Luís Marques Mendes 14 de Novembro de 2021 às 20:53

Marques Mendes: "Há um risco sério de instabilidade e ingovernabilidade no pós-eleições"

No seu espaço de opinião habitual na SIC, o comentador Marques Mendes fala sobre a terceira dose da vacina, o caso de tráfico de diamantes e os cenários pós-eleições.

A TERCEIRA DOSE DA VACINA

  1. Importância da vacinação e da terceira dose. Se alguém tem dúvidas da importância da vacinação e do seu reforço, basta ver estas duas realidades:
  2. Primeiro: a comparação entre a pandemia em Portugal em 12 de Novembro de 2020 e agora, um ano depois. Há um ano tínhamos 5839 novos casos, 2794 internados e 78 mortos por Covid. Hoje temos 1751 casos, 411 internados, 3 mortos por Covid. Qual é a explicação para esta brutal melhoria? A vacinação maciça.
  3. Segundo: a vacinação na Europa e a sua relação com o número de mortes por Covid. Qual é a conclusão a tirar? Quanto mais vacinados os países estão, menor é o número de mortes por Covid que apresentam.

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  1. Face a tudo isto, há que fazer três apelos:
  2. Um apelo às autoridades: deixem-se de lateralidades e discussões inúteis (saber se o Almirante deve ou não voltar; saber se podemos ter de confinar de novo). Concentrem-se no essencial. Acelerem a vacinação. Aumentem o ritmo da terceira dose. Já perderam tempo de mais. Temos que chegar ao Natal com os idosos acima de 80 anos vacinados.
  3. Outro apelo ás autoridades: falem verdade. Não enganem as pessoas. Andar a dizer, como sucedeu algumas vezes, que todos os cidadãos acima dos 65 anos estariam vacinados até ao Natal é uma impossibilidade. Porque muitos foram vacinados só em Julho e cumprindo a regra dos seis meses, a terceira dose só pode ser tomada em 2022 (cerca de 800 mil pessoas).
  4. Um apelo aos idosos e familiares de idosos: tomem rapidamente a terceira dose. Levem os vossos familiares a tomá-la. Pode ser a diferença entre a vida e a morte. E a forma de evitar novos confinamentos e restrições.

OS MILITARES E O TRÁFICO DE DIAMANTES

 

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Um caso de polícia. Um caso político. O uso de mentiras. Uma demissão justificada.

  1. Um caso de políciaEste caso é gravíssimo para a imagem das FA. Cá dentro e lá fora. Não vale a pena fingir, disfarçar ou desvalorizar. Claro que é um caso pontual e isolado. E foram as autoridades militares a denunciá-lo. Mas não deixa de manchar a imagem das FA, até porque é um caso que ocorreu no quadro de uma missão internacional das Nações Unidas. O que é uma agravante séria.

  1. Um caso político: PM e PR não tinham conhecimento deste caso? Custa-me muito a acreditar que o MDN não tivesse informado o PM. Por duas razões: pela opinião que tenho do Ministro e pela experiência que tenho de ter sido várias vezes Ministro. Perante uma situação destas, qualquer Ministro reporta de imediato ao PM.
  • Mas, admitindo que a versão oficial é verdadeira, então estamos perante uma situação igualmente grave: significa que o MDN falhou ao não informar o PM. Tinha que o fazer. Pior: informou a ONU mas não informou o Chefe do Governo. É transparente com as Nações Unidas e opaco com o PM. Isto é inaceitável num Ministro. Um Ministro que tem este comportamento só tem uma saída: demitir-se ou ser demitido. Era o que Cravinho devia fazer – tomar a iniciativa de sair. Era o que o PM e o PR deviam exigir – a saída do Ministro.
  1. Até por uma outra razão: a mentira das explicações. Segundo a versão oficial, esta informação não terá sido dada ao PM e ao PR porque era matéria de segredo de justiça.  Mentira pegada. Primeiro, se a informação não podia ser dada ao PM e ao PR também não podia ser dada à ONU(as obrigações de segredo de justiça aplicam-se a todas essas entidades); segundo, a informação que o MDN devia ter dado ao PM era apenas esta: a de que havia suspeitas da prática de um crime por militares no estrangeiro e que essas suspeitas tinham sido participadas às autoridades. Isto não é segredo de justiça.
  2. Finalmente: segundo o Expresso, PR e PM estão furiosos com Cravinho. Mais uma razão para o Ministro se demitir. É o que faz uma pessoa com carácter, que não se agarra ao lugar. E, entretanto, divulgar os pareceres jurídicos que diz ter. Ou é outra falta á verdade ou então temos de conhecer essa barbaridade.

