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Manuel Falcão - Jornalista 15 de Fevereiro de 2019 às 10:36

Estamos todos pendurados

O conflito entre a ADSE e os hospitais privados levanta uma situação curiosa. O Estado quer preços e condições especiais quando usa serviços privados.

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Back to basics
Quando era novo, queria ser mais velho; agora que sou mais velho, não tenho tanta certeza disso.
Tom Waits

Estamos todos pendurados
O conflito entre a ADSE e os hospitais privados levanta uma situação curiosa. O Estado quer preços e condições especiais quando usa serviços privados. Mas, porventura, o Estado cobra menos impostos ou oferece vantagens a quem lhe faz descontos? Na realidade, não é isso que se passa: o Estado paga atrasado, para além dos prazos convencionados, altera regras a seu bel-prazer, não faz descontos em impostos, aumenta-os quando lhe apetece, muitas vezes cobra abusivamente e põe a máquina fiscal a executar dívidas, a empatar o funcionamento dos tribunais e a contestar as suas decisões de forma sistemática quando é reconhecida razão a privados. O Estado quer que todos sejam cumpridores, mas ele próprio não cumpre e não dá o exemplo. Este é um dos principais problemas com que a sociedade portuguesa se debate, a herança do poder absoluto do Estado. Durante todas as décadas que levamos de democracia, os partidos do arco do poder e os sindicatos que nele se movimentam acomodaram-se a isto mesmo, fomentaram a situação. E agora todos estão incomodados com aquilo a que chamam movimentos inorgânicos - leiam-se fora do controlo do Estado -, quer sejam sindicatos, quer sejam novas organizações políticas. O exercício da cidadania fora dos cânones estabelecidos tornou-se uma heresia. É o retrato de um regime decadente.

Semanada
Mais de metade dos portugueses com idades entre os 24 e os 75 anos têm pelo menos uma doença crónica os trabalhadores precários atingiram o valor mais alto desde 2011 os bancos emprestaram quase 10 mil milhões de euros para a compra de casa em 2018, 27 milhões por dia, um aumento de 19% no crédito à habitação no crédito ao consumo, em dezembro, foram emprestados 396 milhões de euros, o que compara com os 382 milhões de euros concedidos um mês antes no total, em 2018, as novas operações de crédito ao consumo ascenderam a 4.660 milhões de euros, mais 10,3% do que em 2017; os portugueses pedem oito milhões de euros de crédito por dia para compra de carro as dívidas com cartões de crédito atingiram 3,25 mil milhões de euros e há 137 mil devedores em incumprimento o número de apostadores em jogos online já ultrapassou o milhão mais de dois terços dos autarcas portugueses são favoráveis à regionalização a curto prazo o conselho de administração da Assembleia da República deu parecer negativo a uma proposta de estudos para avaliar a descentralização João Cravinho, presidente da Comissão Independente para a Descentralização, afirmou estar a ponderar a sua demissão António Costa afirmou que só pretende debater a regionalização na próxima legislatura o Governo deixou de fixar metas ambientais para veículos do Estado.

Dixit
"Para Rui Rio, o papel histórico da direita portuguesa reduz-se a isto: permitir ao PS governar sem precisar dos votos do PCP e do BE."
Rui Ramos

Adoro imprensa
Sou um apaixonado leitor de imprensa, quer de jornais quer de revistas, e gosto de seguir o que se publica. A edição mais recente da revista Time tem por título de capa "The Art Of Optimism" e apresenta 34 pessoas que são relevantes e inspiracionais, na sociedade norte-americana, mostrando o que estão a fazer. A edição é cuidada e permite-nos ter de forma sintética um retrato daquilo que tantas vezes passa despercebido. O conceito editorial foi dirigido por Ava Duvernay, uma realizadora e argumentista norte-americana. Coube-lhe seleccionar os 34 optimistas das mais diversas áreas - actores, músicos, fotógrafos, empreendedores, de diversas gerações. A revista está nos quiosques de todo o mundo e foi a minha companhia no fim de semana passado. É uma prova do que a imprensa pode fazer, criando memória futura ao mesmo tempo que reflecte sobre o presente. Entretanto, a propósito, um estudo divulgado esta semana pela Marktest mostra que, em Portugal, a imprensa continua a ter um importante papel como fonte de informação para segmentos relevantes da população. De acordo com a Marktest, a audiência média de imprensa no segundo semestre de 2018 foi de 51,3%, que corresponde à percentagem de portugueses que leu ou folheou a última edição de um qualquer título de imprensa analisado. Os jornais registaram 2,6 milhões de leitores neste período enquanto as revistas contaram com 3,3 milhões de leitores. Mas o mais significativo é que as pessoas entre 35 e 44 anos, quadros médios e superiores e os indivíduos das classes mais elevadas, são quem tem mais afinidade com este meio, apresentando índices de audiência média de imprensa superiores ao universo.

