O desastre cripto e a Europa
Hoje em dia é habitual em muitas plataformas de "trading" transacionar produtos baseados em criptomoedas, bem como investir nas chamadas “stablecoins” que são produtos cripto baseados em ativos financeiros tradicionais como o dólar. Os ativos cripto são legais nos EUA, sendo a bitcoin classificada como “commodity” e as criptomoedas como ativos financeiros regulados. Com o recente GENIUS Act, os EUA reforçaram a legitimidade do mundo cripto e das "stablecoins", permitindo a sua integração no sistema financeiro americano. As autoridades americanas esperam que as "stablecoins" baseadas em dólares se tornem moedas digitais universais e reforcem a importância do dólar a nível mundial.
A China fez o oposto dos EUA. Em 2021, ilegalizou a emissão e transações em ativos cripto, proibiu as mineradoras de bitcoins e reforçou este mês a proibição das “stablecoins”. A sua estratégia é apostar no desenvolvimento do Yuan digital gerido centralmente e isolar o seu ecossistema financeiro do universo das criptomoedas.
PUB
E o que se passa na Europa? A UE com o regulamento MiCA optou por uma abordagem intermédia, aprovando os ativos cripto, mas com forte regulação, enquanto desenvolve o Euro digital. Acredito que neste caso é a China que está correta e a Europa devia isolar o seu sistema financeiro do mundo cripto e do universo das finanças descentralizadas (DeFi).
O ponto principal é que o sistema financeiro existe para servir a economia. Existe para que os recursos da sociedade sejam organizados e alocados a atividades produtivas. Existe para que os riscos financeiros sejam melhor geridos, para que os cidadãos possam poupar para o futuro, os Estados emitir dívida para financiarem gastos e investimentos, e as empresas consigam angariar capital para investimento e gerir a sua tesouraria de forma equilibrada. A especulação financeira é o preço a pagar para ter um sistema financeiro com liquidez, que funcione e atribua o valor o mais correto possível a cada ativo financeiro.
As criptomoedas são o oposto de tudo isto. Não têm função económica e não geram qualquer rendimento pelo que não se deviam chamar ativos. Por não terem função económica nem gerarem rendimento, o seu valor não tem referencial e a formação de preço acontece por mecanismos meramente especulativos, de manipulação de mercado, de alavancagem excessiva para criar procura artificial e de invenção de narrativas que justifiquem um certo valor. Depois da valorização expressiva da bitcoin, a criptomoeda original que através do sistema de "blockchain" conseguiu replicar digitalmente o funcionamento do ouro (por isso sendo conhecida como o ouro digital), vieram as moedas alternativas aos milhares ("altcoins") que criaram a sua própria "blockchain" ou assentavam no "blockchain" original, depois as "memecoins" aos milhões que tentavam ganhar algum protagonismo ou valor. Estima-se que mais de dez milhões de criptomoedas já tenham sido lançadas, das quais apenas cerca de 10 mil tem algum valor de mercado e da quais apenas cerca de dez têm uma capitalização significativa. Neste processo de loucura coletiva e especulativa, milhões de servidores de dados que consomem 1% de toda a eletricidade produzida no mundo dedicam-se à mineração e processamento de criptomoedas, em particular Bitcoin, num descomunal desperdício de recursos a nível mundial.
