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Frederico Bastião 26 de Março de 2004 às 14:18

A Demissão de Marx

E, centralização das centralizações, com as demissões no INE o défice orçamental passará a ser fixado no Conselho de Ministros.

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Li nos jornais desta semana que vários directores do Instituto Nacional de Estatística se demitiram, aquilo a que um jornal chamava uma “onda de demissões”. Fiquei obviamente preocupado: será que vamos ficar sem estatísticas? Por que razão se demite essa gente?

Depois descobri, pelo mesmo jornal, que foi por divergirem de uma orientação política. Fiquei mais tranquilo. É uma marca dos grandes homens e mulheres tomarem esta nobre atitude em tais circunstâncias.

Foi o que fez o senhor Kiesling, diplomata americano com 20 anos de carreira, por causa da guerra com o Iraque, no que foi acompanhado pelo senhor John Brown.

E deste lado do Atlântico, Robin Cook fez o mesmo, embora alguns (maldosos) digam que foi por saudades de se sentar nos “back benches”, aliás observação de abertura do seu próprio discurso de demissão. E Shevardnadze demitiu-se por divergências políticas com o povo da Geórgia.

Na cauda de tais razões temos o senhor Groucho Marx, que se demitiu por divergências consigo próprio: reza a história que ele enviou um dia um telegrama ao Friar’s Club de Hollywood solicitando a demissão por não querer “pertencer a um clube que o admitia como membro.”

Qual foi a divergência política que motivou tanta perturbação no INE? De acordo com a mesma fonte, foi a centralização. Os funcionários demissionários discordam da centralização que resultaria da “redefinição do dispositivo territorial do INE” advogada pelo Ministro da Presidência.

Tal gesto, de grande elegância e coerência pessoal, constitui ao mesmo tempo uma contradição lógica - cada vez que um funcionário se demite, a centralização aumenta.

Aliás, de acordo com o Teorema de Tutahs Nugozo, quando – no limite – se fica reduzido a um único funcionário, a centralização é máxima, pois tudo passa por ele e tudo é por ele feito.

Mas atenção, Tutahs Nugozo vai mais longe, avisa-nos de um perigo que pode resultar de tal situação: é que se torna essencial, depois, conservar este funcionário, qualquer que seja o custo.

É que se ele se demitir também, prova o mesmo autor, há uma descontinuidade de primeira espécie: a centralização atinge o seu valor mínimo, é zero, pois já não há ninguém em quem centralizar. Há, então, que garantir que, chegados a um funcionário, este não se demite.

Isto explica a razão da reunião da Senhora Ministra das Finanças com a administração do INE. Ao contrário do que poderia parecer, o problema não é o funcionamento do Instituto.

É que este funcionário sobejante, o único que não se demite, qual último mohicano, poderá exigir um salário astronómico, comprometendo as economias realizadas com todos os que se demitiram. E estaria assim em causa a consolidação orçamental.

Permito-me então dar a solução de tão grave problema à Senhora Ministra: basta criar a carreira de “entregador de pedidos de demissão”. De seguida, é criar o “suplemento de entrega”, recebido por pedido de demissão entregue.

Finalmente, quando só houver um funcionário, é só cortar a dotação orçamental deste suplemento, que levará os ditos entregadores à greve (que até poderá ser de braços cruzados) ou à demissão. Voilà. E pode este desgraçado, o último não demitido do INE, dar conta de tudo?

Responderá o Governo que é uma questão de produtividade, mas não, o problema é mais sério. Enquanto tão diligente indivíduo estiver a selar as cartas para o inquérito à indústria transformadora, estão a passar-lhe ao lado os aumentos de preços.

Enquanto abre os envelopes com as respostas dos Censos, deixa escapar o aumento das importações. E nós, pobres coitados, nem nos daremos conta do que acontece. As demissões no INE levarão a que os próprios demitidos não sejam contados no desemprego, por não haver funcionários que o registem.

Mais, não diminuirá o PIB se ninguém estiver nas contas nacionais. E, centralização das centralizações, com as demissões no INE o défice orçamental passará a ser fixado – seria abusivo chamar-lhe cálculo – no Conselho de Ministros.

Frederico Bastião é Professor de Teoria Económica das Crises na Escola de Altos Estudos das Penhas Douradas. Quando um dia perguntaram a Frederico se seria capaz de se demitir, Frederico respondeu: “Sim, mas seguiria a sugestão de Lloyd George: mandava entregar o pedido por um coxo e enviava atrás dele um corredor.”

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