Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 17 de fevereiro de 2019 às 20:54

Notas da semana de Marques Mendes

As notas da semana de Marques Mendes no seu comentário na SIC. O comentador fala sobre a remodelação do Governo, a crise da ADSE e a moção de censura ao Governo, entre outros temas.

A REMODELAÇÃO

 

  1. Desta remodelação há quatro conclusões a tirar:
  2. Primeira: é uma remodelação em circuito fechado. Tudo feito com a prata da casa. Tudo feito com o núcleo duro do PS. O que torna o Governo cada vez mais fechado e de combate.
  3. Segunda: é uma remodelação que mostra um ligeiro desvio à esquerda. As promoções de Pedro Nuno Santos e de Duarte Cordeiro confirmam-no. A ala esquerda do PS ganha força no Governo.
  4. Terceira: é uma remodelação que consagra o brutal reforço político de Pedro Nuno Santos. Ele sobe a super Ministro. Fica com um Ministério super popular. E ainda ganha num lugar-chave o seu grande aliado Duarte Cordeiro. E até Mariana Vieira da Silva.
  5. Quarta: não é uma remodelação para fazer obra. Não há tempo. Mas é uma remodelação para fazer política, a pensar nas eleições.

 

  1. Há, finalmente, uma característica interessante: a pouco e pouco, o PM dá palco a todos os seus potenciais sucessores: a Fernando Medina "deu-lhe" a Câmara de Lisboa; a Pedro Nuno Santos "dá-lhe" um cargo de super ministro; a Pedro Marques "dá-lhe" a liderança da lista ao PE e um futuro com mais peso político; falta Ana Catarina Mendes, que será ministra no próximo governo PS.

 

ECONOMIA – PORTUGAL NA CAUDA DA EUROPA

 

  1. Esta semana ficou a saber-se que Portugal cresceu em 2018 abaixo das previsões (2,1%). E muita boa gente – a começar pelo Governo – veio mostrar estar bastante feliz com o resultado.

 

  1. A verdade, porém, é que este resultado é medíocre e não augura nada de bom para o futuro. Estamos a crescer acima da média europeia, mas estamos a crescer menos que os países do nosso campeonato. Em conclusão:
  2. Estamos cada vez mais na cauda da Europa. Hoje, no quadro dos 19 países que integram a Zona Euro, Portugal está em 17º lugar. Há poucos anos estivemos em 13º. Atrás de nós, agora, só a Letónia e a Grécia (Quadro 1);
  3. Andamos há anos a baixar de divisão. Só desde o início do século já houve 6 países da UE que nos ultrapassaram em termos do PIB per capita: Eslovénia, República Checa (este não é da Zona Euro), Malta, Estónia, Eslováquia, Lituânia (Quadro 2);
  4. A prosseguirmos esta tendência de crescimento medíocre, daqui a 3 anos podemos ser ultrapassados pela Letónia e aí ficamos definitivamente na cauda da Europa, com uma companhia nada brilhante, a da Grécia.

 

  1. Portugal tem muitos problemas. Mas este – o do crescimento – é o problema. Mesmo assim, anda tudo anestesiado e tudo a fingir que não percebe.

 

 

A CRISE DA ADSE

 

  1. É a crónica de uma crise anunciada. Uma crise em que todos perdem: perde a ADSE, que corre o risco de perder beneficiários; perdem os privados, porque sem a ADSE sofrem um forte abalo; perde o SNS, que corre o risco de implodir; e perdem, sobretudo, os funcionários públicos que têm na ADSE um excelente seguro de saúde.

  1. A grande responsabilidade é do Governo. Os bons governantes actuam para antecipar problemas e evitar problemas. Neste caso, o Governo nada fez para prevenir e evitar esta crise. No futuro, até pode haver uma solução. Mas, agora, vai ser muito mais difícil, porque as posições estão demasiado extremadas.

 

  1. Acresce que o Governo está completamente desorientado. Nesta matéria, o Governo parece uma orquestra desafinada: o PM põe alguma água na fervura; ao contrário, a Ministra e o seu Secretário de Estado comportam-se como verdadeiros incendiários.

 

  1. É mais um problema político a fragilizar o Governo. Esta crise gera angústia, incómodo, ansiedade, instabilidade e incerteza nos funcionários públicos. É mais ruído e mais desgaste para o Governo.