A arte de ensinar
Agostinho da Silva é uma das figuras maiores do pensamento português do século XX, bem mais interessante que muitos outros condecorados que por aí andam, carregados de presunção e enfado. Agostinho da Silva era um pensador e um divulgador, alguém que tinha enraizada a noção da importância da transmissão do saber, da divulgação popular do conhecimento. Doutorado na Universidade do Porto em 1929, com apenas 23 anos, vai depois estudar na Sorbonne e regressa para leccionar no ensino secundário em Aveiro. Entre meados dos anos 1930 e início dos anos 1940, a sua actividade de divulgação é enorme, publicando numerosos ensaios e artigos. "Páginas Esquecidas", a colectânea agora publicada pela Quetzal a partir de uma selecção de textos de Helenas Briosa e Mota, permite descobrir essa parte da sua obra. Estes textos são os que deram a conhecer Agostinho da Silva aos portugueses naquela época e que o levaram a ser preso em 1943 pela polícia política - na altura, ainda a PVDE. Desgostado com o que se passava em Portugal partiu para o Brasil, onde leccionou, escreveu e trabalhou até ao seu regresso em 1969, já com Marcelo Caetano no poder e por influência de Adriano Moreira. Muitos dos textos aqui incluídos foram publicados pela Seara Nova, outros em edição de autor, muitos em pequenos fascículos.

Na época, realizou conferências e publicou duas centenas de títulos sobre a história da cultura portuguesa, filosofia, literatura e divulgação cultural, nomeadamente nos Cadernos Para A Mocidade, Cadernos de Informação Cultural, e Introdução Aos Grandes Autores. É um formidável legado, como sublinhou Helena Briosa e Mota na introdução à recolha de textos agora publicada. Aqui estão meia centena dos seus textos mais marcantes dessas páginas esquecidas, desde as palestras radiofónicas sobre a História do Mundo, à apresentação da obra de nomes como Van Gogh, Goya ou Cervantes, passando pelo notável "O Sábio Confúcio" e a série dedicada aos construtores do mundo novo e aos clássicos da História.

Arco da velha
O Parlamento vai passar a ter um Comité de Ética que avaliará a conduta dos deputados, mas os partidos são contra a aplicação de multas aos infractores.

A bateria no centro do trio
Este disco é de um baterista, com bons pergaminhos ainda por cima - Bill Stewart. Mas o primeiro som que se ouve é o do saxofone de Walter Smith III, que é o segundo elemento do trio completado pelo baixista Larry Grenadier. Stewart é considerado um dos grandes bateristas contemporâneos e este novo álbum "Band Menu" é bom exemplo das suas capacidades. O diálogo que estabelece constantemente com o saxofone e o baixo é entusiasmante. Nalguns momentos parece que há uma voz que impõe um ritmo, mas nunca se esquece da melodia. A forma como toca nos pratos da bateria é de uma enorme elegância. Neste "Band Menu" há sete temas originais do próprio Bill Stewart, outro de Smith e uma versão de um de Bill Evans ("Re:Person I Knew", com um notável desempenho do saxofone de Smith). Há uma construção comum, que parte da soma dos três instrumentos, cuja presença se intensifica sem nunca se atropelarem, sempre com a bateria de Stewart a ocupar um lugar central, a coordenar todo o trabalho do trio. Bill Stewart é um daqueles bateristas que desenvolveu um estilo muito próprio e reconhecível, com uma enorme sensibilidade graças a um movimento rápido mas contido das mãos. "Think Before You Think", a faixa final do álbum, é um exemplo da musicalidade e improvisação que se consegue quando três talentos se juntam no jazz. Disponível no Spotify.

Entre a empada e a mista
Empadas há muitas, mas empadas de vitela exemplares há poucas. Esta semana tive o prazer de descobrir um exemplar dessa espécie em vias de extinção. O recheio de vitela estava perfeito de consistência e tempero, a massa folhada obedecia a todas as regras, era fresca, leve e estaladiça. Trouxe-me à memória sabores antigos. Sabia mesmo a carne de vitela, suculenta, não era uma coisa compacta e sensaborona. A descoberta ocorreu na Fermenta, em pleno Bairro de S. Miguel, Alvalade, no início da Rua António Ferreira. A Fermenta é um café com fabrico próprio que, além das empadas e de uns bons croquetes, apresenta uns croissants muito atraentes, importados da histórica Padaria Ribeiro, do Porto, nas suas diversas variantes - com destaque para os amanteigados. Além disso, dispõe diariamente de pão da Gleba, nas variedades trigo alentejano, trigo barbela e centeio, além das edições especiais. Aceitam encomendas. E as torradas e tostas mistas da Fermenta também são feitas em pão da Gleba - e acreditem que uma tosta mista assim preparada ganha toda uma outra dimensão. No local, também está disponível a Tarte e biscoitos da mesma Padaria Ribeiro. O café é italiano, Vergnano, o chá é Ahmad e a cerveja é a artesanal Musa. Telefone 938840236.

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