PUB
Entretanto, geram-se novas vagas de loucura cripto, incluindo os NFT que são "tokens" não fungíveis que permitem garantir a autenticidade de obras digitais, algumas vendidas por milhões de dólares até à euforia acalmar e se perceber que uma obra digital de um macaco ou de um gato pode ser única, mas não vale 40 milhões. Recentemente tem sido a vaga das Digital Treasury Companies, empresas cotadas na bolsa americana, cujo único negócio é angariar capital ou dívida aos biliões e usá-los para comprar criptomoedas, esperando que a valorização destas traga lucros chorudos. Um exemplo é a Strategy Inc., que angariou mais de 25 mil milhões de dólares só em 2025 para comprar bitcoins. Neste processo adquiriu mais de 700.000 bitcoins que representam 3% de todas as bitcoins do mundo. Com o preço da bitcoin a subir para um pico de 120.000 dólares em julho de 2025, a empresa atingiu uma valorização de 128 mil milhões de dólares. E qual o único ativo desta empresa que alcançou uma capitalização bolsista superior à soma de todas as empresas portuguesas? Uns códigos digitais que não geram rendimento nem têm valor económico! Claro que com a queda recente da Bitcoin para 65.000 dólares, a Strategy Inc. perdeu mais de 60% do seu valor em bolsa e gerou em 2025 uma perda contabilista de 12,4 mil milhões no quarto trimestre. Mas, sendo o risco tão alto, porque colocaram os investidores o seu capital na Strategy Inc.? Porque a empresa prometeu um dividendo garantido superior a 10% ao ano e diz que apesar das perdas tem dinheiro angariado suficiente para pagar juros durante três anos! Quem ler isto certamente recordar-se-á da Dona Branca portuguesa ou do Bernie Madoff americano e dirá “Mas isto parece um esquema Ponzi em que se paga o juro prometido com o dinheiro dos incautos mais recentes!” Pois parece e é mesmo. É a “roupagem” cripto de um esquema Ponzi à vista de todos e que está a ser imitado por várias empresas, naquilo que é efetivamente uma enorme acumulação de risco sistémico.
A loucura cripto mais recente é a das "stablecoins" que são um ativo cripto referenciado a um ativo financeiro e que acompanha o valor desse ativo um para um. O mais conhecido é o USDT da Tether que vale um dólar e cuja emissão está garantida por reservas em dólares. Assim, as pessoas podem comprar USDT em vez de comprar dólares. Mas porque é que eu quereria comprar um ativo cripto igual a um ativo financeiro se posso simplesmente comprar o verdadeiro ativo? Os criminosos, claro, pois as transações em "blockchain" são anónimas – sabemos que acontecem, mas não sabemos quem as fez. Estima-se que cerca de 150 mil milhões de dólares de atividades ilícitas e criminosas tenham acontecido em 2025 usando criptomoedas, sendo de salientar a forte adesão recente dos criminosos às "stablecoins" pois elas garantem o seu valor melhor do que a bitcoin.
Todo o esforço que a Europa tem feito no sentido de combater a corrupção, a lavagem de dinheiro, as transações fraudulentas e criminosas é posto em causa com o crescimento das criptomoedas e das "stablecoins". A emissão de moedas não deve ser descentralizada. As moedas são baseadas na confiança, na regulação e na transparência para servir a Economia. A Europa depois da crise financeira de 2008-2010 criou um sistema financeiro fortemente regulado e solidamente capitalizado, com boa gestão dos riscos financeiros, criando confiança no Euro e solidez no seu ecossistema financeiro. Não devemos colocar isso em risco aderindo ao mundo cripto.
PUB
Em conclusão, no tema das criptomoedas é a China que está certa. Os ativos cripto são um desastre financeiro a acontecer em frente aos nossos olhos, que desvirtua a alocação de recursos e poupanças a nível mundial, destrói valor, consome recursos escassos, gera riscos sistémicos e permite todo o tipo de especulação e transações ilegais. A UE e o BCE deviam isolar o sistema financeiro europeu dos ativos cripto, lançar o Euro digital para evitar o crescimento das "stablecoins", e reforçar a segurança, confiança e estabilidade do Euro, direcionando as poupanças das empresas e cidadãos europeus para aplicações seguras e que promovam o desenvolvimento da Europa.
Saber mais sobre...
Saber mais Milhões Empresa mercado Criptomoeda União Europeia China Estados Unidos Dona BrancaMais Artigos do autor
Mais lidas
O Negócios recomenda