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Luís Pais Antunes - Advogado lpa@plmj.pt 09 de Julho de 2014 às 19:20

Mais do que um jogo

Foi apenas um jogo de futebol com um resultado completamente invulgar, tendo em conta as equipas em presença e o contexto em que se desenrolou.

 

Refiro-me naturalmente à vitória arrasadora da selecção alemã sobre o "escrete" brasileiro nas meias-finais do Mundial que se aproxima do seu fim. Provavelmente é um momento irrepetível ou muito dificilmente repetível. No desporto de alta competição, entre equipas de topo, há vitórias e derrotas, dias piores ou melhores, surpresas maiores ou menores, mas só muito – mas muito mesmo – raramente ocorrem vexames com a dimensão do que aconteceu em Belo Horizonte na noite de terça-feira.

 

Outros, com maior ciência, irão detalhar a análise de um evento que ficará para a história (do futebol e não só) por razões que, de tão óbvias, me abstenho de detalhar. Embora todos nós tenhamos algo de treinador de futebol (tal como de médico e de louco…), não vou discorrer sobre os pormenores técnico-tácticos, as transições ofensivas, os duplos pivôs, as basculações e outras expressões que fazem da linguagem futebolística um objecto privilegiado para o estudo da semiótica.

 

Pese embora a simpatia generalizada pela definição simplista dada por Gary Lineker a seguir à meia-final entre ingleses e alemães no Mundial de 1990 ("O futebol é um jogo simples: são 22 homens a correr atrás de uma bola durante 90 minutos e no final ganham os alemães"), o que se passou naquele relvado vai muito para além disso. Há, desde logo, uma dimensão interna ao próprio jogo/competição que merece ser estudada, no plano da organização, dos métodos de trabalho, da estratégia, dos objectivos e da postura dos atletas (será mera coincidência o facto de algumas equipas com maior sucesso não se caracterizarem pelo número significativo de jogadores com penteados estranhos e uma quantidade invulgar de pinturas corporais?). O acaso, a temperatura, a humidade ou os enganos dos árbitros são certamente incómodos, mas parecem curtos para explicar a acumulação anormal de reacções vagais que afectaram muitos dos participantes…

 

Existe também – e sobretudo – uma dimensão externa que promete tempos agitados, muito para além dos efeitos imediatos de uma humilhação e do fim de um sonho de glória. Passado o "efeito Copa", renasce o risco sério de uma crescente instabilidade no Brasil cujos sinais são visíveis há já demasiado tempo. Todos os pretextos irão servir para as manifestações de desagrado que se vão repetir ao longo das próximas semanas/meses que nos separam das eleições. A "Folha de São Paulo" diz que "Dilma teme prejuízo na economia e na eleição", enquanto invoca o risco de as coisas se agravarem ainda mais no caso de o Brasil se cruzar com a Argentina no jogo da consolação e sofrer uma nova humilhação. Celso Ming, no "Estadão", alerta que "está mais do que na hora de cair na real" e que "inflação alta demais e crescimento perto de zero serão os temas da campanha eleitoral, que será curta, mas intensa".

 

Foi um simples jogo de futebol, aparentemente insignificante ao lado das muitas razões de queixa que largos milhões de brasileiros têm dos graves erros de gestão da coisa pública e do desvario despesista (e não só) dos últimos anos. Mas é normalmente das coisas simples que nascem as grandes complicações…

 

Advogado

 

Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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