Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 30 de outubro de 2019 às 20:44

Plutocracia

Agora, no início dos trabalhos parlamentares, os novos e pequenos partidos que conseguiram representação nem tiveram direito a ir a uma conferência de líderes para decidir matérias que lhes dizem respeito.

Em muitos setores da vida nacional temos um regime de plutocracia. Trata-se da predominância de alguns, baseada na força económica ou em razões conexas. Durante a campanha eleitoral, falei muito do caso dos novos ou pequenos partidos. Não têm direito a aparecer, podem falar, numa noite de nevoeiro, todos juntos no estúdio, moderados por uma jornalista com ar de quem está a fazer um frete.

 

Agora, no início dos trabalhos parlamentares, os novos e pequenos partidos que conseguiram representação nem tiveram direito a ir a uma conferência de líderes para decidir matérias que lhes dizem respeito.

 

Trata-se, de facto, de uma ideia muito estranha de democracia e, às vezes, até de respeito e de educação.

 

Outro domínio em que reina um sistema plutocrático é o das relações entre comunicação e futebol. Um exemplo: há jogos entre os chamados três grandes e três outras equipas e só os treinadores dos chamados grandes é que são entrevistados antes dos jogos. Parece que os tais grandes vão jogar contra ninguém porque, pelo menos, as televisões nem querem saber dos outros. Como é que se justifica? E nos programas de comentário político ou desportivo, como se sabe, é, normalmente, a mesma coisa: só estão representados suas excelências, os grandes partidos políticos ou clubes de futebol. Podiam alternar e, em cada semana, rodar um. Será fácil: em cada semana, ou em cada programa, ou de três em três dias, substitui-se um dos grandes por um dos outros.

 

Estamos condenados a ouvir sempre o mesmo e os mesmos? E, mais do que isso, os outros estão condenados a não existirem?

 

Por exemplo, clubes como o Vitória de Guimarães, o Sporting de Braga e o Belenenses não têm direito a dizerem de sua justiça?

 

A modernização de uma sociedade passa também muito por mudanças, como as que se impõem nestes domínios. Já lá vai o tempo do feudalismo e mesmo das aristocracias, com todo o respeito pelos títulos que cada um tenha herdado. Hoje em dia, o Governo é do povo e deve ser para o povo e todos nascemos iguais em direitos e deveres. O que é mais triste é que sejam muitos daqueles que mais devem defender a liberdade e a igualdade, pela profissão que desempenham, que mais se esqueçam dessas verdades básicas. E triste é também, ou melhor, lamentável, que as entidades que podiam exigir ou determinar as mudanças necessárias se façam distraídas. No mundo de hoje, todos querem ter opinião, com mais ou menos razão. Querer impor distinções anacrónicas é completamente fora de época, mais tarde ou mais cedo, dá asneira.

 

Advogado

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