Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 30 de junho de 2019 às 21:11

Marques Mendes: "Com tiros nos pés o PS não ganha a maioria absoluta"

As notas da semana de Marques Mendes no seu habitual comentário na SIC. Marques Mendes fala sobre a escolha de cargos na Europa, o combate à corrupção e o pedido de maioria absoluta do PS, entre outros temas.

FUMO BRANCO NA EUROPA?

 

  1. Factos essenciais:
  2. Na passada sexta-feira, à margem do G20, no Japão, Merkel e Macron fizeram um acordo:
  • Timmermans (socialista) – Presidente da Comissão Europeia
  • Weber (PPE) – Presidente do Parlamento Europeu
  • Presidente do Conselho Europeu – Um liberal (PM belga)
  • Alto Representante para a Política Externa – Um elemento do PPE

Aparentemente tudo resolvido.

  1. Surpreendentemente, esta tarde de domingo, na Cimeira do PPE que antecedeu o Conselho Europeu, este acordo foi rejeitado. Houve uma revolta geral e Merkel ficou praticamente isolada. Dos PM do PPE só teve o apoio do Luxemburguês. Duas razões para o chumbo:
  • Por um lado, o PPE fez questão de manter a Presidência da Comissão.
  • Os países de leste (e mais Itália) não querem Timmermans, em grande medida porque foi ele, como comissário, que abriu processos à Hungria e Polónia, por alegada violação das regras do Estado de Direito.

 

  1. O que pode suceder agora?
  2. Continuar o impasse e o Conselho Europeu ser adiado – É o que Merkel quer. É o que Macron não quer. O adiamento seria mau para a UE.
  3. Voltar-se ao início e retomar a ideia de um Presidente da Comissão Europeia do PPE (Michel Barnier). Mas tem problemas: Merkel não quer um francês à frente da Comissão e o PE entende que tem de ser um dos 3 candidatos que se apresentaram às Europeias;
  4. Retomar-se o acordo de sexta-feira, com alguns retoques: Timmermans seria mesmo o Presidente da CE, mas os restantes cargos poderiam ser reajustados.
  • Se este cenário se confirmar, será uma grande vitória para António Costa. O PM português empenhou-se desde o início na escolha de Timmermans e nunca o deixou cair, mesmo quando muitos achavam a hipótese impossível. 

 

O COMBATE À CORRUPÇÃO

 

  1. Esta semana o combate à corrupção esteve na ordem do dia. Pelas melhores e pelas piores razões.
  2. Melhores razõesUma excelente intervenção de Ramalho Eanes sobre a sociedade portuguesa e a "epidemia" da corrupção;
  3. Piores razões – O Conselho da Europa "puxou as orelhas" a Portugal por ainda não ter implementado várias recomendações internacionais para melhor prevenir o fenómeno da corrupção.

 

  1. Há que dizer, a este respeito, o seguinte:
  2. Não sei se hoje há mais ou menos corrupção que no passado. Mas uma coisa é certa: ela está mais visível porque nunca como hoje foi tão forte o combate à corrupção em Portugal. E isso é muito positivo.
  3. Mas há duas entidades que, ao contrário, não parecem felizes com a situação: os dirigentes do PS e do PSD. A classe dirigente dos dois partidos parece incomodada com o combate à corrupção. E, por isso, tudo faz para tentar "controlar" e "domesticar" e limitar os poderes da justiça. Em vez de darem mais meios de investigação às polícias, as cúpulas do PSD e do PS passam a imagem   que o que mais desejam é "politizar" a justiça para a tentar controlar. O PS, em particular, depois do caso Sócrates, devia ter mais pudor.
  4. Salva-se no meio disto o PR. Esta semana, Marcelo Rebelo de Sousa fez um ataque cirúrgico mas brutal a estas manobras do PS e do PSD. Ao divulgar um telefonema que fez à PGR, Marcelo disse duas coisas essenciais: que o combate à corrupção é essencial; e que, para tal, a autonomia do MP é decisiva.

 

PS PEDE MAIORIA ABSOLUTA

 

  1. O PS veio, finalmente, pedir uma maioria absoluta nas próximas eleições. Carlos César, no princípio da semana, e Ana Catarina Mendes, no fim da semana, foram claros. O PS quer mesmo uma maioria absoluta.

Vejamos, então, quais são, a meu ver, os argumentos a favor e contra uma maioria absoluta do PS:

  1. A favor:
  • Baixo desemprego e melhores salários
  • Contas certas
  • Desejo de estabilidade
  • Incapacidade da oposição
  1. Contra:
  • Receio de poder absoluto
  • Tiques de arrogância e insensibilidade
  • O estado da saúde e da carga fiscal
  • Falta de um projecto mobilizador

 

  1. Aqui chegados, eu diria que nesta estratégia o PS tem uma vantagem clara e uma desvantagem séria.
  2. A vantagem clara: na campanha eleitoral próxima não se vai discutir quem ganha as eleições. O que se vai discutir é se há ou não maioria absoluta. Isto é uma enorme vantagem para os socialistas.
  3. A desvantagem séria: se não conseguir ter uma maioria absoluta, a vitória eleitoral do PS vai ter um sabor a derrota. E isso vai causar problemas sérios: primeiro, uma certa depressão psicológica nos dirigentes do PS (há 20 anos sucedeu o mesmo com Guterres); depois, uma dificuldade de negociação no Parlamento, porque qualquer potencial parceiro vai querer endurecer as suas posições negociais.

