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Nicolau do Vale Pais 31 de Janeiro de 2014 às 10:29

"Oh boy!": a Alemanha e os seus fantasmas

Um país não é nada até que se comece a olhar para ele com olhos de ver: deixei a sala do Teatro do Campo Alegre, no Porto, na semana passada, prometendo a mim próprio armar-me em crítico de arte, da sétima arte, esta semana

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Um país não é nada até que se comece a olhar para ele com olhos de ver: deixei a sala do Teatro do Campo Alegre, no Porto, na semana passada, prometendo a mim próprio armar-me em crítico de arte, da sétima arte, esta semana. A mostra de cinema de expressão alemã "Kino 2014", promovida pelo Goethe-Institut Portugal, termina esta semana no Cinema São Jorge em Lisboa, depois das sessões no dito Teatro do Campo Alegre e no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra. Junto o "link" ao fim do artigo, com programa "baixável" em PDF, onde constam, entre outras, as informações sobre os parceiros estratégicos da iniciativa, que incluem a EGEAC ou a Medeia Filmes.


Um jovem, paradigma de uma geração - Niko, de seu nome - é o protagonista de "Oh Boy!", realizado pelo estreante Jan Ole Gerster. Estreada em 2012 como prova final de Tese para a Academia Alemã de Cinema e Televisão, a obra é uma visita trágico-cómica a essa decadência incontornável: a do desemprego jovem.


Niko desistiu do curso de Direito, vive em Berlim, capital do famoso mas desconhecido monstro europeu que é a Alemanha. Procura dinheiro numa visita ao pai no chique clube de golfe, apenas para saber que este já descobriu que Niko não está talhado para o modelo de sucesso que o seu progenitor lhe quis pagar. Diz-lhe que sabe da desistência do curso e que o melhor a fazer pelo filho é não fazer nada pelo filho. Com uma elegância madura e uma técnica narrativa só possíveis quando inscritas realmente numa prática de produção divergente do "diktat" do mercado e do sucesso comercial, "Oh Boy!" rouba o seu título a uma interjeição anglo-saxónica usada para designar estranheza, desadequação e impotência; uma espécie de "ora bolas!" americanizado. E é sobre este trio de sensações mistas que a cinematografia desta longa-metragem se desdobra, ou melhor, se enrola. Niko está em Berlim em estado de suspensão: as coisas acontecem-lhe como que por acaso, ele aceita-as como que por dever. Do café que não consegue beber porque lhe faltam trocos para a máquina, ao encontro fortuito com o seu amigo actor-desempregado, até uma vida amorosa feita de términos rápidos ou sexo saudosista, Niko está desengajado para lá da capacidade de combate. Esta angústia é brilhantemente ladeada por momentos de alto e refinado humor, como quando ele visita o "platêau" de uma produção revivalista dos tempos do Terceiro Reich, que narra o amor impossível entre um oficial Nazi e uma mulher judia. Ali, como no "Theatrum Mundi" do Barroco, a sociedade é retratada como um palco, e há cinema dentro do cinema. O momento em que o personagem-actor que faz de oficial Nazi se comove - suástica no braço - a contar aos amigos o desenlace da história (ou da História, que é disso que se está a tratar) a cujas filmagens se preparam para assistir, é uma pequena provocação deliciosa. O "thermos" do café destinado aos actores está, entretanto, vazio…


Até que chega a morte. Niko procura a solidão num Pub, mas até esta parece não querer nada com ele. A princípio, o idoso que entra e insiste em falar com ele parece só mais um daqueles cromos que quem anda na noite se habilita a encontrar. Até que ele fala: "Já não percebo o que eles dizem (…) eu era miúdo e andava de bicicleta lá fora, até que eles chegaram e começaram a partir tudo; partiram a vitrine deste bar, atiraram pedras". Percebemos, como Niko, que estamos a revisitar um dos múltiplos inenarráveis momentos de violência implosiva a que a dignidade daquela Berlim teve de saber resistir. Em contrição e auto-crítica ao seu egoísmo de criança, termina o agora velho: "E eu fiquei triste, só porque não podia andar mais de bicicleta ali". Quase não tínhamos visto ou pensado a arquitectura e o espaço público até este momento, em que o dilema pessoal do protagonista é invadido pelo dilema colectivo da interpretação da violência passada e a fotografia cresce para grande-angular. A Alemanha e os seus fantasmas são agora monólogo, e Niko o espectador e o seu desejo de participar na vida. E não poder.


A obra despede-se à medida que Niko acompanha o idoso ao Hospital depois de este - qual soldado da memória - ter tombado por terra à porta do estabelecimento. E com essa morte chega, finalmente, a paz. Sabe bem ver "a grandeza" não em aço, mas em celulóide.


http://www.goethe.de/ins/pt/lis/kue/flm/k14/ptindex.htm

 

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