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Luís Marques Mendes 11 de Fevereiro de 2024 às 21:49

Marques Mendes: eleições no Açores mudaram "dinâmica da campanha" no continente

No seu habitual espaço de opinião na SIC, Luís Marques Mendes analisa a forma como os resultados eleitorais no Açores vieram "mexer" com a campanha nacional e os debates televisivos.

A VITÓRIA DO PSD NOS AÇORES

  1. A política não faz milagres, mas tem coisas imprevisíveis. De um dia para o outro pode mudar tudo. Foi o que sucedeu com a vitória do PSD nos Açores. A dinâmica da campanha mudou. É a novidade da semana. O PSD mudou de atitude. O PS mudou de discurso, atitude e estratégia. Comecemos por Luís Montenegro: esta semana parecia revigorado, como se viu nos debates.

  • Primeiro, no debate com Mariana Mortágua. Não era um debate fácil. Mariana Mortágua é competente e combativa a debater. Mas Luís Montenegro esteve firme e ao ataque. Depois, no debate com Paulo Raimundo. Era um debate mais fácil. Montenegro aproveitou a oportunidade para passar as mensagens do seu Programa eleitoral.

  1. Mas a maior vantagem futura de Luís Montenegro, podem ser as divisões que existem no PS sobre o governo dos Açores. É que ao subscrever o "chumbo" do novo Governo Regional, o líder do PS contraria, de uma assentada, dois pesos pesados do partido.

  • Por um lado, Francisco Assis, um dos principais apoiantes de PNS, que advogava a abstenção do PS;

  • Por outro lado, o próprio PM António Costa que, em novembro de 2015, fixou doutrina oficial: o PS só deve rejeitar um governo minoritário da AD se conseguir formar um governo maioritário alternativo. É PNS a fazer a reversão da doutrina de António Costa. Como recordou Tiago Antunes, um SE que é muito próximo do primeiro-ministro.

  • Estas duas questões não deixarão de "aquecer" o debate decisivo entre Montenegro e Pedro Nuno Santos.

A MUDANÇA DE PEDRO NUNO

  1. A maior mudança no pós-eleições dos Açores aconteceu, todavia, com Pedro Nuno Santos. Mudou a atitude, o discurso e a estratégia. Tudo a partir do debate com o Livre.

  • Primeiro, mudou a atitude. Durante semanas PNS andou contido, sóbrio, até cinzento. Nem parecia o mesmo. Parecia descaracterizado. Desde sexta-feira, voltou a mudar. Voltou ao Pedro Nuno do passado. Mais enérgico e combativo. Mais à esquerda, menos ao centro. Como se viu hoje na apresentação do programa eleitoral.

  • Segundo, mudou o discurso. "Há um risco real de a AD ganhar", disse PNS no debate com Rui Tavares. Até agora, PNS não reconhecia este risco. Só admitia o cenário da vitória. É uma mudança de discurso.

  • Terceiro, mudou a estratégia. Agora o objetivo é falar mais à esquerda, é dramatizar o discurso e fazer um apelo ao voto útil da esquerda. É uma espécie de "tocar a rebate". Tudo está presente nesta frase: "Não estamos em 2022 nem em 2015, quando se perspetivava uma maioria de esquerda". No fundo, é dizer: ou votam no PS ou a AD ganha as eleições.

  1. Esta mudança é absolutamente legítima da parte de Pedro Nuno Santos. E toda a gente esperava que o apelo ao voto útil à esquerda acontecesse, mais tarde ou mais cedo. A novidade é ter sido antecipado. Por um lado, mostra alguma preocupação da parte do PS. É o efeito dos Açores. Por outro lado, gera um novo problema: vai irritar os partidos à sua esquerda. Correm o risco de ficarem esvaziados. Nalguns casos, pode ser o risco da sua sobrevivência política.

OS DEBATES DE ANDRÉ VENTURA

  1. Há quem diga que Ventura está pior que em debates anteriores. Há outros que dizem que não. Eu acho que está igual em eficácia e diferente nas mensagens.

  • A eficácia é a mesma e é grande. André Ventura é o mais experiente de todos em debates. Experiência que lhe vem dos debates do futebol.

  • Nas mensagens está diferente. Mudou de convicções e objetivos. Sobre os Açores já disse tudo e o seu contrário. Os pedófilos e a castração química deixaram de ser prioridades. O objetivo já não é falar para pequenos nichos de mercado, mas para núcleos maiores de eleitores.

  1. A grande surpresa está no seu Programa Eleitoral, ao defender o direito à greve na PSP e na GNR. É a proposta 67 do Programa Eleitoral do Chega: "Reconhecer aos membros das Forças de Segurança o direito à filiação partidária, bem como o direito à greve". É tudo uma irresponsabilidade.

  • Primeiro, a possibilidade de os polícias poderem filiar-se em partidos é um passo sério para as pessoas perderem a confiança nas forças de segurança, na sua isenção e imparcialidade.

  • Segundo, a ideia de greve na PSP e na GNR é um convite ao aumento da criminalidade e ao aumento da insegurança pública. As populações ficam desprotegidas e inseguras. Convém recordar que os criminosos não fazem greve nem ficam à espera que a greve dos policias termine.

  • Terceiro, surpreende que o Chega diga que quer "Tornar Portugal Seguro" e depois venha fazer propostas que só agravam a intranquilidade e insegurança das pessoas.

