a obsessão do posicionamento e da pureza, é um caminho devastador, porque é contraditório com a natureza humana e o sistema que melhor a compreende e realiza - a democracia.

A imprensa britânica do fim-de-semana chamou-me a atenção para o caso da deputada de esquerda que está a ser criticada por ter uma posição sobre o aborto mais restritiva do que aquela que o seu partido acha aceitável. Parece uma notícia longínqua, sobre uma curiosidade isolada e passageira. Na verdade, é uma história universal e paradigmática do tempo em que vivemos.

 

Rebecca Long-Bailey é deputada do Partido Trabalhista e uma das favoritas a suceder ao líder demissionário Jeremy Corbyn. O seu favoritismo resulta precisamente de ser a escolhida da ala dura marxista que esteve com Corbyn. Long-Bailey segue a mesma linha crítica do centrismo de inspiração blairista, que acha que traiu os valores do partido e do seu eleitorado. É jovem, é de Manchester e os seus vídeos de campanha, que parecem videoclipes para adolescentes sofisticados, têm o som das bandas rock emblemáticas dessa cidade. Tudo isto lhe dá uma aura de radicalismo hiperprogressista, com a qual ela é consequente nos seus discursos.

 

Acontece que Rebecca Long-Bailey também é católica. E por isso diverge do seu partido em matérias como o aborto. Durante a campanha em curso soube-se que não só se opõe a aumentos dos prazos de interrupção legal da gravidez como é mesmo a favor da redução do prazo previsto para os casos de malformação do feto, actualmente mais dilatado. Diz Long-Bailey que a vida de uma pessoa não tem menos dignidade só porque essa pessoa é portadora de uma deficiência. Esta posição foi considerada "profundamente ofensiva" pelos seus camaradas. Paul Mason, conhecido ex-jornalista da BBC, disse não querer "a política dos Trabalhistas relativamente aos direitos reprodutivos ditada pelo Vaticano".

 

Não escondo um certo prazer em ver uma sectária a ser vítima do sectarismo que sempre defendeu. Mas o mais importante desta história é o que ela nos diz sobre o ser humano e as suas convicções, e sobre os partidos políticos e a sua capacidade de representação do eleitorado.

 

Se partirmos do princípio de que um marxista não costuma ser católico, o caso de Rebecca Long-Bailey parece uma raridade. Mas se nos lembrarmos que as pessoas são realidades complexas, cada uma com ordens de prioridades distintas e nuances de pensamento exclusivas, e que por isso a Humanidade - ou o "eleitorado" - é uma geometria infinitamente variável de valores, ambições, preocupações e preconceitos, então o caso é de uma normalidade absoluta. Isto também tem a ver com a dignidade intrínseca da pessoa - cada qual um ser único e irrepetível, como ensina o catolicismo de Long-Bailey.

 

O problema é a dificuldade que cada vez mais os partidos têm em encaixar a diversidade do mundo. Cada vez mais os partidos se entretêm com a busca arqueológica das suas matrizes fundadoras, quando o que deveriam estar a fazer é a tentar compreender os matizes que essas matrizes autorizam. Porque, com a democratização e a segmentação dos fluxos de informação, o mundo será cada vez menos simples.

 

O caminho que os partidos estão a percorrer, com a obsessão do posicionamento e da pureza, é um caminho devastador, porque é contraditório com a natureza humana e o sistema que melhor a compreende e realiza - a democracia.

 

Percebo a crítica que se faz aos políticos "catch-all" que tentam agradar a todos: o oportunismo, a fraqueza moral, o risco de descaracterização. Mas também é preciso pôr essa crítica no devido lugar. Todos os partidos têm de querer convencer o maior número possível de pessoas. Convencê-las de que os seus valores são os melhores para a comunidade no seu conjunto. Sim, é suposto que os partidos tenham na base uma certa ideia de comunidade. Uma ideia própria - e por isso distintiva e oposta à dos outros partidos -, mas ainda assim uma ideia de comunidade. Daí que tenham de falar para todos, não apenas para as claques.

 

É também daqui que vem a crise de representação democrática: os partidos estão a esquecer-se desta sua função de agregação comunitária. No futuro teremos cada vez mais partidos a falarem para cada vez menos gente. No meio estará uma multidão de pessoas, perdidas e desinteressadas, que não se sentirão suficientemente simples, genuínas e dignas de votar em qualquer um deles. 

 

Advogado 

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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