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CENÁRIOS PÓS-ELEITORAIS

 

  1. Nunca como desta vez se discutem tanto os possíveis cenários pós-eleições. É compreensível: as pessoas estão preocupadas com a perda de estabilidade. Vejamos os quatro principais cenários:
  2. Nova Geringonça
  • É a solução preferida por eleitores de esquerda.
  • Só que o PCP a matou com o chumbo do OE. Não ressuscita em 2022.
  • Mesmo que a esquerda continue maioritária na AR.
  • Cenário altamente improvável.
  1. Bloco Central
  • É uma má solução para o PS. Divide o partido.
  • Ainda pior para o PSD. Abre autoestrada para o Chega.
  • Uma solução já rejeitada por ambos os partidos.
  • Cenário altamente improvável.
  1. Maioria Absoluta do PS ou PSD
  • A solução que mais garante estabilidade e governabilidade.
  • A bipolarização eleitoral entre PS e PSD favorece este cenário.
  • Mas é difícil de alcançar pelo PS. A esquerda não gosta da solução.
  • E ainda mais difícil para o PSD, face às atuais sondagens.
  • Cenário possível mas pouco provável.
  1. Governo minoritário do PS ou PSD
  • Neste cenário governa quem ganha, mesmo sem maioria.
  • O Governo é investido e faz acordos na AR caso a caso.
  • É uma solução instável, com um governo precário e "provisório".
  • Tem o risco de eleições de 2 em 2 anos.
  • Mesmo assim, é o cenário mais provável.

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  1. Como se vê, há um risco sério de instabilidade e ingovernabilidade no pós-eleições. A opção é entre uma maioria absoluta e um governo "provisório". Eu sei que a solução de uma maioria absoluta não agrada aos partidos dos extremos e a uma certa bolha política e mediática. Mas, além de ser uma solução democrática e legítima, é, do ponto de vista nacional, a que melhor garante três objectivos essenciais: um governo estável e de quatro anos; um governo com tempo e condições para reformar; um governo sem desculpas para não governar.

ENTREVISTAS DE COSTA E RIO

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  1. A entrevista do PM à RTP foi uma entrevista inteligente, bem pensada e bem concretizada. Vê-se que António Costa é um profissional da política. Mas esta entrevista tem uma grande fragilidade: não é a entrevista de um PM com um projecto para o país; é a entrevista de um líder que só tem um objectivo: sobreviver no poder. Só luta para se manter no poder.
  2. Primeiro, quer uma maioria absoluta, mas também aceita governar sem ela;
  3. Segundo, governou seis anos à esquerda, mas, agora que a geringonça acabou e não ressuscita, não tem pejo de governar ao centro com o PSD;
  4. Terceiro, há um ano dizia que o PSD era descartável – até para viabilizar o OE – mas agora o PSD já é um aliado credível.
  5. Mudar de convicções só para manter o poder não é muito edificante! 
  6. Rui Rio também deu uma entrevista à RTP. Outra entrevista bem pensada e preparada. Mas, tal como a entrevista do PM, tem duas fragilidades:
  7. Primeiro: a ideia de que fazer debates é algo de negativo. É uma ideia errada. A mesma ideia errada que levou Rui Rio a acabar com os debates quinzenais na AR com o PM. Não sei se Rio faz isto por medo ou por convicção. Em qualquer dos casos presta um mau serviço à democracia. O debate é essencial à democracia. Dentro e fora dos partidos.
  8. Segundo: Rui Rio diz que não quer fazer campanha interna nem fazer debates com Paulo Rangel porque quer concentrar-se em fazer oposição a Costa e não entrar em tricas internas. Mas, numa hora de entrevista, não fez uma única crítica ao PM e fez várias a Paulo Rangel. Curioso!

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