Pedro Santana Lopes 19 de Fevereiro de 2015 às 00:01

Recuperação nacional: o outro lado lunar

A sociedade, para se restabelecer, tem de cuidar de todas as suas componentes, nomeadamente, as mais débeis. Portugal precisa de todas as suas famílias para recuperar.

 

1. Em Lisboa não há uma grande e boa Unidade de Cuidados Continuados. Quem, todos os dias, recebe solicitações de familiares de pessoas que se encontram em situações de forte vulnerabilidade e a quem já não podem acorrer como gostariam e elas necessitam, tem noção dos dramas que atingem muitas famílias portuguesas. As exigências de racionalização do sistema de saúde têm levado os hospitais a serem mais rigorosos quanto aos internamentos: se mais não podem fazer clinicamente, fazem saber que as pessoas não podem continuar internadas. Estas e outras razões têm levado a uma procura cada vez maior de cuidados continuados e cuidados paliativos. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa construiu uma Unidade considerada "de ponta" num terreno que adquiriu em 2004 no concelho de Cascais. Estão ocupadas as 73 camas e a apreciação generalizada é altamente elogiosa para os profissionais e para aquela Unidade de Saúde. A pressão da procura é enorme e quem trabalha na Misericórdia de Lisboa tem a perfeita noção de como é essencial investir nesta área específica.

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2. Um drama que passa ao lado da generalidade das pessoas, que têm a bênção de não terem na família uma situação de lesão vertebro-medular grave, é o da integração no quotidiano das pessoas tetraplégicas ou paraplégicas. O cidadão comum não faz ideia do que muda a vida de uma família atingida por semelhante situação. Mudam as vidas das famílias, mas a vida dos próprios, antes de mudar drasticamente, torna-se num buraco negro, numa enorme interrogação. As instituições de solidariedade têm centros de acolhimento para pessoas com variados tipos de dependência ou de deficiência. Mas para quem fica limitado do modo que aqui se refere, quase não há casas ou centros que os possam receber. Aliás, não é fácil, sequer, conseguirem as cadeiras de rodas em que passam a estar sentados e a deslocar-se; não é fácil encontrar casas adaptadas com acessibilidades adequadas; não é fácil comprar carro adaptado; não é fácil ir à escola ou à universidade... A partir dessa mudança tudo passou a ser difícil.

 

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Providenciar estruturas e espaços que sejam casas de integração numa nova vida é outra missão primordial da SCML. É difícil, custa dinheiro, exige muitos esforços de vária ordem. Mas é essencial para quem está nessa condição e é um imperativo de consciência para quem dirige esta secular instituição.

 

3. Não são estas as únicas tarefas para quem está a trabalhar neste "outro lado da lua". Por exemplo, agilizar os caminhos para a adoção responsável por pessoas que anseiam por ter filhos que não foram de sua geração, mas a quem querem dar amor que têm para transmitir à criança ou crianças por quem esperam.

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Temos passado anos em grande crise económica, em Portugal e não só. O agravamento da realidade social intensificou a procura de respostas da parte das Misericórdias. Espera-se agora que as Misericórdias resolvam o que nem o setor público nem o setor privado conseguiram solucionar, por si ou em conjunto. Exemplos: gestão de hospitais e criação de emprego. E que o consigam fazer, como já disse, sem os recursos de qualquer um desses sectores.

 

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Por isso, também, deixem a Misericórdia de Lisboa e as Misericórdias fora das disputas deste ano eleitoralmente intenso. Se as Misericórdias veem a sua ação contrariada, dificultada, torpedeada, neste tempo tão complexo, a rutura não será só em Urgências (pese o enorme esforço do Ministério da Saúde). A sociedade, para se restabelecer, tem de cuidar de todas as suas componentes, nomeadamente, as mais débeis. Portugal precisa de todas as suas famílias para recuperar. Ora, quase todas as famílias têm, ou terão em breve, alguém que precisa da ajuda que só as Misericórdias e demais IPSS estão em condições de assegurar. E sem essa garantia no quotidiano, as famílias não conseguem a estabilidade indispensável para uma vida plena. Pensem nisso. Sem o trabalho eficaz deste setor, os outros dificilmente terão êxito.

 

Advogado

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Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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