 

 

A MOÇÃO DE CENSURA AO GOVERNO

 

  1. É a segunda Moção de Censura que o CDS apresenta ao Governo. A primeira, no fim de 2017, fez todo o sentido. Censurar o Governo pela forma inqualificável como lidou com o caso extraordinário que foram os incêndios florestais.

Esta segunda Moção não tem significado útil. É política virtual e até artificial. É um número de fogo de artifício. Não tem qualquer razão substantiva que a justifique.

 

  1. Acresce que é "gato escondido com rabo de fora". Esta Moção, em boa verdade, não é uma Moção contra o Governo. É uma Moção contra o PSD e contra o Aliança. Por um lado, . É a tentativa do CDS de mostrar que faz mais oposição que o PSD. Por outro lado, é também o CDS a mostrar que está preocupado com o surgimento do Aliança. Ou seja: nada disto tem a ver com o país. Tudo isto tem a ver com a competição pela liderança da oposição.

 

  1. Quanto ao PSD, só tem um caminho: a abstenção. Se votar contra, ao lado do PS, suicida-se. Se vota a favor, ao lado do CDS, faz o papel de idiota.

 

  1. Se Cristas quer liderar a oposição – e na AR já lidera – deve fazer o que tem feito e não apresentar Moções de Censura. Tem que enfrentar o PM, porque o PSD deixa sempre António Costa à solta; tem que dar voz aos problemas reais do país; e tem que apresentar ideias alternativas.

 

 

AS CONVENÇÕES DO PS E DO PSD

 

  1. Foram duas convenções sem história. Na prática, dois comícios eleitorais.
  2. A do PS serviu para apresentar o cabeça de lista às Europeias e mostrar que o PS aposta tudo no Governo para ganhar as europeias (2 ministros na lista);
  3. A do PSD serviu para fazer crítica ao Governo, traçar ideias gerais e anunciar Carlos Moedas como mandatário às eleições europeias.

 

  1. Há uma falha grave de ambos os lados – no plano da iniciativa política.
  2. O PS e o Governo perderam a iniciativa política. Em especial o Governo. Anda sempre a reboque dos acontecimentos – é na ADSE, nos enfermeiros, nos professores, em geral. Dá a sensação de ser um governo esgotado.
  3. O PSD ainda não tem iniciativa política. São só generalidades. Não há nada de marcante, que fique na cabeça das pessoas. A não ser a ideia de que Rio quer fazer acordos com o PS depois das eleições. Ele não perde o desejo de "namorar" ou "casar" politicamente com António Costa. Nisso ele é coerente.

 

  1. E, todavia, ambos os partidos deviam estar bem preocupados. Amanhã virá a público a sondagem de Fevereiro da Aximage (para o CM e Negócios).
  2. O PS volta a baixar. Há um ano estava com 40% da intenção de voto. Agora baixou para 36%. E neste último mês voltou a baixar. Ou seja, longe da maioria absoluta.
  3. O PSD também está mal. Há um ano não estava bem. Estava com 26%. Agora está pior. Apenas com 24%. Com uma preocupação adicional – se o PSD não ganha as eleições europeias, que são as mais fáceis, parte derrotado para as legislativas, que são as mais difíceis.

 

 

 

CARLOS COSTA DEVE SAIR?

 

  1. As acusações agora feitas a Carlos Costa são muito mais graves do que as que lhe foram feitas no passado, quer sobre o BES, quer sobre a resolução do Novo Banco.

 

  1. Se as acusações que lhe foram feitas, através da Revista Sábado, fossem ou forem verdadeiras, Carlos Costa tinha de sair do cargo. Mesmo antes do fim do mandato. Porque lhe retirariam total autoridade para o exercício da função.

 

  1. Vi, entretanto, no Expresso de ontem, que, afinal, os factos imputados ao Governador não são verdadeiras. Que, afinal, ele não teve nenhuma decisão lesiva do interesse público enquanto gestor da Caixa.

 

  1. Sendo assim, entendo que Carlos Costa deve tomar a iniciativa de vir a público esclarecer tudo. Explicar se participou ou não. Se sabia ou não sabia. Na minha opinião, já o devia ter feito. Não devia esperar pela Comissão de Inquérito. Por cada dia que passa está a fragilizar-se e a deixar fragilizar o Banco de Portugal.
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