 

TIQUES DE ARROGÂNCIA DO PS

 

  1. O PS fez bem em pedir a maioria. A clareza é boa conselheira. Mas pediu-a da pior maneira possível. Com tiques de arrogância à mistura. E a arrogância mata.

 

  1. Vejamos os exemplos:
  2. As declarações da Secretária de Estado da Justiça, Anabela Pedroso, sobre os atrasos no Cartão do Cidadão. Dar a entender que a culpa dos atrasos é das próprias pessoas não é só insensatez. É arrogância. Só vi destas insensibilidades no fim do cavaquismo. Mas aí foi ao fim de 10 anos de poder!
  3. As declarações de Centeno sobre o caos na Saúde, a dizer: Nunca tivemos tantos médicos e enfermeiros. O não reconhecimento de falhas e problemas revela uma insensibilidade social gritante, quando o SNS rompe pelas costuras e tem mais uma greve de médicos à vista. Parece o discurso do oásis de Braga de Macedo nos anos 90.
  4. E, mais grave de todas, as declarações de Carlos César a atacar violentamente o BE e demais parceiros da geringonça. Percebe-se o objectivo: virar as costas à esquerda para ocupar o espaço do centro. Mas isto tem 2 problemas: o Mensageiro e a Mensagem.
  • O Mensageiro – Se o objectivo é falar para os eleitores do centro, o mensageiro é o pior possível. César não é um político respeitado nem considerado pelo eleitorado do centro.
  • A mensagem – É um triplo erro. Primeiro, é uma mensagem de ingratidão para com BE e PCP que colocaram o PS no poder e aguentaram 4 anos de governo; depois, é um exercício de cobardia. César diz isto agora, que acabou a legislatura, não tendo tido a coragem de o dizer antes; terceiro, é mais um exercício de arrogância.

 

  1. Tudo isto é mortal. Com estes tiros nos pés, o PS não ganha a maioria absoluta. Perde votos ao centro e à esquerda. Uma maioria absoluta exige: humildade, respeito e diálogo. Se o PM não põe ordem na casa, vai ter uma via sacra no futuro.

 

LISTAS DE DEPUTADOS DO PSD

 

  1. Pelo Expresso de ontem ficámos a saber alguns dos cabeças de lista do PSD nas próximas eleições legislativas. Manda a verdade que se diga que as primeira impressões são positivas.
  2. Primeiro, pelo efeito surpresa. Vários nomes são total surpresa e o efeito surpresa, em política, é positivo.
  3. Depois, porque a ideia em si é boa – é uma ideia de renovação, de refrescamento e de abertura.
  4. Em terceiro lugar, porque alguns dos nomes são bons – Margarida Balseiro Lopes, líder da JSD, é uma jovem competente; Filipa Roseta é uma mulher de qualidade; Hugo Carvalho é outro jovem promissor.

 

  1. Posto isto, há que ser realista. Tudo isto tem dois lados menos simpáticos.
  • Primeiro, pode ter um efeito negativo na dinâmica das campanhas, levando á desmobilização da máquina partidária. Estas figuras representam um refrescamento mas não são figuras de primeiro plano.
  • Segundo, provavelmente são decisões sem efeitos eleitorais. Em termos de votos, os candidatos pesam pouco. Em eleições legislativas, quase ninguém vota em deputados. A maior parte dos eleitores nem sequer os conhece. Vota-se em partidos e eventualmente num candidato a Primeiro-Ministro.

Foi o que sucedeu nas eleições europeias. O PSD tinha um bom cabeça de lista e perdeu clamorosamente. O PS tinha um mau cabeça de lista e ganhou com quase 12 pontos de vantagem.

 

 

 

 

A ENTREVISTA DE PEDRO NUNO SANTOS

 

  1. A entrevista do Ministro Pedro Nuno Santos à SIC, revela uma questão essencial: a importância do peso político de um Ministro dentro do Governo.
  2. Por que é que só agora, no final do mandato, o Governo está a começar a "mexer" a sério na CP para combater o défice de comboios que existe? Porque só agora tem à frente deste sector um Ministro com peso político.
  • Pedro Marques ocupava o lugar. Pedro Nuno Santos exerce o poder. É uma diferença essencial.
  • Pedro Marques não tinha peso político. Pedro Nuno Santos tem peso, bate o pé, enfrenta o MF e consegue o que pretende. E, se um dia não lhe deram condições, bate com a porta e vem embora. Isto é essencial num Ministro.
  • É o contrário do que sucede, por exemplo, na Saúde. A Ministra da Saúde é uma politico-dependente do MF. Pedro Nuno Santos, ao invés, tem um alto grau de autonomia.
  1. A generalidade das pessoas reclama: ministros sérios, competentes e dedicados. Tudo isso é importante. Mas, sem peso político, um Ministro sério e competente não só não se consegue afirmar como não consegue fazer frente à ditadura do Ministério das Finanças. Os cemitérios políticos estão cheios de ministros sérios e competentes que não fizeram história. Um governo não é propriamente uma Santa Casa da Misericórdia.
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