  • Finalmente, a leviandade ainda maior é na GNR. Como a GNR tem o estatuto de força militar, consagrar o direito à greve aos militares da GNR é abrir o precedente para dentro das Forças Armadas.

  • Tudo isto é uma irresponsabilidade. Importa agora perguntar aos líderes do PS e do PSD o que pensam desta proposta mirabolante.

OS EFEITOS DOS DEBATES

  1. Importa desde já concluir duas coisas:

  • A primeira é que os debates têm sido genericamente de boa qualidade e bom nível. Destaco dois: o de Mariana Mortágua com Luís Montenegro, pela forte combatividade nas ideias. E o de Pedro Nuno com Rui Tavares, pela grande intensidade política.

  • A segunda conclusão é que as audiências têm sido muito boas. O que prova que as pessoas estão mesmo interessadas na discussão e no esclarecimento. Só não dá para perceber que ainda não se tivesse falado do estado de justiça. Ela que até está na origem destas eleições.

  1. Para além dos debates de Luís Montenegro, Pedro Nuno Santos e André Ventura, há outros casos relevantes:

  • Primeiro, Paulo Raimundo. É simpático e afetivo, mas falta-lhe traquejo. Em qualquer caso, o problema do PCP não é o líder. É o partido. Perdeu votos com a geringonça. Perde votos com as posições sobre a Ucrânia. E perde o voto de protesto para o Chega. Tem pela frente a eleição mais difícil de sempre.

  • Segundo, Rui Rocha. Tem estado bem melhor do que se esperava. Acima das expectativas. O seu problema é a estratégia da IL. Está "ensanduichada" entre dois blocos: a AD e o Chega. Corre o risco de perder eleitores com o voto útil e com a dramatização destas eleições.

  • Terceiro, Mariana Mortágua. É competente em todos os debates, porque é combativa e bem preparada. Os seus problemas são outros: primeiro, o risco de perder voto útil para o PS; segundo, não tem a mesma imagem de empatia de Catarina Martins.

  1. Quanto a Inês Sousa Real e Rui Tavares, não há novidades. Ambos passam bem a respetiva mensagem. Ambos fazem falta no Parlamento. Mas ambos correm o risco sério de perderem votos para o PS e de não se fazerem eleger.


EMPREGO E SALÁRIOS

  1. Os debates são importantes, mas a vida não se esgota nos debates. Há outras questões que carecem de discussão e aprofundamento. Entre eles está a temática do emprego, do desemprego jovem e da igualdade salarial entre homens e mulheres.

  1. O INE divulgou esta semana dados que carecem de reflexão. Uns mais positivos. Outros que suscitam preocupação.

  • Pela positiva, o crescimento do emprego. A população empregada atingiu em 2023 quase 5 milhões de pessoas. O valor mais alto desde o início da crise financeira em 2008, com o turismo e a construção a liderarem este aumento. Os imigrantes e o crescimento económico ajudaram decisivamente.

  • Pela negativa, o desemprego jovem e a desigualdade salarial entre homens e mulheres. O desemprego dos jovens está fixado nos 23,9%; uma taxa quase três vezes e meia superior à taxa geral de desemprego. Por sua vez, no ano passado, em média, as mulheres ganharam menos 15,8% que os homens. A desigualdade salarial aumentou, invertendo uma tendência de descida que se vinha consolidando desde 2013.

  • Pela novidade, o teletrabalho. Há no nosso mercado de trabalho uma mudança de paradigma. Antes da pandemia, o teletrabalho era quase residual. Depois da pandemia, parece que veio para ficar: são já quase 900 mil pessoas em regime de teletrabalho ou em regime híbrido (presencial e remoto). Uma aposta cada vez mais significativa na conciliação entre a vida profissional e familiar.

O CRÉDITO À HABITAÇÃO

  1. Perante um dos temas mais sensíveis, temos este mês duas novidades:

  • A primeira é que fevereiro é o primeiro mês de há muito tempo a esta parte em que as prestações ao Banco começam a diminuir. Ligeiramente, nos segmentos com Euribor a 3 e 6 meses. Ainda com um pequeno aumento na Euribor a 12 meses. Em qualquer caso, não havendo sobressaltos, a tendência é de descida gradual. Um fator de esperança.

  • A segunda novidade veio de Mário Centeno. O Governador do BP disse ontem que o desejável é que os juros no médio prazo estabilizem nos 2%. Admitindo este cenário, pergunta-se: nesse caso, a prestação que os beneficiários do crédito à habitação pagam ao Banco reduzir-se-ia em quanto? No exemplo de um crédito de 150 mil euros, com Euribor a 6 meses, a prestação mensal que hoje se situa nos 795 Euros reduzir-se-ia para 632 Euros. Uma redução de 20%. Outro sinal de esperança.

  1. No entretanto, dados do Banco de Portugal em relação a 2023 mostram-nos também que situações excecionais conduziram a respostas excecionais. Assim, as amortizações antecipadas quase duplicaram no ano passado (10 mil milhões de euros de reembolsos antes do tempo previsto); e o valor das renegociações de contratos foi cinco vezes superior a 2022 (quase 9 mil milhões de euros). A previsão da subida dos juros levou as pessoas a os Bancos a "mudarem de vida".

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